Em 'O Mago do Kremlin', Olivier Assayas retrata ascensão de Putin: 'Ele encarna uma nova forma de totalitarismo'
“O mago do Kremlin”, que estreia nos cinemas amanhã, contou com uma força de trabalho internacional para recriar a Rússia dos últimos 30 anos. Adaptada de um romance do ítalo-suíço Giuliano da Empoli e voltada sobretudo para o público da França, a superprodução dirigida pelo francês Olivier Assayas foi inteiramente rodada na Letônia. O elenco é composto por atores letões e anglófonos, e tem o astro britânico Jude Law no papel do “czar” Vladimir Putin.
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Sem autorização para filmar na Rússia e sem poder contar com atores nativos, o projeto de € 20 milhões tinha tudo para virar um samba geopolítico dos mais doidos. Mas não é por aí. Embora se dedique às intrigas palacianas da Rússia pós-soviética, o filme aposta no aspecto mais universal dessa história real, temperada pela ficção.
O eixo da trama é Vladislav Surkov, principal estrategista do Kremlin entre 2006 e 2020. Ainda que tenha sido peça-chave na construção das narrativas de poder de Putin, esse Rasputin do século XXI não é apenas uma figura da História russa, mas um dos mais influentes artífices do mundo contemporâneo. Seu modelo de controle social e manipulação política se espalhou pelo Ocidente e está no dia a dia de nações democráticas e autoritárias.
No filme, que mistura personalidades reais e imaginárias, a trajetória de Surkov é reimaginada pelo personagem Vadim Baranov, interpretado com frieza e serenidade por Paul Dano.
— Quando surgiu o projeto de adaptar o romance, fiquei reticente — conta Assayas, em entrevista por videoconferência. — Os obstáculos eram evidentes: a dificuldade da trama, a ambição da narrativa, e a complexidade do mundo em que tudo ocorre. Mas logo me convenci de que havia ali uma possível adaptação, porque essa história ia além da Rússia e de Putin.
Paul Dano como Vadim Baranov, personagem inspirado em Vladislav Surkov
Divulgação/ Carole Bethuel
Realidade paralela
Explorando os tentáculos contemporâneos do poder e da propaganda, Assayas acredita ter tocado em um tema “preocupante”, que interessa a todos.
— A obra de Giuliano identifica com precisão a origem dessa modalidade global da “pós-política”, nascida em torno das estratégias de Putin para conquistar e conservar o poder — diz o diretor, que já havia se aventurado no thriller político em “Carlos”, biopic de cinco horas e meia do infame terrorista venezuelano. — A propaganda de Putin mergulhou os russos numa realidade paralela. Hoje, dá para dizer o mesmo de eleitores do (presidente americano) Donald Trump, que vivem num mundo irreal, o da emissora Fox News.
Lançado em 2022 na França, o romance de foi um sucesso de público e crítica, perdendo por pouco o prestigioso Prêmio Goncourt. Ensaísta, analista político e assessor do ex-presidente do conselho italiano Matteo Renzi, o autor optou pelo registro romanesco para retratar a ascensão de Putin e a mitologia criada em torno do presidente russo.
Livro e filme seguem a mesma estrutura. Nos dias atuais, o “autor” (Jeffrey Wright) tem um encontro com Baranov, lendário por sua atuação nos bastidores do Kremlin, mas já afastado do poder. Este último relembra sua trajetória, desde a juventude na recém-colapsada União Soviética até os altos círculos da política. Pelo caminho, surgem personagens bem conhecidos da História recente, como o ex-presidente Boris Yeltsin, o oligarca Boris Berezovsky, o militante-motoqueiro Alexandre Zaldostanov, o revolucionário anarquista Edouard Limonov e, claro, Vladimir Putin.
No meio dessa galeria, desponta o triângulo amoroso melancólico formado por Baranov, Ksenia (a eterna Lara Croft Alicia Vikander) e Dmitri Sidorov (Tom Sturridge), personagem inspirado em Mikhail Khodorkovsky, empresário preso em 2003 após cair em desgraça com Putin.
Olivier Assayas no set de "O Mago do Kremlin"
Divulgação/ Carole Bethuel
Peças de vanguarda
Os anos de formação de Baranov/Surkov, logo após a queda do Muro de Berlim, são essenciais para entender suas ideias. Enquanto a Rússia vivia um período de caos econômico e de súbita liberdade cultural, o futuro Mago do Kremlin frequentava a cena artística local e dirigia peças teatrais de vanguarda
Assayas, que já havia retratado o underground francês nos longas “Desordem” (1986), “Água fria” (1994), “Irma Vep” (1996) e “Clean” (2004), filma com familiaridade esse microcosmo de aspirantes a rebelde. É desse caldo cultural, onde tudo parece possível e instável, que emerge a visão de mundo do protagonista: a política como um reality show permanente, um jogo de espelhos que mistura verdade e ficção e as torna indistinguíveis.
Entrevistado pelo GLOBO em 2025, Giuliano da Empoli contou que, diante de uma realidade cada vez mais “imaginativa”, havia desistido de escrever romances. “Na ficção, para que o leitor acredite, é preciso haver uma certa coerência. A realidade já não precisa ser coerente”, comparou.
Para Assayas, trata-se de um velho debate, que atravessa a história do próprio cinema: quem dá mais conta da realidade, a ficção ou o documentário?
— É uma questão fundamental para qualquer cineasta — afirma. — Hoje, porém, ela precisa ser colocada em novos termos, porque a próprio mentira invadiu a ficção. Existem ficções mentirosas, que não buscam aprofundar o real, mas, ao contrário, embaralhá-lo e até impedir sua compreensão.
Crítica dividida sobre 'Putin'
O roteiro de “O Mago do Kremlin” foi escrito por Assayas em parceria com Emmanuel Carrère, amigo de longa data do diretor e um dos mestres contemporâneos do chamado “récit”, forma híbrida que mistura romance, jornalismo e autobiografia. Ele é autor do premiado “Limonov”, livro que reconstrói as múltiplas vidas do escritor, mendigo, mordomo, político radical e presidiário russo Edouard Limonov. Este último, aliás, é personagem do filme, interpretado pelo norueguês Magne-Håvard Brekke.
A caracterização de Putin é polêmica. Parte da crítica considerou que Assayas errou na sua abordagem. Para o jornal Le Monde, o líder russo surge “mais como uma vítima do sistema do que como seu principal arquiteto”. O Libération avaliou que o diretor se mostra “fascinado demais” pelo personagem. Em todo caso, é difícil negar que Jude Law alcança uma proximidade física com o ditador, ainda que a intenção não fosse imitá-lo.
— O personagem de Putin no filme é apenas levemente ficcionalizado — diz Assayas. — O que nos interessava não era a pessoa, mas o que ela representa politicamente. Ele encarna uma forma moderna de totalitarismo, adaptada a uma espécie de “pós-ficção”. Por isso, não buscamos um sósia ou uma semelhança física exata, o que importava era a dimensão universal das estratégias políticas que ele encarna. A escolha de rodar o filme em inglês também se encaixou no desejo de universalidade.
Jude Law e Paul Dano em "O Mago do Kremlin"
Divulgação/ Carole Bethuel
Moscou na Letônia
Muito mais complexo foi a recriação da Rússia, um país que a equipe não pôde acessar em nenhuma etapa da produção. Assayas não contou com arquivos, objetos e figurinos autênticos, e sequer convidou atores russos, sabendo que eles temeriam represálias se participassem do projeto.
A solução foi concentrar toda a produção na Letônia, onde a equipe caracterizou cenários que vão de Moscou ao balneário de Sochi, passando pelo Mar Negro.
— Foi um desafio fazer com que esses espaços parecessem convincentes como Rússia, especialmente porque a Letônia não é exatamente semelhante a certos lugares que precisávamos representar — diz Assayas. — Mas hoje os efeitos especiais permitem alcançar um nível de transformação que seria impensável há alguns anos.
