A faixa com retratos dos irmãos Abraão David parecia ser a solução para uma trégua, mesmo momentânea.
Nela estavam oito rostos conhecidos por moradores de Nilópolis, na Baixada Fluminense, onde a família, de origem libanesa, criou raízes ainda na década de 1920.
Anísio, Farid e Miguel se destacam: o primeiro pela fama no jogo do bicho e por ser patrono e presidente de honra da Beija-Flor, escola de samba do município; e os outros pela vida política.
A atuação no poder público, inclusive, está por trás de uma ruptura entre os parentes, causada pela insatisfação de Anísio com a gestão dos sobrinhos Abraão David Neto, o Abraãozinho (PL), prefeito da cidade e filho de Miguel, e Ricardo Abrão (PSDB), deputado federal candidato à reeleição e filho de Farid.
E tudo piorou nesta eleição.
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O responsável pela faixa é o Instituto Beija-Flor, presidido por Caio David, sobrinho de Anísio.
Ela foi produzida para o desfile cívico do dia 20 de agosto, organizado pela prefeitura para celebrar os 79 anos da emancipação de Nilópolis.
A presença da instituição, no entanto, foi à revelia, já que ela não foi convidada para o evento.
Apenas a Creche Júlia Abrão David, também da família, fora convocada.
Para amenizar a situação, Caio, que tem ligação com a creche, resolveu juntar as duas instituições no evento, decisão que desencadeou outro mal-estar: o instituto não foi mencionado na comemoração, o que gerou uma nota de repúdio em relação à prefeitura.
“Lamentamos profundamente que, em um momento tão simbólico para a nossa cidade, tenha sido esquecida justamente uma instituição que carrega em sua essência o compromisso com o povo nilopolitano”, dizia trecho da nota divulgada no mesmo dia.
Em resposta, a prefeitura informou no Instagram que “não houve encaminhamento de release ou comunicação prévia à organização informando sua participação no desfile, impossibilitando sua inclusão formal no roteiro cerimonial”.
A repercussão foi ruim dentro e fora da família.
Essa tensão entre os Abraão David, como explicam pessoas do convívio, existe desde a última eleição municipal, em 2024, quando Abraãozinho foi reeleito.
As insatisfações partiriam principalmente de Anísio, que não concordaria com a política local e cobraria mais zelo em relação à cidade, tanto do prefeito quanto de Ricardo — o sobrinho de relação mais desgastada com o patrono.
A briga familiar teria se aprofundado com o apoio explícito de Anísio e seus herdeiros à candidatura à reeleição de Dr.
Luizinho (PP) a deputado federal, assim como de Caio.
A “chapa” defendida por eles inclui João Drumond a deputado estadual — neto de Luizinho Drumond, presidente de honra da Imperatriz Leopoldinense, ele está com a candidatura em análise pelo Ministério Público Eleitoral devido ao parentesco com banqueiros do bicho —, opondo-se a Rafael Nobre (União), que também disputará uma vaga no Legislativo estadual, ligado a Abraãozinho e Ricardo.
Cury e compartilha
Editoria de Arte
Campanha na Baixada
Na tarde da última quinta-feira, Caio acompanhou João em uma agenda no Calçadão de Nilópolis.
Na camiseta que vestia, ele colou três adesivos de campanha, um de apoio a Luizinho e a João, um só de João e outro, mais simbólico: “Sou Beija-Flor e tô com João Drumond”.
Durante a caminhada, Caio entregou santinhos e apresentou o amigo a moradores e comerciantes.
A ação foi postada no Instagram dele, em nove stories ao lado do amigo, chamado de irmão.
Do outro lado da família, Abraãozinho faz pouca propaganda política aos aliados.
Nas redes sociais, compartilha a presença em atividades da prefeitura.
Apenas duas publicações são sobre as candidaturas de Ricardo e Rafael, sendo a última, de sexta-feira, um convite ao lançamento das campanhas, ocorridas ontem.
“Quero convidar você para estar comigo no lançamento das candidaturas do meu primo Ricardo Abrão para deputado federal, e do irmão que a vida me deu, Rafael Nobre, para deputado estadual”, postou.
Pessoas próximas da família afirmam que a ruptura entre os Abraão David tem intensificado o desânimo de Abraãozinho na política.
Ele estaria esperando o fim do mandato, em 2028, para se afastar da vida pública.
Em nota, Abraãozinho afirmou que integra “um grupo político que continua unido e seguindo na mesma trajetória, trabalhando pelo desenvolvimento social e econômico de Nilópolis.
Respeito as escolhas de cada familiar.”
Já Ricardo disse, também em nota, que respeita escolhas e posicionamentos da família: “A política é feita de decisões e caminhos, e cada um tem o direito de seguir o seu”.
As críticas de adversário a Ricardo começam pela personalidade.
Quem apoia Anísio, afirma que o sobrinho não respeitaria a “dimensão” do nome do tio, falando com ele de “igual para igual” — comportamento malvisto na família de tradição hierárquica entre os membros.
Ele não acataria pedidos de Anísio em relação a Nilópolis, ao instituto e até à Beija-Flor.
De acordo com interlocutores, Anísio teria procurado Ricardo antes da campanha para propor um acordo.
A família iria apoiá-lo para reeleição a deputado federal, já que o Dr.
Luizinho não dependeria de Nilópolis para conquistar um novo mandato.
Em troca, ele deveria apoiar o João para deputado estadual.
Além disso, ainda segundo interlocutores, ele deveria seguir a sugestão da família e disputar a prefeitura em 2028.
Mas Ricardo não abriu mão do apoio a Rafael Nobre, que foi presidente da Câmara Municipal.
Nobre ainda poderia concorrer a prefeito no lugar de Ricardo.
Criado no Samba
A ligação de Anísio e seus herdeiros com Luizinho é antiga, começando pelo pai dele, que trabalhou com o patrono.
O deputado cresceu na Beija-Flor, participando de atividades da escola desde criança.
Na política, ele aparece quase em substituição a Simão Sessim, primo de Anísio, que foi deputado federal durante 40 anos e morreu em 2021.
Segundo políticos aliados à família, Anísio teria confessado que Ricardo pensa muito mais em si mesmo e na bolha familiar dele do que no todo do clã nilopolitano.
E também não estaria tão preocupado com o município que hoje, na visão de Anísio, não seria uma das melhores cidades da Baixada Fluminense.
Dr.
Luizinho confirmou que a ligação com os Abraão David começou com seu pai, advogado civil e imobiliário de Anísio desde 1992.
A relação com a Beija-Flor é ainda mais antiga, iniciou 1977:
— Meu pai levou o (cantor) Neguinho para a Beija-Flor, pois ambos são de Nova Iguaçu.
Eu já desfilei pela escola diversas vezes e tenho um sentimento grande de gratidão.
Também apoio o Instituto Beija-Flor há muitos anos.
E faço tudo por paixão à escola.
Sou grato e honrado pelo apoio da maioria dela, mas não me meto em briga de família.
Em Nilópolis, clã do bicheiro patrono da Beija-Flor entra rachado na eleição
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