Em ‘Continental’, Black Pantera refina a sua receita de heavy metal combativo - QTU Questões do Universo

Em ‘Continental’, Black Pantera refina a sua receita de heavy metal combativo

Fonte: Bandeira da fonte

Fundado no ano de 2014 em Uberaba, interior de Minas Gerais, o Black Pantera despontou nos últimos anos como um dos grandes nomes do rock brasileiro — e em especial do rock mais pesado e mais politicamente aguerrido.
Com músicas como “Padrão é o caralho” e “Fogo nos racistas”, e uma incessante atividade nos palcos do país, o trio conquistou um vasto público e alguns troféus (da APCA, do Multishow, além do Prêmio da Mùsica Brasileira).

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Esta sexta-feira, a banda lança o seu quinto álbum, “Continental” (Deck), no qual busca falar do Brasil, esse país gigantesco, com muitas etnias, que conversa com outras nações da América.
Não por acaso, ultimamente o Black Pantera tem tocado bastante no México, na Colômbia e no Chile.
— A América Latina é resistência, ela foi totalmente dividida e colonizada, mas muitos dos povos originários resistem.
O contato com outras bandas, com outros artistas, impacta a gente, por mais que pela questão da língua a gente esteja de certa forma isolado.
A gente é o mesmo povo, o mesmo continente também — analisa o baixista e vocalista Chaene da Gama, que formou o grupo junto com o irmão Charles Gama (guitarra e vocal) e com o amigo Rodrigo “Pancho” (bateria).
— Com certeza, a gente está aberto aí para, quem sabe, pensar num feat.
Tem vários artistas latino-americanos que a gente ama.
Capa de "Continental", álbum do grupo Black Pantera
Reprodução
Mas feats (uma coisa relativamente rara na carreira do Black Pantera) não faltam desta vez em “Continental”, álbum que eles mostram ao vivo no próximo domingo em São Paulo (no Cine Joia) e no dia 5 de setembro no Palco Sunset do Rock in Rio, em show conjunto com o Nervosa, referência feminina do thrash metal brasileiro (no dia 24 de outubro, eles voltam à cidade para tocar o disco no Circo Voador, na Lapa carioca).
Sandra Sá, Chico César, a rapper Duquesa, Derrick Green (vocalista do Sepultura) participam deste que é o trabalho mais eclético da história da banda mineira.
— A gente consegue estar agarrado ali no pop e ter refrões épicos, que grudam na cabeça, aqueles refrões chiclete.
Mas a gente não abandona aquilo que nos define também, que é ser pesadão, com hardcore e metal, com essa salada musical de peso que a gente mantém há tantos anos — analisa Charles Gama.
— “Continental” é muito diverso, mas a faixa que que fecha o álbum (“Punhos cerrados”) tem um peso, assim...
gigantesco.
Ela é rápida, poderosa, tem um refrãozão, muito solo de guitarra, tem um baixo moendo...
a gente tem conosco essa marca do peso, acho que para sempre!
As participações simplesmente foram chegando ao disco.
Derrick Green, um ídolo da banda — um negro, dos Estados Unidos, que, com a saída do fundador Max Cavalera, acabou se tornando em 1998 o vocalista do Sepultura, um dos maiores nomes da história do heavy metal mundial — foi o primeiro a mandar sua colaboração, para “Obsoleto”, por mensagem de áudio (curiosamente, no Rock in Rio, o lendário grupo — que vem de Minas, assim como o Black Pantera — promete privilegiar a sua fase Derrick naquele que será seu show de despedida do festival, depois de mais de 40 anos de atividade nos palcos do mundo).
Depois disso, os músicos do Black Pantera sentiram que, para “Quando canto”, estava faltando, como conta Chaene da Gama, “uma voz negra de uma mulher poderosa, tão ancestral quanto a música é”.
O produtor Rafael Ramos logo sacou quem era a cantora: Sandra Sá.
Que, orgulhosa e rapidamente, se juntou à canção.
Já Chico César foi a escolha inevitável para participar de “Banzo” — canção que saiu como um high life (estilo pop oitentista, que teve origem em Gana) meio afro-caribenho.
— A gente gosta dessa miscelânea, de se desprender dessa coisa de “a gente tem que ser hardcore, tem que ser metal”.
E essa é uma música que fala de perda, o primeiro verso remete a quando a minha avó se foi e a casinha dela se fechou.
A casa trancada, com as janelas fechadas, uma casa cheia de vida dos meus avós, aquilo foi muito impactante para mim — conta Chaene.
— Não adianta a gente ficar inventando, querer acelerar a música, porque ela tem esse sentimento.
Quando a gente chegou no estúdio, o Rafa (Rafael Ramos) pôs flauta, pôs teclado, pôs piano.
E o Rodrigo (baterista) encheu de percussão ainda pôs uma marimba.
É uma faixa com muita personalidade, que vai ser um choque para quem ouvir!
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Com músicas de puro peso metal-hardcore, como a faixa-título (que traz gravação de fala de um dos mais influentes e consagrados intelectuais negros do Brasil, o geógrafo Milton Santos), “Serotonina” (que citava Duquesa em sua letra e acabou tendo — por que não? — uma participação da própria rapper), “Start the game” e “W.P.P.”, “Continental” ainda traz uma incursão da banda no punk rock tradicional, em “Velho jeans rasgado”.
— No Black Pantera tudo está aberto, a gente não tem essa parada de “isso aqui a gente não faz, isso aqui eu não escuto, isso aqui a gente não vai fazer”.
E eu realmente estava com uma vontade danada de fazer um punkzão, falando da vida na estrada, esse corre em que a gente fica aí semanalmente, já há 12 anos — conta Chaene da Gama.
— Essa é uma música que pode funcionar tanto na programação de rádio quanto pro cara que quer escutar uma coisa diferente vinda do Black Pantera.
E a vida em meio à rotina por vezes tediosa (e os perrengues) das turnês realmente merecia virar uma música da banda.
— Hoje está todo mundo com 40 anos, é exaustivo, porque às vezes você passa muito mais tempo na estrada do que de fato tocando.
Você dorme pouco, come rápido, atende a galera, tira foto...
A estrada exige, sim, e a gente não vai romantizar isso, mas o show é uma consequência de algo que a gente buscou a vida inteira — admite Chaene, que começou nessa vida de músico aos 18 anos, com o irmão, em uma banda cover.
Chaene diz que foi o irmão Charles quem teve essa ideia de montar uma banda preta de metal.
Algo que já era, por si só, uma ideia excêntrica, mesmo no Brasil do Século XXI.
— Eu falei: “Cara, como é que eu, com quase 30 anos de idade, vou começar uma banda autoral?” Era inimaginável pensar que uma banda do underground, saída do interior de Minas Gerais estaria depois fazendo todo esse movimento, viajando pelo país inteiro e pelo mundo, ganhando prêmios e vivendo de música — desabafa o baixista.
— E hoje a gente está vendo um movimento de outros artistas, de outras perspectivas.
Nesse álbum novo, o “Equilíbrivm”, a Anitta trouxe o Brô MC’s, uma banda incrível do rap indígena.
Acho que é realmente hora de gente pensar que essas pessoas têm ter voz.
E isso também vale pro pro heavy metal, pro hardcore.
Você vê que a molecada sonha em ter bandas de meninos e meninas pretas.