Em movimento estratégico, EUA buscam acordo com Brasil para explorar minerais críticos
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil tem cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de elementos de terras-raras (ETR), a segunda maior do mundo. O interesse dos americanos nesse setor específico de mineração deixou de ser apenas discurso nos últimos anos, e o país começa a atuar com mais empenho para construir uma cadeia de suprimentos fora da China.
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O encarregado de negócios da embaixada americana em Brasília, Gabriel Escobar, organizou no final de março um fórum com empresas de mineração e afirmou que existem 50 projetos de minerais críticos mapeados pelos EUA, sem revelar detalhes de quais seriam. Além disso, US$ 600 milhões já foram investidos em projetos no país, com potencial de bilhões a serem somados a essa conta.
— Existe uma movimentação, mas ainda não parece haver um grande acordo federal bilateral consolidado entre Brasil e EUA para coordenar toda a exploração — diz Ysrael Vera, engenheiro e pesquisador do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem).
Um passo importante nessa relação foi dado no encontro em 7 de maio dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Entre os temas tratados na visita à Casa Branca estava a exploração dos minerais críticos em solo brasileiro.
— Essa é uma questão de soberania nacional — disse o presidente brasileiro.
No dia anterior à reunião, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei do marco legal para a exploração dos minerais críticos no Brasil, que prevê R$ 5 bilhões em incentivos fiscais, um novo fundo de garantia e a criação de um conselho do governo para regular o setor, com poder de veto a parcerias internacionais. A proposta ainda vai ser votada pelo Senado.
— Não temos preferência, o que queremos é fazer parceria, compartilhar com empresas americanas, chinesas, alemãs, japonesas, francesas, quem quiser participar conosco para ajudar a fazer mineração, para fazer a separação e para produzir a riqueza que essas terras-raras nos oferecem — afirmou Lula.
O caso recente e emblemático do interesse dos EUA nos metais críticos e estratégicos no Brasil é a mineradora Serra Verde, em Goiás (GO), única fora da Ásia a produzir em escala os quatro elementos magnéticos essenciais de terras-raras, comprada pela americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões em 20 de abril deste ano. O intuito, segundo a compradora, é que as duas empresas formem uma cadeia completa de produção, da extração à fabricação de ímãs fora da Ásia, que hoje centraliza esse mercado.
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Projetos estrangeiros
A mina de Serra Verde já era da empresa americana Denham Capital, que investiu por 15 anos no projeto. Até 2025 tinha contrato de entrega de 100% da produção para a China. Fora ela, os americanos só tinham investimento minoritário de capital, e em ouro, na Kinross Paracatu (MG) e AngloGold Ashanti (MG e GO).
—Todos os projetos de mineração de terras-raras no Brasil são hoje de propriedade estrangeira, principalmente canadenses e australianos. Mas em operação real, só existe a mina de Serra Verde — ressalta Fernando Landgraf, engenheiro, PhD em materiais magnéticos e professor da Universidade de São Paulo.
Landgraf acrescenta que a operação comercial sofreu críticas por ser vista como uma ação do governo americano para usar produtos do subsolo brasileiro, um ativo estratégico que pertenceria à União, direto com o governo de Goiás, sem qualquer negociação com o governo federal. No entanto, o especialista vê de outra forma.
— É algo estratégico para os EUA, cujas armas dependem dos superímãs, mas o Brasil não tem essa demanda. Poderia ser estratégico para a transição energética, mas nossa demanda de superímãs é pequena. É pouco provável que o Brasil venha a fabricar motores dos carros elétricos — conclui.
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A produção brasileira dos 17 elementos químicos essenciais para tecnologias de ponta, como ímãs, turbinas eólicas e eletrônicos, é muito pequena, cerca de duas mil toneladas em 2025. A produção mundial foi de aproximadamente 390 mil toneladas — só a China foi responsável, no mesmo período, por 270 mil.
—E reserva não é produção — diz Ysrael Vera.
Tom Moerenhout, especialista em minerais críticos e professor da Universidade Colúmbia, nos EUA, afirma que o Brasil é um dos poucos países no mundo que podem realisticamente oferecer aos Estados Unidos escala, diversificação e alinhamento político ao mesmo tempo:
— O Brasil é um gigante geológico que ainda se comporta como um player emergente. Se nós tratarmos o Brasil apenas como uma fonte de extração mineral, perderemos para a China e outros concorrentes. Se, por outro lado, tratarmos o Brasil como um parceiro industrial pleno, poderemos consolidar um alinhamento duradouro.
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De ponta a ponta
A britânica Appian Capital Advisory, especializada em projetos de mineração na América do Norte, Latina, Austrália e África, investe em seis projetos no Brasil, sendo um deles a Mina Santa Rita, em Itagibá (BA), por meio da Atlantic Nickel.
—Os Estados Unidos não conseguem suprir adequadamente por meio de produção doméstica os commodities encontrados no Brasil, como níquel, nióbio, cobalto, lítio e cobre. O ponto central é também investir em capacidade de processamento e refino ao longo dessas cadeias produtivas para garantir o abastecimento de ponta a ponta — seja no próprio Brasil, seja em parceria com outros países — declara o brasileiro Paulo Castellari, CEO de minerais críticos na Appian.
