Em novo livro, Regina Delcastagnè mostra como a literatura brasileira enfrentou o desafio de 'falar do outro' a partir de 1970
A partir dos anos 1970, os escritores brasileiros se viram diante de um desafio e tanto: como falar do outro? Historicamente produzida por uma classe média branca, masculina e intelectualizada, nossa literatura passou a ser interpelada por novas vozes que surgiam num país que passava por uma urbanização tão desenfreada que forçou os autores a inventarem outros jeitos de escrever, mais apropriados à cacofonia das cidades. No recém-lançado “Uma história da literatura brasileira contemporânea: a narrativa”, a crítica literária e professora da Universidade de Brasília Regina Dalcastagnè conta como nossa ficção tentou dar conta desse desafio.
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Em mais de 600 páginas, a autora apresenta um painel da literatura brasileira de 1970 a 2025 (de Lygia Fagundes Telles a Itamar Vieira Junior) e mostra como a ficção elaborou os vaivéns do país: o legado da escravidão e da ditadura, as mudanças no mundo do trabalho, as novas configurações familiares. Em entrevista por videochamada ao GLOBO, Dalcastagnè falou do impacto da obra de Carolina Maria de Jesus, da demanda por uma literatura de fácil digestão (e que não provoque o cancelamento do autor) e do problema da nossa ficção com os pobres.
Como a literatura contou a História do Brasil desde 1970?
A literatura se transforma para mostrar como as pessoas vivem cada tempo, as grandes mudanças políticas e econômicas. Se avaliarmos um conjunto expressivo de livros, vemos linhas de força que nos oferecem uma interpretação do Brasil. Há mais de uma interpretação possível, é óbvio. Dou aula para garotos de 18, 19 e 20 anos e é interessante ver a surpresa deles ao se reencontrar com o país por meio da literatura.
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Como é esse reencontro?
Às vezes, levo contos sobre empregadas domésticas e os alunos veem ali a experiência da mãe ou da tia. Uma vez, levei o conto “Aqueles dois”, de Caio Fernando Abreu, sobre colegas de trabalho que vivem uma relação homossexual. Diante da sala toda, um aluno disse: “Professora, li esse texto para um cara. Ganhei o cara” (risos). A literatura é uma forma de conectar as pessoas, dá para se relacionar com ela de diferentes formas, principalmente quando ela não é didática.
O didatismo é problema hoje?
Estamos num momento de uma literatura afirmativa, que diz “isso aconteceu assim” e apaga a complexidade dos personagens. Criticar os movimentos identitários não é dizer que essas vozes não têm importância. Entendo a necessidade das pessoas de se verem na literatura, mas o didatismo é limitante, precisamos oferecer perspectivas mais ricas. Temos que falar sobre horrores do racismo e do feminicídio, mas a questão é: como falar? É melhor para a literatura ter várias vozes falando ao mesmo tempo do que cada voz só falar daquilo que, teoricamente, lhe diz respeito. Literatura é extrapolação da própria experiência na esperança de alcançar algo a mais.
A urbanização acelerada dos anos 1970 foi o fenômeno que mais impactou a literatura?
Sim, junto com a ditadura. A mudança para o meio urbano impactou a temática e a escrita. A cidade acelera e fragmenta a narrativa, que tenta expressar o que é caminhar nas ruas de uma grande cidade, ouvindo pedaços de conversa. No grande caldeirão urbano, é mais fácil se comunicar, ter voz, e a literatura fica mais plural. Aparecem escritores que são jornalistas, advogados e operários, além de pessoas negras e mulheres que querem transmitir suas experiências.
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Você mostra que a ficção brasileira privilegia personagens brancos, do sexo masculino e das classes médias, enquanto personagens humildes são muitas vezes estereotipados e sem muita vida interior. Nossa literatura tem um problema com pobres?
Acho que sim. Os pobres são minoria, nossa literatura é feita pela classe média. Mesmo pessoas nascidas pobres, quando começam a escrever, adquirem uma nova perspectiva social e olham para suas origens com outras questões. Carolina Maria de Jesus, escrevendo na favela, já via seus vizinhos como “os outros”. A partir dos anos 1970, falar do outro, mostrar que a existência dele é tão rica e complexa quando a sua, se torna uma preocupação de autores de classe média, como Clarice Lispector, em “A hora da estrela”, por exemplo.
Por que Carolina Maria de Jesus é a mais citada no livro?
Carolina foi uma mulher negra e migrante que lutou para poder escrever, cuja obra se contrapõe à dos escritores brancos de classe média e representa um corte com o que era a nossa literatura antes. Não à toa, tentaram apagá-la, mas ela sempre ressurge, o que nos permite pensar as disputas no campo literário: quem tem voz, o que é literatura e o que é testemunho, o que é forma e o que é só conteúdo. Carolina bagunça essas categorias.
Você aponta que Rubem Fonseca e Dalton Trevisan olham os personagens pobres de cima e “constroem sua representação do outro sob a perspectiva das elites”.
Nenhum autor está fora do alcance da crítica e é importante apontar os vieses nos textos de autores consagrados. Em relação à representação desses personagens, Fonseca e Trevisan pecam, sim. Por mais que separemos autor, narrador e personagem, dá para ver, pelo texto, que eles estão comprometidos com um determinado olhar, que é problemático. Por outro lado, um autor como João Antônio tem tanta empatia por personagens marginais que às vezes cai num paternalismo que também é problemático. É como eu disse: a partir dos anos 1970, falar sobre o outro virou um problema para certos autores.
O que acha da moda da autoficção?
Boa parte da autoficção não consegue se abrir para pensar o mundo e sua responsabilidade em falar dele. Falar do outro é mais desconfortável e difícil que falar de si. É uma literatura mais fechada. Me agradam livros que trazem vozes diversas, que se contradizem e perturbam a discussão, onde ninguém é dono da verdade.
Pode dar exemplos?
“Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro, de 1985, é um livro cheio de vozes contraditórias, de ironia, brincadeiras e deboche, mas em momento algum aplaca o horror da escravidão. O leitor pode rir, concordar, discordar. Já “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, de 2006, é narrado da perspectiva de uma mulher negra, ex-escravizada, que tem autoridade e legitimidade para contar uma história que ainda não tinha sido contada. Se o leitor discorda da narradora, ele corre o risco de ser indelicado com a dor do outro. São textos de tempos diferentes e de vozes autorais diferentes, é verdade. Espero que “Um defeito de cor”, que é um livro importantíssimo, possa inspirar outras obras com vozes mais contraditórias, com menos certezas e menos verdades.
Durante a ditadura, a literatura brasileira inovou na forma: escrita telegráfica e fragmentária, alegorias, livros que eram quase quebra-cabeças para o leitor. A ficção hoje é mais conservadora na forma?
Cada vez mais se quer uma literatura que fale mais diretamente ao leitor. A ideia é a seguinte: “Se eu não escrever de forma direta e tomar muito cuidado com os personagens, o leitor não vai entender e eu talvez seja cancelado.” Nos anos 1970, essa preocupação não existia. Sérgio Sant’Anna, Ignácio de Loyola Brandão e Hilda Hilst, por exemplo, esticavam a linguagem e convidavam o leitor a participar de um jogo. Nem todos conseguiam participar, mas eram propostas interessantes. Hoje, a não ser por um autor aqui e outro ali, a experimentação não é mais a linha de força da literatura brasileira. A comunicação é mais direta. Perdeu-se a ambiguidade e as metáforas.
Serviço:
"Uma história da literatura brasileira contemporânea: a narrativa"
Autora: Regina Dalcastagnè. Editora: Todavia. Páginas: 608. Preço: R$ 79,90.
