Em 2026, um Rock in Rio cheio de bossa - QTU Questões do Universo

Em 2026, um Rock in Rio cheio de bossa

Fonte: Bandeira da fonte

Para um festival que leva o rock no nome, é bem verdade que o Rock in Rio não provoca surpresa em quase mais ninguém por sua diversidade sonora: desde o seu início, lá se vão 41 anos, ele tem trazido nomes do pop e da MPB.
Mais tarde, da música eletrônica e até mesmo do samba.
Mas bossa nova? Nada se viu até hoje sequer parecido com o que está sendo preparado para o dia 7 de setembro.
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No Palco Mundo, Luísa Sonza recebe ninguém menos do que Roberto Menescal, de 88 anos, um dos pais da bossa (parceiro, do letrista Ronaldo Bôscoli, em clássicos como “O barquinho”, “Você”, “Rio” e “Nós e o mar” e um dos grandes divulgadores dessa música no Brasil e no exterior), para mostrar o que fizeram juntos em “Bossa sempre nova”, um dos álbuns que a estrela pop lançou este ano.
No espaço Global Village, a música que João Gilberto e Tom Jobim espalharam pelo mundo ainda dá o tom para o encontro de Joyce Moreno, Leila Pinheiro e Fernanda Takai.
No Palco Sunset, a bossa é um dos ingredientes evidentes na mistura sonora de uma jovem sensação do pop mundial, a cantora islandesa Laufey, de 27 anos (e não custa lembrar que o cantor e pianista americano Jon Batiste, premiado autor da trilha sonora da animação “Soul” e atração do Palco Mundo, é um grande fã de Tom Jobim — inclusive, já tendo mostrado saber tocar “Wave” e “Chega de saudade”).
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Luísa Sonza diz saber bem o desafio que é “para qualquer artista, ainda mais um artista da nova geração”, pegar essa bagagem da bossa, junto com um de seus criadores, e levá-la para o maior festival de música do país (e um dos maiores do mundo).
— É muito diferente das outras experiências que eu vivi, um show totalmente feito para o Rock in Rio — admite a cantora de 28 anos de idade.
— Nele, trago as vertentes a que me proponho em “Bossa sempre nova” e também as de “Brutal paraíso”, meu álbum (também lançado em 2026) que mistura bossa nova, rock, funk e pop.
Nesse show, eu consigo entrar no momento bossa de uma maneira muito sóbria, sem ser tão discrepante (com o restante do repertório).
É algo que pode surpreender o público, e que depois, sim, deságua nos hits e nas coisas que sei que as pessoas gostam.
Em entrevista ao GLOBO em março, Roberto Menescal festejava o encontro com Luísa Sonza, um dos maiores nomes do pop surgidos nos últimos anos no Brasil.
— Tenho sempre procurado gente nova.
Ronaldo Bôscoli é quem falava: “Quem vive de passado é samba-canção” — brincou o mestre, que, além de Luísa, vem colaborando com jovens como Theo Bial, Analu Sampaio e Sofia Gilberto (neta do mito João, de apenas 10 anos, com quem gravou “O barquinho”).
— Eu não sabia nada da Luísa.
Ouvi umas músicas e pensei: “Será que vai dar para fazer uma coisa bossa nova juntos?” No primeiro encontro, ela já se mostrou muito esperta e me mandou uma música sem acompanhamento.
No começo fiquei sem entender o que ela queria.
Passaram-se uns 20 dias, e aí de repente a luz brilhou.
Fizemos a parceria, gravamos, e é a música de que eu mais gosto (“Um pouco de mim”).
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Para Luísa Sonza, “a bossa é sempre algo novo, é atemporal”.
— A bossa talvez seja, musicalmente falando, a coisa mais importante que existe do Brasil em nível mundial.
É algo muito bem feito, algo que acontece poucas vezes na história da Humanidade — admira-se.
— Quando você puxa esses acordes de João Gilberto, de Tom Jobim, do Menescal, eles automaticamente te levam para um outro lugar não tão acessado, eles te levam para as entranhas da música.
Sou do time que acredita que nem ao jazz a bossa nova deve ser comparada.
Acho que ela é algo mundialmente único, algo que não tem como se repetir.
A cantora diz já ter tocado com músicos formados em jazz, mas que, “quando eu peço uma bossa nova, eles não conseguem fazer a batida”.
— O Brasil tem o famoso borogodó, e a bossa nova traz esse borogodó das entranhas.
Quem gosta de música vai gostar de bossa nova, é inevitável, em qualquer lugar do mundo — garante.
— Existe esse conceito de que o artista pop pode ser um produto, ou pode ser algo que não é tão musical.
E eu acho que é o contrário, que, para você conseguir ser um artista pop, você tem que entender muita coisa sobre a música, sobre a batida, sobre o acorde, o sobre o que emociona.
E essa diversidade do pop você vê nas maiores, como a Lady Gaga, que tem álbuns com o Tony Bennett e tem o show dela de jazz.
Então, eu acho que o artista pop é muito mal interpretado, porque ele é bom em muita coisa.
A cantora Joyce Moreno na praia de Copacabana
Júlia Aguiar
Já Joyce Moreno, de 78 anos, artista de uma geração imediatamente pós-bossa nova, que já havia tocado no Rock in Rio Lisboa, e em grandes festivais europeus, como o de Glastonbury (Inglaterra), acha que o encontro com Leila Pinheiro e Fernanda Takai, montado especialmente para o festival, “vai dar um caldo”.
— Leila já gravou várias vezes músicas minhas, tivemos várias experiências juntas.
E a Fernanda, eu conheci pessoalmente (em 2008) quando cantei no Theatro Municipal para o hoje imperador do Japão (nas comemorações dos cem anos da imigração japonesa para o Brasil) — conta ela.
— E o último encontro foi muito legal, foi no show dos 50 anos do Clube de Esquina, lá em Belo Horizonte, foram três apresentações que a gente fez e ela participou.
Coube a Joyce a montagem da banda, para a qual convocou seu marido, Tutty Moreno (bateria), Jorge Helder (baixo), Lula Galvão (violão) e Rafael Vernet (piano).
— Pretendo abrir a minha parte homenageando João Gilberto, porque é a minha área, a minha história com a música começa muito ali — avisa ela, que acaba de lançar com Tutty e o produtor americano Adrian Younge o álbum “JID027” (da série Jazz is Dead) e logo depois do Rock in Rio parte para uma série de shows na Europa.
— E vai ter a minha própria obra, sim, porque aí tem aquele lance que eu faço que os ingleses chamam de hard bossa.
A minha parte vai ser meio voltada para isso.
Acho que Fernanda vai fazer uma bossa mais pop e a Leila vai fazer uma bossa mais clássica.
Depois, eu já enfio o pé na jaca do jazz e tudo fica certo!
Leila Pinheiro retorna aos palcos cariocas
Marisa Pinheiro
Leila Pinheiro, de 65 anos, participou do Rock in Rio em 2024, com Roberto Menescal, no mesmo Global Village, do show Pra Sempre Bossa Nova.
Estrela da MPB revelada nos anos 1980, ela tem em sua discografia os álbuns temáticos “Bênção, Bossa Nova” (1989, produzido por Menescal) e “Isso é bossa nova” (1994).
Para Leila, não houve jeito de escapar: “Eu sou de 1960, nasci com a bossa!”
— Quem mergulhar na música brasileira de verdade tem que passar pela bossa, para saber o que foi feito até ali.
Todos os grandes compositores daqueles festivais maravilhosos, todo mundo veio dali, foi aquela estupefação com a bossa e nunca mais ninguém conseguiu sair dela — acredita Leila.
— A bossa tem uma matriz de beleza, uma matriz de harmonias e melodias, até na vertente mais pop, com Marcos Valle e João Donato.
Tudo vem com essa pujança harmônica, melódica e lírica mesmo, porque, nas letras, também não há nada igual nestes dias.
Não à toa, está aí a Luísa, que é uma geração novíssima, no palco com o Menescal!
Fernanda Takai, da banda Pato Fu, se apresenta com os bonecos do Grupo Giramundo.
Daniel de Cerqueira
Em seu quarto Rock in Rio (o primeiro sem sua banda, o Pato Fu), Fernanda Takai, de 54 anos, estreou em carreira solo em 2007 roçando a bossa nova.
A partir de uma ideia do jornalista e produtor Nelson Motta, ela gravou o álbum “Onde brilhem os olhos seus”, só com o repertório da musa da bossa (e da MPB) Nara Leão (1942-1989).
— Sempre gostei muito do (duo inglês) Everything but the Girl, que é totalmente apaixonado pela música brasileira, e que eu achava superbossa nova muito antes de gravar o “Corcovado”.
Eu tinha uma queda por ele, porque eu era muito familiarizada com as vozes da Nara Leão e da Astrud Gilberto.
Não me esqueço que quando fiz o disco dedicado à Nara, o Menescal, quando veio aqui em casa, para gravar uma guitarra em “Insensatez”, falou: “Ó, a gente vai roubar você para a bossa nova!” — diverte-se Takai.
— Viajei bastante na comemoração dos 50 anos da bossa, fazendo shows com Emílio Santiago e Leny Andrade, eu era mais nova ali.
Toda vez que a gente se reunia, eles falavam: “Ó, se você estivesse lá na época, com certeza você ia ser da nossa turma, a gente não ia te largar nunca mais!”
No show com Joyce e Leila, ela diz que “não tem jeito de fugir de grandes músicas do Tom Jobim, de Vinicius, do próprio Menescal e do Ronaldo Bôscoli”:
— Mas eu também coloquei uma maldadezinha: sugeri que eu cantasse ali a versão que eu fiz de “Love’s a losing game”, da Amy Winehouse.
Ela virou uma bossa nova.
A gente mostra como a bossa é tão presente que mesmo a Amy, naquele momento fugaz de vida, ainda fez uma música que contém esse jeitinho.
E o mais bonito do dia do festival: trata-se de um contingente quase todo de mulheres, representando a bossa num festival de muita música bombástica e ruidosa.
— É, e antes da gente (também no Global Village) vai ter o show da Wanda Sá, que aí é a bossa nova mesmo — lembra Joyce, acerca da cantora de 82 anos, que em 1964 lançou, em sua estreia, um dos discos mais emblemáticos do movimento, “Vagamente” (a faixa título, por sinal, é uma composição da dupla Menescal/Bôscoli).
— Depois da Wanda, entramos nós três, cada uma com a sua leitura da bossa.