'Em alguns lugares tínhamos que ficar poucos segundos e sair', diz físico que trabalhou em Goiânia na crise do Césio 137

 

Fonte:


Adaptada para o streaming, a história da tragédia do Césio 137 em Goiânia vem sendo resgatada também pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), uma das entidades que participou do atendimento ao incidente radiológico que matou quatro pessoas e deixou centenas de contaminados. Na esteira do sucesso da série da Netflix Emergência Radiotiva, a CNEN está compartilhando em suas redes sociais relatos de funcionários que participaram na resposta ao episódio.

'Emergência radioativa': O que houve com vítimas do acidente com o Césio 137 em Goiânia?

'O dia mais triste da minha vida': Viúva de CEO brasileiro que morreu na Argentina faz post de despedida

— As atividades que nós fazíamos lá iam desde planejar a intervenção em uma área contaminada e, no outro extremo, fazíamos todo o trabalho pesado — lembra o físico Roberto Vicente, técnico da CNEN, — Os trabalhadores, que não eram da área nuclear, se sentiam confiantes quando fazíamos o trabalho juntos.

Initial plugin text

Vincente relata ter trabalhado em endereços como a Rua 57, onde ficava a casa do catador Roberto Santos Alves, o primeiro local de contaminação. Foi nela que a peça de chumbo e metal retirada de um aparelho de radioterapia, encontrado, por sua vez, na sede abandonada do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), foi desmontada. Outro endereço no qual ele trabalhou foi no ferro-velho para onde Roberto Alves e Wagner Mota Pereira levaram a peça com Césio 137.

— Um dos grandes desafios que nós tivemos lá foi trabalhar com níveis de radiação muito elevados. Alguns lugares tínhamos que ficar poucos segundos e imediatamente sair para que as nossas doses não fossem muito altas. Caso contrário, a gente teria que ser afastado com pouco tempo de trabalho — diz o físico. Segundo ele, após vistoriar residências para certificar que não havia contaminação, era comum que moradores oferecessem comida — Era a forma deles se certificarem que estavam em um lugar seguro.

Initial plugin text

Outra funcionária da CNEN que deixou seu relato sobre o atendimento à tragédia é a física Valéria Pastura, chefe do Setor de Capacitação do Instituto de Engenharia Nuclear. Ela trabalhou no Hospital Marcílio Dias, que recebeu as vítimas da contaminação. Entre elas, estava Leide das Neves, uma das vítimas fatais do incidente, que tinha 6 anos.

No vídeo publicado pela CNEN, Valéria lembra que o atendimento aos radioacidentados era feito com touca, máscara e óculos de proteção. Ela trabalhou no hospital entre setembro e dezembro de 1987.

— A gente tinha o nosso lado humano, sim. A gente tirava, tomando todas as devidas preocupações. Até porque eles não tinham mais a contaminação. O que aconteceia ali era a irradiação, não mais a contaminação — relata ela, que completa — As lembranças são doloridas.