Em Davos, Trump chama Dinamarca de 'ingrata' e diz que apenas os EUA têm o poder de garantir a segurança da Groenlândia
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou nesta quarta-feira à Suíça para participar do Fórum Econômico Mundial, em Davos, após um atraso de mais de duas horas provocado por um problema técnico em sua aeronave. Apesar do contratempo, o discurso do republicano foi mantido no horário previsto. A participação do líder americano ocorre em meio à escalada de declarações, ameaças comerciais e gestos políticos que colocaram a Groenlândia no centro de uma crise diplomática entre Washington e seus aliados — e passou a definir o tom do encontro anual da elite política e econômica global, agora dominado por discussões sobre segurança, soberania e o futuro da relação transatlântica.
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Trump disse que deixaria a Groenlândia de fora de seu discurso, mas que achava que isso seria visto de forma negativa, o que provocou risos na plateia de líderes financeiros, tecnológicos e políticos. O republicano disse ter “enorme respeito tanto pelo povo da Groenlândia quanto pelo povo da Dinamarca”, mas acrescentou que “todo aliado da Otan tem a obrigação de ser capaz de defender seu próprio território”, indicando que “nenhuma nação ou grupo de nações está em condições de garantir a segurança da Groenlândia, a não ser os Estados Unidos”.
O argumento de Trump é que a Alemanha invadiu a Dinamarca na Segunda Guerra Mundial, e os EUA tiveram que defender a Groenlândia, mas depois a devolveram. Trump chama os Estados Unidos de “estúpido” por essa atitude e a Dinamarca de “ingrata”.
Como antecipado por um funcionário da Casa Branca que falou sob condição de anonimato com a Associated Press, o discurso de Trump começou focado na política interna. O presidente americano iniciou sua fala exaltando a conclusão de seu primeiro ano no cargo, citando o que descreveu como uma economia “em expansão”. Ele citou recordes do mercado de ações, crescimento econômico e forte valorização dos planos de aposentadoria. Trump declarou que “a inflação foi derrotada” e que a antiga “fronteira aberta e perigosa” dos EUA foi fechada. A inflação mais recente, porém, foi registrada em 2,7% ao ano, acima da meta de 2%.
— As pessoas estão indo muito bem, estão muito satisfeitas comigo — disse, apesar dos índices de aprovação desfavoráveis.
Trump então passou a atacar o que chamou de “migração em massa descontrolada” e o foco europeu em energia verde. Ele afirmou que certos lugares da Europa “não são mais reconhecíveis” e que, embora queira que o continente vá bem, acredita que ele não está seguindo na direção correta. Em seguida, declarou que está reduzindo impostos e elevando tarifas sobre países estrangeiros para “pagar pelos danos” que, segundo ele, teriam causado. As tarifas, no entanto, são pagas por importadores, ou seja, empresas e consumidores dos Estados Unidos.
Também como esperado, Trump citou a operação militar americana que, em 3 de janeiro, culminou na captura do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores. O republicano afirmou que, após a queda do líder chavista, que os Estados Unidos os EUA acabaram de adquirir 50 milhões de barris de petróleo venezuelano. Conforme publicado pelo The Guardian, a questão é controversa porque o petróleo foi vendido a uma empresa cujo principal negociador de petróleo fez uma doação para a campanha de reeleição de Trump.
— Assim que acabamos o ataque [na Venezuela], disseram: ‘Vamos fazer um acordo’. Mais gente tinha que fazer isso — disse, prometendo que o país rapidamente ganhará mais dinheiro do que nos últimos 20 anos. — A Venezuela vai ter um desempenho fantástico.
Trump desembarcou em Zurique após ser obrigado a retornar à Base Conjunta Andrews, nos arredores de Washington, logo após a decolagem inicial, devido a um “pequeno problema elétrico”, segundo a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt. O presidente e sua comitiva embarcaram em um novo avião pouco depois da meia-noite, viajando em um Boeing 757 menor, geralmente utilizado pelo vice-presidente e membros do gabinete, em vez do tradicional Boeing 747 presidencial.
A chegada tardia teve impacto imediato na agenda do presidente. Uma reunião bilateral prevista para esta quarta-feira entre Trump e o chanceler alemão, Friedrich Merz, foi cancelada, segundo uma fonte alemã ouvida pela Reuters. Ainda assim, Trump deve cumprir uma agenda intensa em Davos, com reuniões com líderes estrangeiros e participação em eventos com empresários.
A expectativa em torno do discurso era elevada após dias de escalada de tensões entre os Estados Unidos e aliados europeus. Nas últimas semanas, Trump ameaçou impor tarifas a oito países da Otan, entre eles Reino Unido e Dinamarca, em resposta à oposição às suas declarações sobre a possibilidade de tornar a Groenlândia parte do território americano. As ameaças provocaram reações duras na Europa e trouxeram volatilidade aos mercados financeiros.
Reações públicas
Antes mesmo da chegada do presidente, autoridades americanas e europeias trocaram declarações públicas no fórum. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, já presente em Davos, afirmou que a Europa deveria “se sentar e esperar” para ouvir diretamente de Trump seus argumentos. Segundo ele, os aliados deveriam evitar reações precipitadas antes do pronunciamento do presidente.
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Já do lado europeu, o tom foi de alerta. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o mundo vive uma mudança “sísmica e permanente” na ordem internacional e defendeu que a Europa acelere sua busca por autonomia estratégica. Ao comentar as ameaças de tarifas ligadas à Groenlândia, disse que justificá-las por razões de segurança é “simplesmente errado” e acrescentou que líderes europeus se reunirão na quinta para discutir uma resposta.
— A Europa prefere o diálogo, mas está totalmente preparada para agir, se necessário — afirmou. — Neste mundo cada vez mais sem leis, a Europa precisa de suas próprias alavancas de poder. Nós as conhecemos: uma economia forte, um mercado único e uma base industrial robustos, grande capacidade de inovação e tecnologia, sociedades unidas e, acima de tudo, uma capacidade real de nos defendermos.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, que também discursou no Parlamento, afirmou que as tarifas de Trump minariam as relações transatlânticas e são incompatíveis com o acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos. Em seu discurso, Costa disse que a UE está pronta para se defender — assim como seus Estados-membros e cidadãos — contra “qualquer forma de coerção”.
O presidente da França, Emmanuel Macron, também adotou um discurso firme ao falar no fórum. Sem citar Trump nominalmente, disse preferir “o Estado de Direito à brutalidade” e “o respeito aos valentões”. Suas declarações ocorreram após o presidente americano ameaçar impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses, depois que Paris recusou convite para integrar o chamado Conselho de Paz proposto por Washington. Macron defendeu que a União Europeia avalie instrumentos de retaliação, incluindo um mecanismo de “bazuca comercial”.
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No Reino Unido, o primeiro-ministro Keir Starmer optou por não comparecer a Davos. O secretário de Energia, Ed Miliband, afirmou que o premier tem adotado uma abordagem “calma” em relação a Trump, buscando pontos de convergência, mas deixando claras as divergências, especialmente sobre a Groenlândia. A chanceler do Tesouro britânico, Rachel Reeves, disse que Londres “não descarta nada” em relação a tarifas retaliatórias, embora tenha afirmado ter recebido garantias de que o acordo comercial entre Reino Unido e EUA seguirá em vigor.
Monopólio do debate
Antes mesmo de chegar aos Alpes suíços, Trump já havia monopolizado o debate internacional. Nas redes sociais, o presidente americano atacou aliados europeus, criticou decisões do Reino Unido e compartilhou mensagens privadas de líderes como o presidente francês e o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. Em uma das postagens, Trump divulgou uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece hasteando a bandeira americana na Groenlândia, acompanhada da legenda “Território dos EUA. Fundado em 2026”.
Os confrontos transformaram Trump no tema incontornável de um encontro que se apresenta como “Comprometido em melhorar o estado do mundo”. Cerca de 3 mil participantes de 130 países desembarcaram na cidade suíça, incluindo 65 chefes de Estado e 850 executivos de grandes empresas, segundo os organizadores do fórum. Diante da ofensiva, autoridades europeias passaram a tratar Davos como um espaço de contenção de danos. Líderes da UE e de países da Otan começaram a usar discursos e encontros paralelos para responder às ameaças, reafirmar apoio à Dinamarca e discutir contramedidas.
Na terça, o premier da Bélgica, Bart De Wever, afirmou em Davos que a Europa não pode ser uma “escrava miserável” de Trump, enquanto outros líderes incentivaram o enfrentamento. À margem do Fórum Mundial, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, classificou a resposta europeia às ameaças tarifárias de Trump como “patética” e “constrangedora” e pediu que os líderes do continente se unam para enfrentar os EUA. O democrata, apontado como principal opositor do líder republicano, disse ser hora de “manter-se erguido e firme”.
Retórica sobre Groenlândia
Também na terça-feira, o americano elevou o tom e afirmou que dirigentes do continente europeu “não oferecerão muita resistência” à sua intenção de incorporar o território semiautônomo ligado à Dinamarca. Segundo ele, o tema deverá ser tratado com “diversas partes” à margem do Fórum Econômico. Trump ainda repetiu que a Groenlândia é “estratégica” para a segurança nacional e global dos EUA.
As declarações, por sua vez, ocorrem após o anúncio de tarifas de 10% sobre exportações da Dinamarca e outros sete países europeus (Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia) que se alinharam contra a iniciativa americana — medida que provocou queda nos mercados e reacendeu temores de uma guerra comercial transatlântica. A UE avalia impor tarifas de retaliação sobre produtos americanos e mesmo recorrer a suas sanções econômicas mais sérias em resposta às recentes medidas de Trump.
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Em reunião nesta semana sobre a crise, os principais diplomatas do bloco europeu discutiram reviver um plano para tarifas no valor de € 93 bilhões (R$ 580,5 bilhões) sobre produtos americanos, que havia sido suspenso até 6 de fevereiro após Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, alcançar um acordo comercial com Trump em agosto do ano passado. Os maiores partidos do Parlamento Europeu anunciaram que adiariam a votação planejada sobre medidas para reduzir as tarifas da UE sobre produtos americanos.
— Eles precisam muito desse acordo conosco. Lutaram muito para conseguir. Então duvido [que tomarão uma decisão contrária]. Mas vamos ver o que acontece. Temos muitas reuniões agendadas sobre a Groenlândia. Acho que as coisas vão se resolver muito bem. Estou ansioso — disse o presidente americano.
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Em Davos na terça-feira, Von der Leyen afirmou que a resposta da União Europeia às ameaças do republicano será “firme, unida e proporcional”, ao mesmo tempo em que sinalizou disposição para ampliar investimentos europeus na Groenlândia e cooperar com os EUA em temas de segurança no Ártico. Já o presidente francês foi além e afirmou que a escolha atual é entre “aceitar passivamente a lei do mais forte”, levando a uma “nova abordagem colonial”, ou defender um “multilateralismo eficaz” que sirva aos interesses comuns.
(Com New York Times)
