Em cartaz no Rio, Malu Galli fala sobre menopausa: 'Não tem essa de ‘pausa’'

 

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Trinta anos atrás, Malu Galli fez aulas de bateria para um espetáculo que acabou não acontecendo. Mas a memória corporal, ela diz, é algo concreto, e aquele aprendizado encontrou, finalmente, um caminho por onde escoar. É através do instrumento que ela dá vazão à catarse que sua personagem vive ao se libertar das amarras que a aprisionam, em uma das cenas mais viscerais de “Mulher em fuga”, peça que acaba de estrear no Rio. “É meio como andar de bicicleta. Com duas ou três aulas, você pega o ritmo”, compara a atriz. “Usamos como uma alegoria de libertação, do rompimento que ela faz.”

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Trata-se, no caso, de Monique, mãe do escritor francês Édouard Louis e personagem central de seus dois livros que inspiram a produção: “Lutas e metamorfoses de uma mulher” e “Monique se liberta” (Todavia). Alguém que viveu três relacionamentos abusivos e teve os sonhos e a autoestima cerceados pela falta de recursos. Uma trajetória violenta com ecos também na conturbada relação com o filho, interpretado por Tiago Martelli na montagem em cartaz até 26 de abril, no Teatro Firjan SESI Centro.

Foi do ator a ideia de convidar Malu para o papel. “Procuro trabalhar com artistas que admiro e, quando li as obras de Édouard Louis e pensei na peça, o nome dela me veio à mente imediatamente”, ele conta. A adaptação dos textos ficou a cargo de Pedro Kosovski, e a direção, de Inez Viana, uma amiga de longa data da protagonista. “A Malu compreendeu muito rapidamente onde a personagem deveria chegar, desde os primeiros ensaios”, diz a diretora. “Demonstrou uma entrega absurda. Parecia que o papel estava esperando por ela.”

Tiago Martelli e Malu Galli em cena de "Mulher em fuga", baseada em obras de Édouard Louis

Divulgação/Leonardo Bonato

O espetáculo chega em solo carioca com uma temporada paulistana na bagagem e marca uma ruptura radical entre Malu e Tia Celina, personagem que interpretou no remake da novela “Vale tudo”, exibido no ano passado pela TV Globo. Saem de cena o figurino artsy e o cabelo curto para dar lugar à peruca loura desgrenhada e às roupas cotidianas de malha. “É uma mulher que não se cuida, está há anos apagada, trabalhando dentro de casa”, observa a atriz. “Você olha e não se lembra de nenhuma outra personagem feita por mim.”

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Falar sobre o tema abordado no espetáculo, considera Malu, é urgente diante dos números alarmantes da violência contra a mulher no Brasil. E a peça mergulha em diferentes camadas por trás dessa realidade. “A Monique começa a ter filhos muito nova, não tem uma profissão. É condenada, desde muito cedo, a ser dependente de alguém. A liberdade feminina passa pela autonomia financeira. Há uma pergunta feita por Édouard Louis, que diz: quantas fugas aconteceriam se cada mulher tivesse um cheque na mão?”, conta. A resposta vem do próprio público. “Vejo homens emocionados na plateia, e muitas mulheres vêm falar comigo, ao fim das sessões. Em São Paulo, uma delas disse: ‘Eu sou a Monique, mas vou sair dessa’.”

Tiago Martelli e Malu Galli como Édouard Louis e sua mãe, Monique

João Pacca

É, contudo, uma realidade muito diferente da pessoa física da atriz, casada há quase três décadas com o artista plástico Afonso Tostes e mãe de Luiz, de 24 anos. “Tive a sorte de ter uma rede de apoio como mãe e não precisar abrir mão da minha carreira. Invisibilizar a minha artista seria morrer”, comenta. O filho estuda Cinema na Suécia, de onde Malu acaba de voltar depois de seis meses sem vê-lo. “Estava quase morrendo (de saudade) e não sei por quanto tempo mais vamos ficar longe”, desabafa, encontrando na relação entre os dois um paralelo com o que tem vivido nos palcos, quando os personagens se reconectam. “É uma cumplicidade única. Uma relação profunda e, ao mesmo tempo, leve, com uma vontade de curtir a vida, fazer um passeio, dar gargalhadas.”

Em cena, Malu também lança mão de todo o vigor acumulado em 54 anos de vida. Além de tocar bateria, se movimenta o tempo inteiro. “Não paro um minuto. Pulo, me abaixo, subo em algo... É uma peça ‘rock and roll’, que me faz lembrar das montagens feitas quando era mais jovem”, comenta. “Eu me considero num momento muito bom da vida. O início da menopausa é realmente difícil, porque são muitas mudanças físicas e emocionais. Mas, depois, você começa a se ver mais experiente para lidar com as coisas. Com mais malícia, sabe? Temos tônus, vigor e disposição. Não tem essa de ‘pausa’. Precisamos inventar outro nome para isso.”