Em HQ, Marcello Quintanilha se inspira no passado boleiro do pai, que jogou pelo Canto do Rio nos anos 1950 - QTU Questões do Universo

Em HQ, Marcello Quintanilha se inspira no passado boleiro do pai, que jogou pelo Canto do Rio nos anos 1950

Fonte: Bandeira da fonte

“Verdade que tu era o único zagueiro que fazia gol nos anos cinquenta?”, pergunta um personagem a Hélcio, já aposentado dos gramados, que responde, fingindo modéstia: “Que é isso… Isso era antigamente…”.
O tal jogador é Hélcio Quintanilha, que jogou no Canto do Rio Futebol Clube e, além de ser protagonista de “Eldorado”, novo quadrinho de Marcello Quintanilha, é pai do autor.
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É o primeiro álbum do autor desde “Escuta, formosa Márcia”, publicado em 2021 e que rendeu ao quadrinista o Prêmio Jabuti de melhor história em quadrinhos e o Fauve d’Or, principal prêmio do Festival de Angoulême, na França.
Não é a primeira vez que Quintanilha inclui o pai em uma de suas HQs.
O jogador já havia aparecido como Acirzinho em seu livro de estreia, “A Fealdade de Fabiano Gorila” (1999), e em “Luzes de Niterói” (2018), que a editora Veneta está republicando, desta vez em formato maior e em PB, assim como “Eldorado”.
Marcello Quintanilha
Bárbara Lopes/29-8-2018
Quintanilha lança os dois álbuns neste sábado (29), a partir das 15h, na Livraria da Travessa de Ipanema, encerrando a turnê de lançamento dos livros, que passou por São Paulo, Curitiba, Goiânia e Niterói, cidade onde nasceu e cresceu.
Foi também ali que seu pai se tornou popular jogando futebol profissional, até ter a carreira interrompida precocemente por uma contusão.
Mesmo morando há mais de 20 anos em Barcelona, na Espanha, Quintanilha continua escrevendo e desenhando histórias em quadrinhos sobre nosso país com um olhar tão particular que parece ainda viver aqui, atento às artimanhas e às gírias das ruas.
De hoje e de ontem.
— Não me sinto distante de Niterói ou do Brasil porque o Brasil que está comigo é o que está nas minhas histórias, é o que me formou como ser humano, como cidadão, como indivíduo — explica Quintanilha, por aplicativo de mensagem.
Capa de 'Eldorado'
Divulgação
“Eldorado” mistura memória e ficção para contar a história de dois irmãos que seguem caminhos opostos no Brasil dos anos 1950.
Hélcio, personagem inspirado no pai de Quintanilha, aposta no futebol como possibilidade de ascensão, enquanto Luiz Alberto, personagem ficcional, se envolve com o crime.
A partir dessa relação entre um personagem real e outro inventado, o autor constrói uma narrativa de suspense sobre família, ambição e violência que percorre duas décadas.
Quintanilha conhece bem esse universo.
A dinâmica do Brasil do século XX esteve presente em seu trabalho em quadrinhos, influenciou sua produção e sempre lhe interessou como autor:
— Eu não sinto que tenha voltado a esse universo porque nunca me distanciei dele.
Você não pode voltar para o lugar de onde você nunca saiu.
Cordel e história do país
Além da grande variedade de personagens e da reconstituição de lugares e costumes que ficaram para trás, “Eldorado” abre com um prólogo de 27 quadros em nove páginas que resume, em forma de literatura de cordel, a História do Brasil, da abolição da escravatura ao fim da ditadura, com destaque para o futebol como atividade de resistência dos menos favorecidos.
— Colocar esse contexto histórico no álbum é uma forma de nos dar a medida de quanto nossa realidade é determinada pelos movimentos sociopolíticos do passado — diz Quintanilha, que nasceu em Niterói em 1971.
— Nossa vida está intrinsecamente ligada às decisões políticas que foram tomadas em determinados momentos históricos.
Capa de 'Luzes de Niterói'
Divulgação
Tema naturalmente caro ao autor, o futebol também ocupa um papel importante nessa leitura histórica:
— Me interessa ter presente como o futebol se introduziu no Brasil, a partir do começo do século XX, e também o fato de que o esporte, na verdade, foi expropriado pela classe social mais precária, que acabou dando ao futebol uma característica muito mais livre e solta, mais rítmica e transgressora, que acabou transformando o futebol naquilo que nós conhecemos no país.
E conclui:
— Sempre que as camadas populares se apropriam daquilo que inicialmente estava proibido a elas, acho que é algo que deve ser comemorado, porque se trata de reivindicar sua condição de existência numa estrutura social que não as levava em conta como indivíduo inicialmente.
'Eldorado'
Autor: Marcello Quintanilha.
Editora: Veneta.
Páginas: 272.
Preço: R$ 139,90.
'Luzes de Niterói'
Autor: Marcello Quintanilha.
Editora: Veneta.
Páginas: 272.
Preço: R$ 139,90.