Em conversa com Kassab sobre escolha de Caiado, Leite demonstra incômodo e diz que deve abrir mão do Senado
Na véspera do anúncio de Ronaldo Caiado como pré-candidato do PSD ao Palácio do Planalto, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, foi avisado pessoalmente pelo presidente da sigla, Gilberto Kassab, de que a escolha pelo nome do goiano já estava consolidada e pontuou incômodo com a condução do processo interno. A conversa ocorreu na noite de domingo, em Porto Alegre, durante um evento de filiação do partido, e antecipou a definição que será oficializada nesta segunda-feira, em São Paulo.
Segundo interlocutores, Leite afirmou a Kassab que a decisão foi apresentada à imprensa, ao longo da última semana, como praticamente definida, sem que houvesse, na prática, espaço para construção conjunta ou debate interno mais amplo. Na avaliação do governador, o processo acabou sendo conduzido de forma a esvaziar sua participação, o que gerou uma sensação de desprestígio dentro do partido. Ele também ponderou que, ao ser comunicado apenas quando a escolha já estava madura, foi colocado em segundo plano na disputa interna.
A definição encerra uma disputa que envolvia três nomes dentro do PSD: além de Caiado e Leite, o governador do Paraná, Ratinho Júnior, também era cotado. Ratinho, no entanto, desistiu da corrida presidencial na semana passada, alegando riscos ao seu projeto político no estado, o que abriu caminho para a consolidação do nome do governador de Goiás.
Na conversa com Leite, Kassab sustentou que a escolha por Caiado foi respaldada pelo conselho político do partido e por avaliações internas que indicam melhor desempenho do governador goiano em cenários nacionais. Interlocutores da sigla afirmam que pesou, sobretudo, a leitura de que Caiado hoje reúne mais condições de tração eleitoral imediata, enquanto Leite é visto como um nome com maior potencial de diálogo, mas ainda com menor capilaridade fora do Sul. Levantamento da Quaest divulgado em março reforça essa leitura. Em simulações de segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Caiado aparece mais competitivo, com 32% das intenções de voto, ante 44% de Lula — uma diferença de 12 pontos. No cenário com Leite, Lula venceria por 42% a 26%, ampliando a vantagem para 16 pontos.
Desabafo nas redes
Após a conversa com Kassab, na manhã desta segunda-feira, Eduardo Leite publicou um vídeo nas redes sociais em que explicitou o desconforto com a decisão do partido e ampliou a crítica à forma como o processo foi conduzido. Sem citar diretamente Ronaldo Caiado, o governador afirmou que a escolha “desencanta” e tende a manter o país preso à polarização.
— Embora essa decisão desencante a mim, como a tantos outros brasileiros, pela forma como insistem em fazer política no nosso país, eu não vou discutir essa decisão (...) E com toda franqueza, a decisão tomada pelo partido tende a manter esse ambiente de polarização radicalizada que tanto limita o nosso país. Eu acredito num outro caminho — disse.
No vídeo, Leite afirmou ter sido “marcado” pelas manifestações de apoio recebidas nos últimos dias e voltou a defender a construção de uma alternativa de “centro liberal democrático”, baseada em “equilíbrio, sensatez e respeito”. Para ele, há no país um desejo “ainda silencioso, mas muito real” por uma política menos polarizada, e a definição do PSD vai na direção oposta.
O encontro entre Kassab e Leite ocorreu durante um evento de filiação do PSD em Porto Alegre, que reuniu lideranças locais e nacionais. Na ocasião, o partido oficializou a entrada dos deputados estaduais Ernani Polo e Frederico Antunes, vindos do PP, e Aloísio Classmann, do União Brasil, ampliando a bancada da sigla na Assembleia Legislativa e reforçando sua estrutura no estado. A conversa reservada foi confirmada ao GLOBO por emissários de ambos.
Nos últimos dias, o nome de Leite chegou a ganhar força a partir de pressões externas ao PSD. Economistas e figuras de centro passaram a defender publicamente sua candidatura como alternativa mais moderada à polarização entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ainda assim, a cúpula do partido manteve a avaliação de que Caiado teria melhores condições eleitorais neste momento.
Na mesma conversa, Kassab e Leite alinharam o papel do governador gaúcho no novo cenário. Leite decidiu permanecer no comando do Rio Grande do Sul até o fim do mandato, descartando disputar outros cargos em 2026. A decisão, segundo aliados, foi influenciada principalmente pelo cenário local, considerado ainda instável.
O governador trabalha para viabilizar a candidatura de seu vice, Gabriel Souza (MDB), como sucessor, mas enfrenta dificuldades crescentes. A base política que sustentou seus mandatos passa por um processo de fragmentação, e a sucessão, hoje, está longe de ser um cenário pacificado.
O principal fator de pressão vem da reorganização do campo da direita no estado. O Republicanos formalizou apoio ao deputado federal Luciano Zucco (PL-RS), enquanto o Progressistas deixou a base do governo gaúcho e passou a negociar uma aliança com o PL. Nos bastidores, a avaliação é que Zucco caminha para consolidar uma chapa ampla à direita, o que tende a isolar a candidatura governista no centro e reduzir as margens de construção para Gabriel Souza.
Diante desse cenário, interlocutores apontam que uma eventual saída antecipada de Leite do governo poderia fragilizar ainda mais seu grupo político. Sem o comando da máquina estadual, o entorno do governador perderia capacidade de articulação e de reação ao avanço dos adversários. A permanência, portanto, é vista como condição para tentar equilibrar a disputa.
Kassab concordou com essa avaliação e endossou a decisão de Leite de permanecer no cargo. A leitura compartilhada é que deixar o governo neste momento reduziria seu capital político e sua capacidade de influenciar tanto a sucessão estadual quanto seu espaço dentro do PSD.
A escolha por Caiado foi saudada por Ratinho Júnior, que afirmou, em publicação nas redes sociais, que o partido “deu um exemplo de compromisso com a democracia ao promover um debate equilibrado” e que a definição “reforça que a legenda apostou num homem aprovado como gestor, com trabalho reconhecido nacionalmente”. O governador do Paraná também elogiou Leite, destacando seu “espírito público” e o papel na recuperação fiscal do Rio Grande do Sul.
Com a decisão, o PSD encerra uma fase de indefinição interna e inicia a construção da pré-campanha presidencial em torno de Caiado, em um movimento que busca se posicionar como alternativa no campo de centro-direita.
