Ampliação de frota de barcos quebra-gelo, que abrem caminhos em águas do Ártico, é um dos objetivos da nova estratégia da UE prevêRedação DW, Rayanne Azevedo A União Europeia (UE) apresentou nesta terça-feira (20/10) uma nova estratégia para ampliar sua presença no Ártico, em meio às transformações provocadas pelas mudanças climáticas, ao acirramento de tensões geopolíticas e às disputas por fontes de energia e minerais estratégicos.O rápido derretimento do gelo no Ártico — que aquece cerca de quatro vezes mais rápido do que a média global — tem tornado a região rica em recursos naturais cada vez mais acessível. Novas rotas marítimas estão se abrindo, enquanto a China amplia seu comércio por meio da região e o fortalecimento militar da Rússia intensifica preocupações de segurança entre europeus."Com a Rússia e a China ampliando sua presença e suas ambições, o Ártico se tornou uma linha de frente da competição global por poder", afirmou a chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, ressaltando ainda o valor estratégico do acesso a recursos naturais. "Para defender nossos interesses, estamos reforçando os esforços em vigilância, infraestrutura, mobilidade militar e tecnologias de defesa capazes de resistir às duras condições climáticas," acrescentou.Também o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já ameaçou repetidamente neste ano assumir o controle da Groenlândia, território autônomo do reino da Dinamarca no Ártico. "Quando vemos que a soberania, a integridade territorial e as regras que sustentaram a estabilidade da região já não podem mais ser consideradas garantidas, precisamos agir e mudar nossa postura estratégica", disse, por sua vez, Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, braço executivo da UE.Medidas contra a RússiaO documento propõe a criação de um novo Centro de Segurança Marítima para rastrear a chamada "frota fantasma" da Rússia. O termo se refere a embarcações velhas usadas para contornar as sanções do Ocidente ao petróleo russo que financia a guerra contra a Ucrânia.A estratégia também apoia mais esforços para monitorar, proteger e auxiliar na reparação de cabos submarinos. Há suspeitas de que submarinos russos planejem sabotar parte dessa infraestrutura marítima.Segundo autoridades da UE, Moscou reativou e modernizou, nos últimos anos, bases militares da era soviética no Ártico. A Rússia também manteria uma grande concentração de armas nucleares na Península de Kola, no Círculo Polar Ártico.A Rússia, por sua vez, acusa a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)de promover a militarização da região. O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, afirmou em agosto que Moscou busca preservar a paz e a estabilidade no Ártico e reduzir ameaças à segurança nacional do país.Paralelamente, a UE deseja ampliar sua frota de quebra-gelos — embarcações projetadas para abrir caminhos em águas cobertas de gelo —, a fim de operar de maneira mais eficiente no Ártico e expandir atividades de pesquisa. Autoridades estimam que a Europa disponha de cerca de dez quebra-gelos, a maioria deles na Finlândia, contra aproximadamente 40 da Rússia.De forma mais ampla, as conexões de transporte entre o Ártico e a Europa deverão ser fortalecidas para usos civis e militares. Outra parte central da estratégia europeia é integrar infraestruturas como portos, ferrovias, terminais de energia e sistemas digitais e de satélites às redes de transporte e comércio do Ártico, com o objetivo de conectar melhor a região aos mercados europeus.Guerra dificulta cooperaçãoÀ DW, o comissário europeu responsável pela nova estratégia, Jozef Síkela, classificou as ações da Rússia no Ártico como "sem precedentes" e chamou o nível de perfuração pelo país na região de "catastrófico", contribuindo para a aceleração das mudanças climáticas.Segundo ele, a UE está hoje sem acesso a informações provenientes da maior parte do território ártico. "Temos que ser francos. A guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia mudou completamente o cenário. A colaboração entre os Estados do Ártico é muito difícil."Apesar das recentes investidas de Trump sobre a Groenlândia, o comissário descreveu os EUA como "um ator estratégico muito importante no Ártico". No entanto, evitou dizer se a Casa Branca continua sendo um parceiro alinhado à UE em todas as questões relacionadas à região.A Comissão Europeia, ao mesmo tempo, ressalta que a proposta não pretende competir com a Otan, da qual 23 países da UE também fazem parte. Segundo Síkela, "a Otan continuará sendo essencialmente o centro da defesa e da dissuasão".Do ponto de vista geográfico, as áreas mais ao norte da Finlândia e da Suécia, ambos membros da UE, estão situadas na região ártica. Mais de meio milhão de cidadãos do bloco vivem na região. Dinamarca, Finlândia e Suécia são Estados-membros, enquanto Islândia e Noruega fazem parte do mercado único europeu.ht/ra (AP, dpa, DW)
Em meio a tensões geopolíticas, UE lança estratégia para o Ártico
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