Em disco, o gurufim universal de Hermeto Pascoal
Pianista francês de jazz, Laurent Couloundre, 37, estudava a obra de Hermeto Pascoal (1936-2025) desde os 18 anos, e chegou a ver alguns dos shows do Bruxo na França:
— A música de Hermeto é diferente de tudo, é quase um estilo... não sei se de jazz, de jazz brasileiro... é música! Ele tem temas muito longos, com melodias incríveis, complexas, mas que, no fim das contas, soam simples e alegres.
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Também aos 18, o virtuoso gaitista Gabriel Grossi, hoje com 47 anos, conheceu Hermeto no Clube do Choro, em Brasília — acabaria tocando com ele naquela noite, e depois faria parte de sua banda.
— Ele meio que virou um padrinho musical meu — conta. — O Hermeto conquistou espaço pela figura excêntrica, por essas loucuras de tocar chaleira, mas o importante é ele ser o criador de uma escola musical, de toda uma maneira de composição e de improvisação. Ele formou muita gente no quesito técnico, mas também no jeito de enxergar a música, de desbravar a música, de não ter medo.
Ano passado, Gabriel e Laurent tinham um show marcado no Rio de Janeiro, e o francês chegou à cidade, por uma incrível coincidência, bem no dia do velório de Hermeto — então, foi para lá logo que desceu do avião.
— Era um momento triste, mas aquela tristeza foi transformada em música, a gente começou a tocar e o velório virou uma festa, bem do jeito do Hermeto — conta o gaitista. — A gente já estava pensando em fazer alguma coisa juntos, e ali tudo começou a acontecer por causa dessa coincidência.
Pouco depois, o grupo Snarky Puppy do baixista Michael League fazia show no Rio, e convidou Gabriel para uma participação. Ali, eles conversaram sobre o tributo a Hermeto. E, em mais uma coincidência, alguns dias depois o brasileiro partiria para uma turnê na Espanha — onde Laurent tem família e Michael mora.
Preparações foram iniciadas e, um mês depois, eles gravariam, em dois dias, as bases de “Hermeto Universal” (álbum lançado na última sexta-feira), com um quarteto completado pelo baterista cubano Ruy López-Nussa, no estúdio do americano em Barcelona.
— O Hermeto sempre chamou a música dele de universal, então a gente resolveu fazer uma leitura internacional da música dele, tanto que os únicos brasileiros convidados foram a (cantora paulistana) Vanessa Moreno e o Fábio Pascoal (percussionista, filho de Hermeto) — diz Gabriel Grossi. — Também tentamos jogar a música dele para outros lugares, para outro público, para outras texturas.
‘Vamos inventar agora’
Dois meses mais, e eles terminaram o trabalho, depois de gravar com todos os convidados. Para “Montreux”, eles chamaram a cantora indiana Varijashree Venugopal; já para “Bebê”, o trompetista libanês Ibrahim Maalouf. As músicas do disco são de Hermeto, com exceção da faixa-título (de Laurent), “Domingo Pascoal” (de Gabriel), “Som da aura” (dos dois) e de “Catarina e Tereza”, de Gabriel e Hermeto, com participação das filhas do gaitista, que dão título ao tema.
— Eu estava naquela de “Hermeto, vamos gravar alguma coisa sua?”. Aí ele falou: “Ah, cara, eu nem lembro das minhas coisas mais, vamos fazer outra coisa. Vamos inventar um negócio agora!” — recorda-se Gabriel. — As minhas filhas estavam para nascer mesmo e, depois de fazermos a música, eu falei: “Pô, Campeão, vou ser pai de gêmeas!”. E ele: “Ah, é? Então essa música é para elas!” O Hermeto mesmo batizou essa música que, para mim, foi o maior presente da vida.
