Em meio a ‘onda Bad Bunny’, cultura latino-americana é exaltada no bloco Bésame Mucho
Ainda sob o impacto da histórica apresentação do porto-riquenho Bad Bunny, domingo passado, no intervalo do Super Bowl, que se transformou em uma celebração única da cultura latino-americana, o bloco Bésame Mucho desfilou sua latinidade no carnaval do Rio. A concentração começou por volta das 7h no Largo dos Guimarães, no bairro de Santa Teresa.
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Em uma das ladeiras do bairro, a jornalista Érika Azevedo, de 44 anos, ostentava o adesivo ‘latina demais’. Ela chegou bem cedo, junto com os músicos do bloco, e já falou sobre a defesa de uma integração dos países latino-americanos.
— Esse ano [o bloco] vai estar mais cheio por conta de toda essa onda de valorizar a latinidade, carnaval é também para gente celebrar a música do continente.
Nascida em Olinda, ela mora no Rio há 20 anos, e brinca que escolheu o bloco para fugir do Boi Tolo, pois “ficou muito grande”.
Jornalista Érika Azevedo no bloco Bésame
Kaio Magalhães
Cultura latino-americana
Apesar do esforço do bloco na tentativa de valorizar e gerar identificação dos brasileiros enquanto latinos, a maioria dos brasileiros ainda não se reconhece enquanto latino-americanos. Um levantamento, de 2023, feito pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), mostrou que apenas 4% dos brasileiros se definem como latino-americanos. Já 83% se dizem brasileiros e 10% “cidadãos do mundo”.
— As identidades são construídas, mas não acho difícil de romper isso uma vez que tem contato com o resto da cultura latino-america — defende o argentino Ernesto De Santis, de 50 anos, integrante do bloco que mora no Rio há 19 anos.
Analista de sistemas, Ernesto troca os computadores pelo trombone no carnaval. Ele diz que a população da América Latina não é tão distinta:
— Tem aquela imagem do disco do Bad Bunny, das cadeiras diante das bananeiras. Nós, latino-americanos, nos sentimos familiarizados com essa imagem, que é simples, mas nos remete às nossas lembranças de festas familiares e populares — disse. — Os brasileiros facilmente conseguem se identificar com essa imagem também — completa.
Ernesto De Santis troca os computadores pelo trombone no carnaval
Kaio Magalhães
Ernesto lembra ainda que, para reafirmar a identidade do brasileiro enquanto latino, o repertório do bloco “não casualmente inclui músicas brasileiras”, com o objetivo de passar a mensagem de que “todas as músicas do nosso repertório são latino-americanas”.
Matias, de 17 anos, também esteve no bloco e usou a máscara de lutador mexicano para celebração da própria cultura. Nascido no México, o estudante mora no Brasil há 10 anos. Acompanhado dos pais, Matias disse que é uma tradição o uso da máscara no Bésame Mucho.
— Gosto muito da luta mexicana, representa muito a cultura do meu país — comentou. — O bloco gera pertencimento, porque mistura as duas culturas que eu adoro, brasileira e mexicana, latina mesmo, explicou.
Origem do grupo
O Bésame desfila há mais de 10 anos no Rio de Janeiro com uma mistura de carnaval e diversos ritmos e influências latino-americanas: da cúmbia (típica da Colômbia) ao funk, da ciranda às tradicionais marchinhas, do carimbó à salsa. O grupo foi fundado por latino-americanos que residiam no Rio e hoje conta com mais de 30 músicos profissionais e amadores do Brasil e de outros países, tem argentinos, peruanos, suecos, estadunidenses, entre vários outros.
Uma das organizadoras do bloco explicou que nenhum integrante recebe dinheiro para tocar, todos trabalham em outras funções no restante do ano. Carol Avena, de 35 anos, participa de uma espécie de conselho do bloco para tomada de decisões. Ela, que participa do bloco há 5 anos, contou também que o dinheiro arrecadado é usado para algumas ações durante o ano.
— Uma (dessas ações) é o dia das crianças da Providência, a gente compra presente para as crianças e faz um cortejinho lá — disse Carol.
Ela reafirma o espaço do bloco como um lugar de encontro entre os países que compõem a América Latina:
— Aqui a gente viu sempre como refúgio, e a América deveria ser isso. Que as pessoas saiam daqui se sentindo latino-americanas e que elas consigam espalhar isso — afirmou.
Entre músicas cantadas em espanhol, Gio Scremin, de 48 anos, também refletiu sobre a política migratória dos EUA. Ela, que é da Califórnia, e mora atualmente no Brasil, falou sobre a importância do show no Super Bowl.
— Eu sou dos Estados Unidos e lá estão acontecendo muitas coisas preocupantes com os imigrantes e com a comunidade trans — disse Scremin.
Ela veio acompanhada pelo seu namorado, Gilli Seymor, um homem trans. Ele, nascido em São Paulo, disse que a fantasia que eles escolheram funciona como uma continuação da celebração do porto-riquenho.
Fantasias
No último sábado, alguns foliões também entraram no clima latino em outros blocos e produziram fantasias.
O casal de advogados Talita Nunes e Leonardo Rosito, ambos de 39 anos, estiveram no bloco Amigos da Onça, no Flamengo, com fantasias inspiradas nas canções de Bad Bunny e em seu álbum “Debí Tirar Más Fotos”.
Casal Talita Nunes e Leonardo Rosito com fantasias inspiradas nas canções de Bad Bunny
Lívia Nunes
Talita conta que já era fã do artista e que, com a atual onda da valorização do movimento latino, o casal decidiu colocar a ideia em prática, mesmo Leonardo não sendo tão fã assim.
— Eu já era fã do Bad Bunny e, quando veio essa onda do movimento latino, a gente já tinha a ideia da fantasia. Apesar de ele não ser fã, teve que aceitar porque hoje é dia de São Valentim — disse rindo.
Leonardo foi caracterizado como o cantor, com a câmera fotográfica, fazendo referência à música. Já Talita apostou em um look inspirado na estética do álbum, com as cadeiras de plástico que aparecem na capa do projeto.
Rafael Vidal, de 27 anos, também entrou no clima com uma fantasia em homenagem ao cantor porto-riquenho. Ele fez referência ao álbum Debí Tirar Más Fotos, que aparecia escrito na plaquinha pendurada em seu pescoço.
Fã declarado do artista, Rafael conta que já ouvia o albúm desde o ano passado. Segundo ele, a paixão pelo reggaeton começou após uma viagem pela América do Sul, em 2019.
Fã de Bad Bunny, Rafael Vidal homenageou o artista
Kaio Magalhães
— Desde que viajei pela América do Sul, passei a gostar muito de reggaeton. E eu sou muito fã do Bad Bunny. Adoro de verdade — afirma.
(*) Estagiário sob supervisão
