A escritora, jornalista e roteirista Giovana Madalosso compartilhou os bastidores de sua produção literária e os desafios da carreira durante um encontro com leitores e escritoras em Goiânia, no sábado, 31. Na conversa, realizada na sede da União Brasileira de Escritores de Goiás (UBE-GO), a autora explicou como pesquisas de campo, experiências sensoriais e escolhas narrativas ajudam a construir personagens e histórias capazes de aproximar a ficção da realidade.
Um dos principais assuntos foi o processo de criação do romance Suíte Tóquio, uma de suas obras mais conhecidas. Para escrever o livro, Madalosso viajou ao interior do Paraná e à região amazônica, onde buscou referências para desenvolver as personagens e os diferentes universos sociais retratados na narrativa.
Ao explicar a importância dessas experiências, a escritora destacou que a pesquisa literária vai além da coleta de informações e da busca por dados concretos. “Na literatura, eu acho que a nossa pesquisa vem muito disso, dos sons, dos cheiros, das impressões que a gente tem.
E isso é o que dá para o leitor aquela sensação de: nossa, essa história é verdade”, afirmou. A participação de Giovana integrou a programação da Escola de Escritoras, iniciativa da Casa de Escritoras que oferece formação literária gratuita a 80 mulheres em Goiás.
Conforme noticiado anteriormente pelo Jornal Opção, o projeto tem duração de dez meses e reúne oficinas de escrita criativa, seminários, atividades de leitura e encontros com autoras brasileiras. A programação também já recebeu nomes como Cíntia Moscovich, Andrea del Fuego e Martha Batalha.
O encontro com Madalosso deu continuidade a uma atividade virtual realizada anteriormente com as participantes. Desta vez, a escritora esteve presencialmente na capital goiana para conversar sobre sua trajetória, compartilhar experiências profissionais e discutir os caminhos da criação literária.
| Foto: Giovanna Campos/Jornal Opção Viagens ao Paraná e à Amazônia ajudaram a construir personagens
Durante a conversa, Madalosso explicou que um dos desafios de Suíte Tóquio foi construir duas protagonistas com realidades sociais bastante diferentes: uma patroa e uma babá. A escritora queria que as duas tivessem o mesmo espaço dentro da narrativa, sem que uma personagem fosse apresentada como mais importante do que a outra.
A solução foi adotar a primeira pessoa para ambas, garantindo o mesmo número de capítulos e páginas. A intenção era permitir que o leitor conhecesse as duas perspectivas e construísse seus próprios julgamentos.
Para desenvolver a babá, a autora decidiu que a personagem teria origem em uma fazenda de produção de bicho-da-seda em Mandaguari, no interior do Paraná. Ela viajou até a cidade para conhecer o ambiente e compreender melhor as referências culturais e sociais que poderiam fazer parte da vida da personagem.
A experiência também influenciou a linguagem utilizada no livro. A escritora criou expressões e particularidades regionais para diferenciar a maneira como cada protagonista se comunica.
Na construção das duas mulheres, até mesmo a escolha das palavras foi planejada. Enquanto uma personagem utiliza frases mais curtas e objetivas, a outra apresenta uma linguagem mais ansiosa, com períodos longos e maior utilização de vírgulas.
A escritora também explicou que viajou para uma aldeia distante no alto do Rio Gregório, no Acre, para desenvolver as cenas relacionadas à personagem Fernanda. Embora nem todas as perguntas que levou tenham sido respondidas durante a viagem, a experiência proporcionou contato com sons, cheiros e impressões que posteriormente foram incorporados à narrativa.
Para Madalosso, esse cuidado é fundamental para construir a verossimilhança, ou seja, a capacidade de fazer com que o leitor aceite o universo ficcional como verdadeiro. Ela explicou que uma história pode apresentar situações extraordinárias, mas precisa respeitar a coerência interna que estabelece com o leitor.
Como exemplo, mencionou A Metamorfose, de Franz Kafka, em que o protagonista acorda transformado em um inseto. Mesmo diante de uma situação improvável, o leitor aceita a premissa apresentada pelo autor.
Literatura não deve ser reduzida a um único assunto Outro tema discutido foi a escolha dos títulos dos livros e a maneira como eles podem direcionar a interpretação dos leitores.
Madalosso contou que Tudo Pode Ser Roubado nasceu de uma reflexão sobre as diferentes formas de perda. Na história, a protagonista rouba objetos para revendê-los em um brechó e recebe a missão de furtar um livro raro.
Entretanto, a ideia do roubo ultrapassa os bens materiais. Segundo a escritora, também podemos perder relações, afetos, momentos, certezas e até mesmo a liberdade.
“A gente pode ser roubado de muita coisa, a gente pode ser dilapidado de momentos, de relações que a gente tem, de certezas, da nossa liberdade”, explicou. Ela também relatou que Suíte Tóquio teve outro título durante boa parte do processo de criação.
Inicialmente, o romance se chamava Maternidade, mas o editor avaliou que a denominação limitava o alcance da história, que também aborda relações afetivas, casamento, desigualdade social e exploração do trabalho doméstico. A mudança levou a autora a refletir sobre o papel dos títulos na literatura.
Para ela, uma boa obra literária não deve se limitar a um único assunto, mas apresentar diferentes camadas de interpretação. A escolha de Suíte Tóquio também foi uma maneira de chamar a atenção para as relações de classe presentes na narrativa, especialmente a exploração de uma babá por sua patroa.
Escritora relata dificuldades para seguir carreira Além dos aspectos técnicos da escrita, Madalosso compartilhou episódios de sua trajetória pessoal e profissional.
Ela contou que desejava ser escritora desde os 7 ou 8 anos, mas cresceu em uma família conservadora, de origem italiana, que enfrentava dificuldades financeiras e não incentivava a carreira artística. Segundo a autora, a orientação familiar era de que os filhos trabalhassem nos negócios da família, já que a literatura e outras atividades artísticas eram vistas como profissões sem estabilidade financeira.
Ela também relatou que enfrentou dificuldades para confiar na própria produção e passou anos escrevendo e guardando manuscritos sem publicá-los. A escritora relacionou parte dessa insegurança à falta de referências femininas no universo literário.
Segundo ela, durante muito tempo, a imagem socialmente construída do escritor esteve associada a homens, enquanto as mulheres apareciam pouco nesse espaço. Madalosso também fez um alerta aos escritores iniciantes sobre a importância de escolher pessoas adequadas para ler e avaliar os primeiros manuscritos.
Para ela, um bom leitor não é aquele que tenta reescrever a obra conforme suas próprias preferências, mas quem consegue compreender a proposta do autor e apontar problemas de maneira construtiva. “Não procurem leitores que eles fariam deste jeito.
O bom leitor é aquele leitor que entende o seu estilo e que, a partir do entendimento da sua proposta literária, ele vai fazer uma análise”, aconselhou. A autora contou que, durante anos, teve seus trabalhos desqualificados por pessoas próximas, o que contribuiu para que deixasse projetos engavetados.
Depois de mudanças em sua vida pessoal, passou a publicar seus livros com mais frequência. A conversa também abriu espaço para reflexões sobre a presença feminina na literatura, a autoconfiança e as dificuldades enfrentadas por mulheres que desejam transformar a escrita em profissão.
Ao compartilhar experiências que vão da pesquisa de campo à construção de personagens, Giovana Madalosso apresentou aos participantes um olhar sobre a literatura como um trabalho de observação, experimentação e dedicação. Mais do que contar histórias, a escritora defendeu a importância de construir universos coerentes, personagens complexos e narrativas que permitam diferentes interpretações.
Jornal Opção