Em nova proposta de tarifaço, governo Trump usa dados defasados e cita ápice de desmatamento na gestão Bolsonaro
O desmatamento ilegal foi um argumento central na investigação do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) para a proposta de um novo tarifaço de 25% contra produtos brasileiros. O documento, porém, cita dados defasados e ignora as recentes reduções nas taxas de corte de árvores. Além disso, destaca que o desmatamento no Brasil atingiu um pico em 2021, justamente durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, quando houve recordes de crimes ambientais na Amazônia, e que esforços atuais de fiscalização "podem ser desfeitos por administrações futuras".
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O argumento do USTR é que o desmatamento ilegal permitiria que produtos brasileiros, especialmente agrícolas e de madeira, sejam produzidos a custos artificialmente baixos, porque, de acordo com a investigação, produzir em área degradada seria mais barato. A investigação diz que essa situação impactaria preços globais, e estima um incremento entre 7% e 16% no preço da madeira legal, devido ao suposto alto volume da exportação ilegal do produto.
O texto cita a palavra desmatamento 40 vezes, o dobro das menções ao "pix". O documento frisa que o desmatamento é um problema histórico e sistêmico no Brasil, mas não faz qualquer menção aos recentes resultados positivos nas florestas brasileiras.
Queda de desmatamento na Amazônia é ignorada
De acordo com o sistema oficial do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Prodes, o desmatamento caiu 50% na Amazônia e 32% no Cerrado, entre 2022 e 2025, os números mais recentes. O último resultado na Amazônia representou a quarta queda anual consecutiva, o menor nível em 11 anos e o terceiro menor desde o início do monitoramento, em 1995.
Na semana passada, o levantamento do MapBiomas mostrou que o desmatamento no Brasil caiu no ano passado para o menor nível desde 2019, quando se iniciou a série histórica da rede, e ficou, pela primeira vez, abaixo da barreira de um milhão de hectares de vegetação perdida. A redução do desmatamento aconteceu em todos os biomas do país, incluindo a Amazônia, onde houve queda de 23,5% na comparação de 2024 para 2025, segundo o relatório.
Auge do problema no governo Bolsonaro, destaca documento
Ao citar o ápice do desmatamento no Brasil, o documento do USTR destaca os números de 2021, quando a taxa de 13 mil km2 de área desmatada na Amazônia foi a maior em um período de 15 anos. Somente o período anterior a 2006, quando a política ambiental brasileira ainda não havia criado todos os mecanismos de fiscalização e controle, teve números piores.
"Como o Brasil falhou em aplicar — e, em alguns momentos, até mesmo enfraqueceu — suas leis ambientais, o desmatamento tornou-se sistêmico, atingindo um pico em 15 anos em 2021", diz trecho do documento.
O governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, registrou recordes sucessivos de desmatamento na Amazônia. No acumulado do período, a floresta perdeu mais de 45 mil km², segundo o Prodes, uma área que supera o tamanho do estado de Alagoas, com altas de até 150% em relação aos anos anteriores.
Agricultura e conversão do solo
O documento relaciona, em diversos momentos, a agricultura ao desmatamento, apontando a conversão de florestas primárias em terras agrícolas como a principal causa da perda de vegetação no Brasil, fato comprovado por estudos científicos. Por outro lado, outros números citados são vagos e pouco objetivos, como a conclusão de que 91% do desmatamento na Amazônia entre 2023 e 2024 foi ilegal.
O documento cita um estudo que estimou que o Brasil teria exportado US$ 19 bilhões em commodities com algum nível de risco florestal em 2019.
O USTR também disse que o Brasil possui um arcabouço legal capaz de enfrentar o problema, mas que " falha sistematicamente em aplicá-lo de forma eficaz", e cita problemas na validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), que não seria auditado adequadamente para evitar fraudes e lavagem de produtos de origem ilegal, como a madeira. O texto ainda menciona, sem muitos detalhes, que madeireiros e pecuaristas subornam funcionários do governo para obter aprovações e passar por fiscalizações.
" Os atos, políticas e práticas do Brasil prejudicam ou restringem o comércio dos Estados Unidos porque os produtores norte-americanos são obrigados a competir com produtos agrícolas brasileiros de custo artificialmente mais baixo. Quando produtos agrícolas e madeireiros produzidos em terras desmatadas ilegalmente entram nos Estados Unidos e nos mercados globais, isso compromete a competitividade dos produtos norte-americanos, resultando em perda de receita e vendas para produtores e exportadores dos EUA", diz outro trecho.
Preocupação com iniciativas contra a Moratória da Soja
Há também a preocupação com a tentativa de reverter incentivos contra o desmatamento, como a Moratória da Soja, criada na primeira gestão de Lula. Nesse caso, o documento cita iniciativas estaduais, como do governo do Mato Grosso, contra a moratória, que foi um acordo comercial voluntário criado em 2006 para proibir empresas signatárias de comprar ou financiar soja cultivada em áreas desmatadas na Amazônia.
Por fim, no trecho que fala sobre os mais de 200 comentários que a investigação recebeu, incluindo de entidades da administração civil, o documento mencionou os comentários sobre os esforços brasileiros na fiscalização. Apesar de admitir o cenário de melhora, a investigação disse que "esses esforços podem ser desfeitos por administrações futuras, e as taxas de desmatamento ilegal podem voltar a aumentar".
Especialista critica
Para Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, o presidente dos EUA, Donald Trump, usar a agenda ambiental para impor tarifas ao Brasil "é uma hipocrisia", considerando seu posicionamento histórico no tema ambiental e climático.
— Ele não está preocupado com desmatamento. Ele está usando a agenda ambiental e o desmatamento, que realmente existe no Brasil, para justificar essas tarifas indecentes — criticou Astrini.
Por outro lado, o especialista afirmou que o episódio é um dos exemplos que demonstra o quanto o problema do desmatamento deixa o Brasil vulnerável, tanto no cenário internacional quanto na sua economia doméstica.
— É um ponto de vulnerabilidade muito grande, que pode ser utilizado como agora para criar narrativas hipócritas — disse Astrini, que lembrou os recentes projetos de lei aprovados pela Câmara, que reduzem o poder de fiscalização ambiental. — O Trump acaba tendo um grande dentro do Brasil, que é o Congresso Nacional, quando aprova legislações que vão enfraquecer o controle ambiental no Brasil, que vão enfraquecer a atuação do Ibama e dos órgãos de fiscalização, e que vão atentar contra a rota do governo brasileiro de diminuir o desmatamento.
Outros pontos do relatório
O relatório divulgado pelo governo americano afirma que determinadas políticas e práticas do Brasil seriam "irrazoáveis" e prejudicariam empresas dos Estados Unidos. Entre os pontos citados estão o Pix, questões relacionadas ao comércio digital, propriedade intelectual, etanol, combate ao desmatamento e corrupção.
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Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro consideraram a proposta sem fundamento técnico consistente e classificaram como "absurda" a inclusão de alguns argumentos apresentados pelos americanos. Ao mesmo tempo, auxiliares do presidente Lula avaliam que o resultado poderia ter sido mais severo, já que a tarifa sugerida ficou em 25% e o documento prevê uma ampla lista de exceções, além de mencionar a possibilidade de um acordo entre os dois países.
A expectativa é que o encontro desta terça-feira sirva para alinhar a estratégia do governo diante da nova escalada comercial. Entre as alternativas em análise estão a manutenção das negociações com Washington, por meio do grupo de trabalho criado após a reunião entre Lula e Donald Trump em maio, e eventuais medidas de resposta com base nos instrumentos previstos pela Lei da Reciprocidade Econômica.
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O parecer do USTR abre agora uma etapa de consulta pública antes de uma decisão final sobre a adoção das sanções comerciais. O prazo legal para conclusão do processo termina em 15 de julho. Confira o calendário:
Veja abaixo os próximos passos:
Até 22 de junho de 2026: Prazo máximo para o envio de solicitações de comparecimento à audiência pública, acompanhadas de um resumo do depoimento.
Até 1º de julho de 2026: Prazo para o envio de comentários por escrito sobre as medidas propostas pelo USTR.
6 de julho de 2026: Realização da audiência pública oficial pelo USTR para debater as ações propostas.
15 de julho de 2026: Prazo limite legal para a definição e aplicação das medidas corretivas contra o Brasil.
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