Em 'A pediatra', Debora Lamm interpreta médica amoral e irônica que detesta crianças
“Uma personagem que salta do livro”. É assim que Debora Lamm define Cecília, protagonista da peça “A pediatra”, que ela estreia amanhã com Luis Antônio Fortes no Teatro Firjan Sesi Centro, no Rio de Janeiro, após temporada esgotada em São Paulo. Baseada no aclamado romance de Andréa Del Fuego, a montagem adaptada e dirigida por Inez Viana acompanha uma neonatologista amoral que detesta crianças e é amante de Celso, homem casado cujo filho, Bruninho, ela ajudou a fazer o parto.
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— O livro é escrito em primeira pessoa, mas achamos mais interessante trazer esse casal para a encenação. O Celso é uma figura tão horrível quanto a Cecília, aquele cafajeste clássico, e que contribui para o avanço da história — explica Inez Viana.
Tendo escolhido a profissão puramente pela conveniência de trabalhar no consultório do pai, a pediatra leva uma carreira bem-sucedida até começar a perder espaço para um médico de abordagem humanista, o que a obriga a encarar o universo dos partos naturais, que sempre desprezou. Com ironia e humor vil, ela revela para a plateia atos questionáveis e diversos pensamentos perversos que esconde por trás do jaleco branco.
Luis Antônio Fortes e Debora Lamm em "A pediatra", peça adaptada do livro de Andréa Del Fuego
Rodrigo Menezes
— Depositamos muita confiança nos médicos em geral, e especialmente nos pediatras. Só que ela é extremamente amoral, e a peça se passa muito dentro dos pensamentos dela. O público vai entrando num consenso de onde pode e não pode rir. Um amigo que assistiu contou que riu em algum momento e levou um cutucão de quem estava do lado. Mas não é uma risada comum, é de desconforto, do absurdo — pontua Debora.
Tudo começa a mudar quando Cecília passa a ter mais contato com Bruninho, que desperta sentimentos inéditos nela. Com a saúde fragilizada, o menino precisa de mais consultas, mas a pediatra extrapola o profissional e passa a invadir sua rotina — em certa medida, com anuência do pai, que chega a pedir que a pediatra-amante cuide da criança enquanto ele acompanha o parto do segundo filho.
— Nesse segundo ato da peça vem à tona toda a carência dela, e também o quanto ela é uma pessoa realmente desequilibrada — comenta Inez. — Nos faz refletir sobre em quem depositamos esse grau de confiança, achando que estão acima do bem e do mal.
Apesar de considerarem seus personagens detestáveis, os atores contam que trabalharam para destacar as contradições de Cecília e de Celso, em vez de determiná-los como puramente maus.
— Muita gente também se vê nessa pediatra, presa em uma profissão sem paixão. Quanta gente no Brasil não está nessa situação? Ela ainda é privilegiada, pôde escolher, mas muita gente nem pode. Isso é muito humano nela — observa Luis.
Serviço
Onde: Teatro Firjan Sesi Centro.
Quando: Qui e sex, às 19h. Sáb e dom, às 17h. Até 24 de maio. Estreia sexta (1º).
Quanto: R$ 40.
Classificação: 12 anos.
