Em inverno de bombardeios mortais, Rússia usa arsenais modernos para pressionar Ucrânia e ameaçar Europa

 

Fonte:


Na semana passada, as cidades ucranianas sofreram um dos maiores ataques dos últimos meses, com cerca de 500 drones e mísseis russos atingindo prédios e infraestrutura básica, incluindo usinas termelétricas e redes de transmissão de energia. Mas além da quantidade de projéteis, os recentes bombardeios russos empregam armas cada vez mais modernas, destinadas a causar estragos, mortes e a intimidar populações.

Antes de eleições de meio de mandato: Trump quer acordo para encerrar guerra na Ucrânia até junho, revela Zelensky

Cansaço da guerra: Em busca da paz, mais ucranianos consideram o que antes era impensável — ceder território

Com a guerra prestes a entrar em seu quinto ano, e ganhos terrestres tímidos a um custo humano elevado — em algumas batalhas em 2025, como em Chasiv Yar e Pokrovsk, o avanço foi de menos de 30 metros por dia — a Rússia de Vladimir Putin escolheu os bombardeios de grande escala como forma de pressionar Kiev a aceitar seus termos e talvez forçar uma capitulação. Ataques contra a infraestrutura deixaram milhões sem luz, água e aquecimento, em meio a um dos piores invernos dos últimos anos.

Há um mês, o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, sugeriu que alguns moradores deixassem temporariamente a cidade.

— A Rússia quer quebrar o moral da população ucraniana que resiste há quatro anos, principalmente em bombardeios durante o inverno, mas ainda não conseguiu minar o apoio interno — disse ao GLOBO Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM. — Putin ainda tenta fazer com que os ucranianos pressionem suas lideranças a aceitar seus termos, mas não acredito que conseguirá.

'Gravidade e urgência': Agência Atômica se reúne por preocupação com segurança nuclear na Ucrânia

Nas ondas de ataques, os drones são protagonistas. Em cada uma das ações, centenas cortam os céus e, embora sejam abatidos em massa (a taxa de sucesso é de cerca de 5%, segundo levantamento do Instituto pela Ciência e Segurança Internacional), causaram estragos em praticamente todas as regiões ucranianas. Ao contrário dos primeiros meses de conflito, quando os Shahed-136, de fabricação iraniana, eram soberanos, eles têm hoje a companhia de outros modelos igualmente letais.

Drone iraniano Shahed-136 da Rússia interceptado pelo exército ucraniano

Reprodução: Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia

Os drones da família Geran — inspirados nos Shahed — têm versões a jato que atingem 600 km/h, e os Garpiya começaram a ser empregados em combate em 2024. A reforma das linhas de produção, de onde podem sair até 180 unidades por dia, abriu caminho para a implementação da tática conhecida como “matilha”, quando centenas de aeronaves são lançadas de uma só vez.

— A Rússia só consegue produzir nessa escala porque se tornou uma economia de guerra. E isso não diz respeito apenas à produção de armamentos em si, mas a todos os elos da cadeia armamentista, que analistas estimam representar hoje cerca de 40% do PIB russo — explica Rudzit. — Eles transformaram sua economia em uma economia de guerra de grande porte, produzindo praticamente tudo, mas isso tem um custo, e me pergunto se é sustentável.

Veículo passa por rua deserta e sem energia em Kiev

Roman PILIPEY / AFP

Nem só de drones se fazem os ataques. Na semana passada, os militares ucranianos mencionaram o uso do míssil Zircon 3M22, originalmente projetado para uso contra navios, mas que ganhou funções de ataque. Segundo Moscou, trata-se de um míssil hipersônico — que permite manobras a altas velocidades — com autonomia de mil quilômetros e que pode ser lançado de navios (principal plataforma) e submarinos e por terra.

Rússia testa novo míssil hipersônico de cruzeiro, o Zircon, no Mar de Barents

Ministério da Defesa da Rússia/Reuters

Embora Moscou classifique o Zircon como “superarma sem análogos”, os ucranianos dizem ter derrubado alguns deles no ano passado. Eles citam similaridades com outro míssil antinavios, o Kh-22, desenvolvido ainda nos tempos soviéticos, mas reconhecem que se defender do Zircon não é uma tarefa simples: em entrevista ao portal RBC Ucrânia, Yuri Ihnat, porta-voz da Força Aérea ucraniana, disse que “para interceptá-lo, o sistema Patriot precisa estar no lugar certo na hora certa”. Hoje, estima-se que haja 14 unidades de lançamento do Patriot na Ucrânia, e o presidente Volodymyr Zelensky faz apelos recorrentes aos aliados ocidentais por equipamentos.

— Contra ameaças balísticas, os sistemas mais eficazes, você sabe disso, são os Patriot. E isso significa que mísseis são necessários, mais mísseis para os Patriot — disse Zelensky na semana passada.

Nova corrida atômica? Conheça os armamentos russos que fizeram Trump ameaçar retomar testes nucleares nos EUA

Outra arma a preocupar os ucranianos é o míssil Kh-32, que sofreu uma série de atrasos desde o início de seu desenvolvimento, nos anos 1980, e que entrou em serviço em 2016. Com alcance de até mil quilômetros, é apresentado como “virtualmente impossível de ser interceptado” — tal como o Zircon, foi desenvolvido como arma contra navios.

Os militares afirmam que ele é empregado principalmente contra o sul, danificando plataformas de petróleo e a infraestrutura portuária, mas alegam que o fortalecimento das defesas aéreas locais reduziu sua eficácia.

— Recentemente, foram lançados contra Kiev nada menos que 12 mísseis desse tipo. Cada um carrega uma ogiva com cerca de uma tonelada. Nove foram interceptados. Este é um caso sem precedentes que merece toda a atenção e gratidão aos nossos militares que interceptaram esses mísseis — disse Ihnat ao RBC Ucrânia. — Antes disso, mais de 400 mísseis desse tipo foram lançados, e apenas três foram interceptados.

Bálticos na mira

Mais do que tentar forçar a Ucrânia a capitular ou aceitar condições mais duras em negociações que ainda parecem longe de uma conclusão, a ofensiva de inverno manda uma mensagem ao Ocidente: os arsenais russos estão cheios, com armas potentes e capazes de atingir o território europeu.

Rússia exibe implantação de mísseis Oreshnik com capacidade nuclear na Bielorrússia

Divulgação/Ministério da Defesa da Rússia

No começo do ano, um míssil balístico do modelo Oreshnik atingiu Lviv, localizada a cerca de 60km da fronteira com a Polônia, um país que integra a União Europeia e a Otan. Na ocasião, o chanceler ucraniano, Andrii Sybha, disse tratar-se de “uma grave ameaça à segurança do continente europeu e um teste à comunidade transatlântica”. A arma tem um alcance potencial de 5,5 mil km, é capaz de carregar ogivas nucleares — em Lviv e em Dniéper, onde foi usada pela primeira vez, em 2024, as cargas eram convencionais — e foi apresentada como “praticamente impossível de ser interceptada”.

— Putin já convenceu os europeus de que ele é uma ameaça e que ele não vai parar na Ucrânia. Tanto é que Finlândia e Suécia entraram na Otan. Os europeus estimam que, cinco anos após o fim da guerra na Ucrânia, ele terá se rearmado e testará a unidade do continente com uma ação militar, provavelmente contra uma das repúblicas bálticas — aponta Rudzit. — Para o público externo, Putin faz isso para que seu país seja visto como uma grande potência, para que ele seja temido. Isso também é fundamental para manter o apoio do público interno.