Em livro, jornalista inglês traz curiosidades da geopolítica global através de camisas de times de futebol

 

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Para além da exaltação de tradições, da identificação tribal e de expressões estéticas, as camisas dos times de futebol também servem como guia para se entender os emaranhados da geopolítica e da economia planetária. É o que defende o jornalista inglês Joey D’Urso em “Mais do que uma camisa: como os uniformes do futebol explicam a política global, o dinheiro e o poder”. A leitura, por enquanto ainda sem tradução para o português, não fica no zero a zero. E é bem mais divertida do que sugere o título, tão ambicioso quanto sisudo.

— Cada camisa conta ao menos uma história, ainda que nem sempre edificante. Torcer para um time é uma forma de escapar da realidade, mas destrinchá-la pelos mantos de cada clube é um modo curioso de se entender melhor o caos do mundo — diz ao GLOBO o repórter de dados do The Times, sofrido torcedor do Aston Villa, o leão de Birmingham, cujo último título de nota foi a conquista da Copa da Liga Inglesa, lá se vão três décadas.

Jornalista inglês Joey D'Urso

Divulgação

Apontado como um dos livros mais originais no universo do jornalismo esportivo no Reino Unido no ano passado, “Mais do que uma camisa” oferece curiosidades saborosas de 22 indumentárias de clubes mundo afora, não por acaso o número exato de jogadores em campo no início das partidas. O jogo de D’Urso começa com o namoro de 16 anos da gigante do gás Gazprom, da Rússia, com o Schalke 04, time-símbolo dos operários do vale do Ruhr, no oeste germânico. A parceria teve seu ápice na temporada europeia de 2010/11, mais precisamente na vitória, em pleno San Siro, dos alemães sobre a poderosa Inter de Milão, na semifinal da Copa dos Campeões. Feriado regional.

Uma década depois, com a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin, os mesmos torcedores organizados que estendiam com orgulho bandeiras com o nome da maior empresa russa nas partidas do time passaram a questionar com que roupa deveriam ir aos jogos do Schalke 04. Da noite para o dia, as camisas surgiram na moderníssima Veltins-Arena com o mesmo azul-real, porém sem o nome do patrocinador, agora tapado. O divórcio foi selado pouco depois, e o protesto se tornou um dos símbolos visuais mais poderosos da dependência alemã do fornecimento de energia de Moscou e sua implicação econômica, política e social para o motor da União Europeia.

Camisa do FC Schalke 04 ainda com patrocínio da Gazprom

Ina FASSBENDER / AFP

Um dos méritos do livro é registrar a transformação das camisas de ricos símbolos culturais em plataformas com alcance planetário privilegiado, ideais para o uso e abuso do soft power, notadamente pelas autocracias árabes e pelos novos interesses corporativos, inclusive os com potencial de danos aos torcedores, entre eles as criptomoedas e as empresas de apostas.

— Por outro lado, no Reino Unido, a explosão de bets estampadas em camisas de clubes centenários acabou ajudando a incrementar a discussão sobre a necessidade de regulamentação do setor, para o bem inclusive da saúde dos torcedores — lembra D’Urso, que, antes do Times, foi repórter investigativo do The Athletic e setorista de política da BBC.

O livro é um atestado do alcance planetário do futebol, resiliente ao retrocesso da globalização, acentuado a partir da crise financeira global de 2008. Algo que se comprovará uma vez mais este ano, com o uso da Copa do Mundo por ao menos um dos países-sede, os Estados Unidos, como vitrine do governo xenófobo e de ultradireita de Donald Trump. Mas não só. O alcance global das camisas do Real Madrid e do Barcelona nas últimas décadas, por exemplo, pode ser traduzido tanto pela rivalidade entre o argentino Lionel Messi e o português Cristiano Ronaldo quanto pela disputa de mercados específicos entre os respectivos patrocinadores das duas potências espanholas, a Qatar Airways e a Emirates Airline.

O livro não se limita às artimanhas aparentemente mais civilizadas do mundo corporativo tradicional. D’Urso também mergulha, por exemplo, na rotina do Envigado, time da região metropolitana de Medellín, na Colômbia, celebrizado menos por conquistas de monta e mais por ter se tornado um celeiro de jogadores, entre eles o ex-são-paulino James Rodríguez. Pois em 2012 a camisa titular do La Naranja trazia a silhueta de Gustavo Upegui, assassinado seis anos antes e acusado de ser operador do narcotraficante Pablo Escobar, ilustração exata da penetração do tráfico na sociedade colombiana e da tentativa de normalização do crime, tal qual os bicheiros fizeram no Rio de Janeiro com as escolas de samba.

Embora não tenha escalado camisas de clubes brasileiros no livro, D’Urso destaca ao GLOBO a roxa do Corinthians como exemplo de um símbolo que se tornou narrativa — e, nesse caso, positiva — no universo do futebol. Com o tempo, o uniforme passou a ser identificado como saudação às minas brabas, dentro e fora dos campos, ao combate à homofobia e à defesa da diversidade. Em um drible da História, a cor também é relacionada ao movimento sufragista, ostentada justamente pelo time protagonista, no futebol brasileiro, da defesa das Diretas Já e da denúncia da ditadura militar nos anos 1980, a década da democracia corintiana.

— Não quero me complicar com as torcidas dos outros times brasileiros, mas a roxa se tornou a minha favorita daí — conta.

O jornalista chega ao Brasil esta semana, em sua primeira visita ao país, “para fazer pesquisas para meu novo livro”. D’Urso faz segredo sobre o tema, mas entrega pistas: antes de ir à capital paulista e ao Rio, ele passará seus primeiros dias em Santos, onde vai ao Museu Pelé e à Vila Belmiro para ver o clássico Sansão, do Peixe contra o São Paulo, nesta quarta (4). Um dia depois, bate papo, em inglês, às 18h, no Campus de Inovação Sportheca, em Pinheiros, em São Paulo, sobre “Mais do que uma camisa”. Em um gol dos organizadores, o happy hour não tem cobrança de ingressos para fãs do esporte bretão.