Em novo romance de Rosa montero, mulher de 60 anos contrata garoto de programa após ter o coração partido pelo amante
Se é a totalidade de um livro que faz a cabeça do leitor, tanto no quesito estético quanto no próprio sentido, é verdade também que suas partes menores podem ser analisadas. Boas frases têm o poder de cativar a atenção. As primeiras frases de um romance, aliás, têm essa obrigação.
A espanhola Rosa Montero, já bem conhecida do público brasileiro, é hábil ao construir sentenças notáveis e ao arquitetar seu conjunto para contar uma história. No recém-lançado “A carne”, a escritora começa assim: “A vida é um pequeno espaço de luz entre duas saudades: a do que você ainda não viveu e a do que não poderá viver mais.”
Há outras maneiras de expressar a mesma ideia, e cada autor faria de modo distinto. Mas a expressão “espaço de luz”, que ocupa duas temporalidades, é singular. Um pequeno exemplo de como Montero opera a linguagem: com simbolismo, mas sem pieguice. Convém não confundir as boas frases de Montero com qualquer tipo de livro sublinhável de desenvolvimento pessoal. O que Montero realiza em “A carne” é uma narrativa única porque consegue mesclar doses de humor com drama e reflexões muito humanas evitando clichês.
‘incêndio mental’
Em Madri, a curadora de arte Soledad sofre com o coração partido após o término do relacionamento com Mario, seu amante. O rompimento tem um motivo: a gravidez da mulher dele. É com a fúria e a tristeza de Soledad que o leitor se depara na primeira página, onde aparecem outras boas figuras de linguagem como “incêndio mental”, para expressar o desejo de vingança da protagonista: “Aquilo doeu. Sem dúvida por isso haviam terminado. Mas também não foi nenhuma surpresa. Soledad sabia, sempre soube que Mario queria ter filhos. Não era uma novidade, repetiu a si mesma, tentando domar a fera dela”, diz o narrador em terceira pessoa.
Embora seja uma narração onisciente, é muito próxima da protagonista. Tal intimidade abre a possibilidade para duvidar se a narração não seria uma falsa terceira pessoa já que a protagonista tem uma ambição reprimida de tornar-se escritora. Um veredicto sobre quem narra, entretanto, não se faz necessário pois o romance ganha com a possível indefinição.
A vontade de revidar é ampliada por dois eventos, o aniversário de 60 anos de Soledad e a proximidade de uma apresentação da ópera “Tristão e Isolda”. Ela sabia que Mario estaria presente com a mulher grávida. Para causar ciúmes no ex-amante, duas décadas mais jovem do que ela, decide contratar um garoto de programa igualmente belo.
Soledad ainda precisa lidar com uma rival no seu trabalho. Ao organizar uma exposição na Biblioteca Nacional, a arquiteta do grupo insiste em questionar suas ideias para depois roubá-las.
Todos esses conflitos surgem nas primeiras partes do livro, deixando a protagonista no centro de diversos dilemas. Se há conflito, há movimento. E, assim, a história é movimentada para a frente. Bons romances precisam de ação, mesmo que seja subjetiva. “A carne” equilibra a vida interna de Soledad, com sua psicologia, com cenas de assalto e até um tenso encontro com um mafioso chinês.
O principal impasse da personagem, todavia, é com o tempo. A passagem dos anos é inevitável. A carne, do título da obra, é a evidência constante de que impossível fazer com que o tempo pare. “O corpo era uma coisa terrível, de fato. A velhice e a deterioração se instalavam de um modo insidioso e muitas vezes a pessoa em questão era a última a perceber, como os cornos do teatro clássico”, diz a narradora.
É benéfico para a literatura contemporânea haver histórias de pessoas maduras apaixonadas. “A carne” conversa, nesse sentido, com “Sr. Loverman”, de Bernardine Evaristo. Tanto em um como em outro o sexo é vivido por personagens de mais de 60 anos, no caso da espanhola, e mais de 70, no caso da autora inglesa.
O garoto de programa contratado por Soledad é Adam, um órfão russo de 30 e poucos anos que migrou para a Espanha. Conforme os encontros se repetem, a narração para de se referir a ele como gigolô, indicando uma progressão na relação entre eles. A evolução da dinâmica é o que conduz o enredo para o seu desfecho. A história é intercalada por um diário obsessivo de Soledad, mas também por lembranças de seu passado que ajudam a entender tal obsessão.
livro à parte
Culta e imersa na elaboração da exposição na Biblioteca Nacional, Soledad vai apresentando uma coleção de escritores malditos como William S. Burroughs, Philip K. Dick e até Guy de Maupassant. Mas é uma escritora inventada que mais chama a atenção: Josefina Aznárez. A autora criada por Montero merecia um livro à parte, mas enche de aventura e loucura os monólogos internos da protagonista. É através da figura imaginada de Aznárez que a personagem de Soledad se encontra com a personagem da própria Montero, que entra na história como autora de um perfil sobre Aznárez. A maldita — ou excêntrica — Aznárez é tão convincente que serve como um desejável lembrete de que, por mais que tenham elementos autobiográficos ou inspirados no real, os melhores romances precisam da fabulação e imaginação.
