Elmo José dos Santos, sambista perfeito, guardião do quilombo
Arlindo Cruz e Nei Lopes postularam que o sambista perfeito deve ser “elegante do jeito Paulinho; cativante do jeito Martinho; malandro e contagiante do jeito Zeca Pagodinho”. Noves fora o contratempo de fugir à rima, Elmo José dos Santos merece lugar cativo na estrofe, pela trajetória de uma vida inteira devotada às escolas de samba. Aos 70 anos, o lendário Rato do Tamborim, ex-presidente da Mangueira, diretor de carnaval da Liesa, estará hoje, como nos últimos 25 anos, comandando o desfile do Grupo Especial.
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Mas ele prefere se definir de outro jeito, até mais inspirado:
— Penso sempre nos mestres do passado. Uma vez, Cartola me disse que o samba é um grande quilombo, onde a gente se defende dos inimigos. Quando eles se cansam de tentar entrar, a gente faz uma grande fogueira, onde chora os mortos, canta os parabéns, e festeja os curumins que estão nascendo. Atrás do quilombo tem uma grande floresta que temos de regar, porque é onde os guerreiros comem e os curumins brincam. Sou um cuidador desse quilombo.
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Conversar com Elmo permite passear pelos ensinamentos preciosos de Cartola, Maçu, Marcelino, Chico Porrão, Carlos Cachaça, os totens inventores da Estação Primeira. Ele mesmo acaba de ser ungido a baluarte da escola pela qual passou por todos os segmentos. À revelia, aliás – a aprovação unânime pelo conselho na última quinta-feira se deu sem que Elmo soubesse. Os parceiros sabem que ele não ia aceitar.
Como também não queria ser presidente da Mangueira, missão surgida num momento especialmente tenebroso da verde e rosa, em 1995. Dois ocupantes do cargo, os irmãos Carlos e Elysio Doria, tinham sido assassinados pouco antes e a escola vivia dificuldades financeiras quase invencíveis. Numa reunião no Clube dos Magnatas, o grupo que ele integrava fechou questão: “o candidato é o Rato”.
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— Meu pai ficou brigado comigo um mês — recorda ele, referindo-se a Mestre Tinguinha, fundador da ala da bateria verde e rosa e outra figura lendária, que acabou apoiando a candidatura ao ouvir um opositor chamar o filho de “safado”. — Ele veio e trouxe a Velha Guarda toda, Jamelão, Carlos Cachaça, Dona Zica, Dona Neuma.
Mas presidir a Mangueira estava muito longe de ser o chão de esmeraldas da música. No carnaval daquele ano, a escola tinha parado num humilhante 11º lugar e o Palácio do Samba, sede nas franjas do morro, estava em petição de miséria: não havia som, mesas nem cadeiras. Mas Elmo ostentava a própria história como garantia, o que sensibilizou Alcione. A cantora convocou o amigo para subir no bugre velho que ele tinha e percorrer a favela, para mobilizar a comunidade. Dias depois, pediu a ele que conseguisse uns pincéis e tinta para, com o Departamento Feminino, pintar a quadra.
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A cena marcou o início da virada. Três anos depois, a Mangueira conquistou o título (empatada com a Beija-Flor) no arrebatador desfile sobre Chico Buarque. Consolidado como líder do grupo que ressuscitou a escola, Elmo fez seu sucessor, Álvaro Luiz Caetano, o Alvinho, que ganhou novamente em 2002. A verde e rosa virou a página da miséria e voltou a ser grande.
O sucesso se explica pela conjugação de carisma, coerência e dedicação do percussionista talentoso que se transformou em dirigente, e carrega carnaval no DNA. Nascido no Buraco Quente (“a zona sul do Morro de Mangueira”, define, às gargalhadas) numa família de nove irmãos, Elmo cresceu observando o pai, que tinha a verde e rosa como prioridade absoluta.
— Quando chovia, ele levava os instrumentos da bateria para casa e os protegia das goteiras antes das nossas camas — relembra.
A influência logo se impôs e, criança, ele fazia instrumentos com papelão e latas — a de cola era caixa; a de manteiga, tamborim; a de leite condensado, chocalho; a de leite em pó, cuíca; a de marmelada, tarol. O tio, Chico Porrão, primeiro ensaiador da escola, dava dinheiro para os meninos comprarem mortadela e groselha.
Aos 9 anos, Elmo foi selecionado entre meninos de todos os “bairros” da favela (Pendura-Saia, Santo Antônio, Olaria, Inferninho, Buraco Quente) para desfilar na bateria mangueirense. O sonho se materializou no carnaval de 1964.
— Saí tocando chocalho. Lembro do sapato apertado e das pessoas nas janelas dos prédios da Presidente Vargas. O público cantava “leleleô, a Mangueira já ganhou, leleleô, a Mangueira deu olé, leleleô, a Mangueira é Pelé” — narra, sobre seu desfile preferido.
O Rato do Tamborim consolidou-se no Juventude Samba Show, grupo que criou com Mussum, o músico e comediante. Estava, como ritmista, no desfile histórico de 1984, quando a Mangueira supercampeã voltou pela pista do recém-inaugurado Sambódromo, diante do público em delírio.
Hoje, sem Elmo José dos Santos, o desfile das escolas de samba nem sai. Ele comanda toda a logística da maratona dos bambas, além dos outros eventos anuais, na Sapucaí e na Cidade do Samba. Cuida do planejamento para os ensaios e comanda a viagem das alegorias, dos barracões à concentração.
— Esse ano, tem escola que vai levar 15 caminhões com equipamentos — revela ele, inventor também dos ensaios técnicos e da Lavagem da Sapucaí, que em 2026 aconteceu pela 16ª vez.
É samba o ano inteiro, a vida toda, inclusive em casa, no Grajaú, onde vive com a mulher, Célia Marise, e o filho Elmo Júnior, que trabalha com o pai na Liesa. (Ele tem outros dois, Rodrigo e Wallace, do casamento com Célia Domingues.) Até quando? Para sempre.
— Carnaval é minha vida. Amo muito o que faço — atesta ele, que está há três em recuperação de um câncer. — Vou ficando até quando Deus deixar fazer meu papel — planeja o cuidador do quilombo do samba.
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