Em 24 horas, duas famílias devastadas pela violência na cidade do Rio
Em um intervalo de 24 horas, duas famílias foram atravessadas de forma dramática pela violência na cidade do Rio. Na tarde de terça-feira, em São Cristóvão, na Zona Norte, Marcos Vinícius Cerqueira Oliveira, de 28 anos, foi baleado por assaltantes dentro do seu carro. Ele estava com o filho de 7 anos. A criança não ficou fisicamente ferida, mas assistiu a tudo. Anteontem, no Terreirão, Recreio dos Bandeirantes, Zona Sudoeste, a biomédica Ariane Anselmo Cortes, de 31 anos, que havia anunciado sua gravidez aos seguidores em uma rede social há cerca de duas semanas, foi morta a tiros ao lado do companheiro Ygor Dante Santos Cordeiro, de 29 anos. O casal teria ficado em meio a um conflito envolvendo grupos criminosos locais e Ygor pode ter sido confundido com um miliciano. A Polícia Civil diz que investiga as circunstâncias das mortes.
Biomédica morta ao lado do companheiro no Recreio dos Bandeirantes estava grávida
Confira: operação do Ministério Público do Rio mira nova cúpula da contravenção
— Parece que a vida ficou banal por aqui, a gente tem a sensação de que não tem mais valor nenhum, a nossa vida não vale nada. Um carro, um cordão... Por conta disso levaram a infância dos meus filhos, levaram a vida de um pai... podiam ter levado tudo, mas deixado meu marido — desabafou Camila Nascimento Ferreira, de 28 anos, após o enterro de Marcos Vinícius, na tarde de ontem, no Caju.
O desafio agora, conta Camila, é encontrar forças para retomar a vida sem o companheiro e cuidar dos filhos, especialmente do menino, que presenciou o assassinato do pai:
— Ele ficou completamente inconsolável, estamos tentando distrair, mas está sendo muito difícil. Os dois eram muito ligados, Marcos era um pai excepcional. É um trauma que vai acompanhar meu filho por toda a vida.
Chá de revelação
Ariane e Ygor foram executados na movimentada Avenida Canal das Taxas, no Terreirão. De acordo com familiares, os dois tinham ido ao local para buscar uma encomenda que seria usada no chá de revelação do bebê esperado pelo casal. Grávida de seis meses, Ariane, que já era mãe de um menino, vivia um momento especial em sua vida. Além da expectativa pela chegada do segundo filho, ela, que completaria 32 anos amanhã, tinha acabado de se formar em Biomedicina em dezembro do ano passado.
A conquista foi bastante celebrada. Em postagem do dia 13 de dezembro, Ariane e Ygor aparecem em vários registros, sorridentes, na festa que marcou a conclusão do curso: “Formatura dessa mulher incrível que me faz sentir a obrigação de melhorar a cada dia! Te amo Dra. Ariane”, escreveu Ygor, que no seu Instagram se apresentava como “supervisor em logística de distribuição” na área de comércio eletrônico. Ele era sócio em uma empresa de “serviços de malote não realizados pelo Correio Nacional” com endereço em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio.
Meses antes de se formar, em maio do ano passado, Ariane havia publicado uma foto usando o jaleco do curso de Biomedicina. A imagem foi fixada no topo das publicações. A legenda dá uma dimensão do quanto a conquista significava para ela e sua família: “É, dona Maria da Guia, a primeira Anselmo tá chegando lá”, diz mensagem direcionada à avó materna.
Treze segundos
O assalto que resultou na morte de Marcos Vinícius Cerqueira Oliveira aconteceu por volta das 16h na Rua Dulce Rosalina, nas proximidades do estádio de São Januário. Ele tinha ido buscar o filho na escolinha de futsal quando foi abordado por dois homens em uma motocicleta. Vídeos de câmeras de segurança mostram que a ação toda, até a fuga da dupla, dura meros 13 segundos.
Policiais do 4º BPM (São Cristóvão) foram chamados e encontraram Marcos ferido. Ele chegou a ser levado ao Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, mas não resistiu. Moradora de Del Castilho, a viúva de Marcos, que tocava uma peixaria em sociedade com o marido no Cachambi, conta que temia por assaltos no bairro onde vive.
— Acabou que aconteceu em outro lugar. Na minha cabeça fica a sensação de impotência, de medo, sempre morria de medo de ser assaltada aqui, mas a verdade é que não tem para onde correr. A gente não se sente seguro em lugar nenhum — desabafou Camila.
Por iniciativa de pais de outras crianças da escolinha de futsal frequentada pelo filho de Marcos e Camila, foi aberta uma vaquinha virtual para ajudar a família.
