Elizabeth II 100 anos: a 'rainha pop' que uniu os britânicos em crises, guerras e dilemas da monarquia
Dezenas de milhões de britânicos sentiram-se órfãos quando a rainha Elizabeth II morreu, aos 96 anos, e marcou o fim de uma era. Monarca britânica com o reinado mais longo e a mais longeva, Elizabeth nasceu em 21 de abril de 1926 e passou 70 anos no trono antes de morrer, em setembro de 2022. Hoje ela completaria 100 anos.
Nesta segunda-feira, O rei Charles foi conferir uma exposição dedicada à moda de sua falecida mãe. Este será um dos muitos eventos da realeza britânica para marcar o que teria sido o 100º aniversário da falecida rainha.
Lilibeth, como era chamada pelo pai, o rei George VI, de quem herdou a Coroa em 1952, quando tinha apenas 25 anos, se tornou para os sĂşditos sĂmbolo de força e estabilidade em um mundo onde tudo parece tĂŁo efĂŞmero. Era respeitada e aprovada por 75% dos britânicos, segundo nĂşmeros de uma pesquisa feita no segundo trimestre deste ano pelo instituto YouGov.
Foi apĂłs a morte do consorte, o prĂncipe Philip, em 9 abril de 2021, que o Reino Unido finalmente se deu conta da fragilidade da soberana. Vestida de preto, apareceu sentada sozinha em um dos bancos de madeira da capela do Castelo de Windsor. Estava isolada do resto da famĂlia durante as exĂ©quias por conta do coronavĂrus. A imagem estampou as primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro. Solitária e triste, era apenas uma nonagenária de carne e osso que enfrentava o luto apĂłs um casamento de 74 anos.
Veja trajetĂłria de Elizabeth II
Quando ficou viúva, foi buscar refúgio em Windsor, sua residência favorita, o mais antigo castelo ocupado do mundo, onde viveu seus últimos dias de casada. Dali passou a tremular o pavilhão da Casa Real. A monarca resolveu não voltar mais para o Palácio de Buckingham, apenas para compromissos inadiáveis. Ela chegou a retomar as atividades oficiais, mas aparições públicas foram se tornando cada vez mais raras. Nos últimos dias, se refugiou no Castelo de Balmoral, na Escócia, onde na terça-feira empossou a nova primeira-ministra, Liz Truss.
Durante todos esses anos, Elizabeth II parecia inabalável. Por dever de ofĂcio, guardou para si opiniões polĂticas e posições sobre a maioria dos temas considerados sensĂveis. Talvez por isso tenha cometido poucos erros. Nem mesmo os escândalos da famĂlia real — e nĂŁo foram poucos — mudavam a atitude da monarca. Em 1992, depois da separação do prĂncipe Charles e do prĂncipe Andrew e de um incĂŞndio em Windsor, admitiu em pĂşblico que vivia um “annus horribilis". Mal sabia ela que depois viriam a morte da princesa Diana, e uma imensa comoção nacional e internacional, em 1997; acusações de pedofilia contra Andrew, em 2020; e o afastamento do neto, o prĂncipe Harry, das funções oficiais do palácio e da famĂlia real apĂłs seu casamento com a atriz americana divorciada Meghan Markle.Philip sempre foi a face mais humana do casal. Eram dele as gafes, as manifestações de emoções ou vontades que ela nĂŁo se permitiu. Elizabeth II dançou conforme a mĂşsica, como se esperava dela. Encontrou 12 dos Ăşltimos 13 presidentes dos Estados Unidos. Viajou o mundo. Foi atĂ© o Brasil em 1968, na Ăşnica visita de uma soberana britânica Ă AmĂ©rica Latina.
O mistério sobre o que terá se passado na cabeça dessa rainha durante tantos anos ocupou o imaginário coletivo britânico e mundo afora. Foi a deixa para tantas interpretações no cinema, no teatro e na televisão. O mundo dos Windsor fascina.
Elizabeth II viveu presa a um conto de fadas, o que pode ser bom ou ruim. O mais perto que o cidadão comum terá chegado da rainha foi a realização do documentário “Royal Family”, de 1968, que garantiu acesso sem precedentes às rotinas de trabalho e lazer da soberana. Ela e Philip tiveram quatro filhos (Charles, Anne, Andrew e Edward
Rainha pop
A rainha foi pop. As cores dos vestidos e chapéus estavam sempre nas páginas. A escolha das joias da rainha também tinha sempre mensagens a serem lidas pelos jornalistas especializados na cobertura da Casa Real. Quem nunca quis saber o que carregava nas bolsas de mão que usava para se comunicar com os auxiliares próximos em meio a agendas oficiais. Um gesto indicava a hora de encerrar uma audiência. Estava em Ascot, não muito longe de Windsor, todos os anos acompanhando de perto o desempenho de seus cavalos, uma das suas paixões da vida inteira, nas badaladas corridas de verão que reúnem a aristocracia britânica e ricaços do mundo inteiro.
Tornou-se tradução do soft power britânico. Está na bonequinha da loja de lembranças que dá adeus com a ajuda da luz solar, ou canecas de louça que marcam suas datas comemorativas. Afagou chefes de Estado ou de governo importantes para o reino. Como todo britânico, tambĂ©m tinha suas doses de senso de humor. Elizabeth II participou da inusitada cena de abertura dos Jogos OlĂmpicos de Londres em que recebe ninguĂ©m menos do que 007, na pele de Daniel Craig. James Bond foi buscar a monarca no Palácio de Buckingham, de onde simulam sair de helicĂłptero para pousar no estádio olĂmpico.
A rainha está ainda em uma galeria de arte em Windsor. No holograma do quadro “Aprovação real”, de Nusia Mullingan, com a bandeira Union Jack de pano de fundo, usando uma tiara de diamantes e tradicional colar de pĂ©rolas de trĂŞs voltas, ela pisca para o espectador. A obra sai pela bagatela de 1,295 libras (quase R$ 10 mil). O pagamento por ser parcelado em atĂ© 12 vezes. É a monarca acessĂvel para os sĂşditos.
Veja imagens da visita da Rainha Elizabeth II ao Brasil
Na escrivaninha de Winston Churchill, em Chartwell, a residência do primeiro primeiro-ministro de Elizabeth II (1940-1945 e 1951-1955) — foram 15, incluindo a recém-empossada Liz Truss — ainda está em lugar de destaque a foto da monarca no dia de seu casamento com Philip, dois anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Por sinal, o que se especula é que a soberana não tenha conseguido disfarçar o xodó por Churchill e Harold Wilson (1964-1970 e 1974-1976).
Sentada no landau de capota aberta com seu prĂncipe, a noiva sorria radiante enquanto acenava Ă multidĂŁo. A alegria nĂŁo se justificava apenas pela ocasiĂŁo em si. Mas pelo fato de ter descoberto contrabandeado debaixo do tapete do veĂculo sua corgi preferida, Susan, que acompanharia o casal real na lua de mel. A irreverĂŞncia destes companheiros de quatro patas de uma vida inteira — outra marca registrada desta rainha — talvez seja a pequena manifestação pĂşblica de irreverĂŞncia a que se permitiu a soberana sempre tĂŁo contida, que pĂ´s nas Ăşltimas dĂ©cadas o dever de servir o paĂs acima de tudo.
Fim do Império
"Sua Majestade Elizabeth II, pela graça de Deus, Rainha deste Reino Unido da GrĂŁ-Bretanha e da Irlanda do Norte e de Seus Demais Reinos e TerritĂłrios, Chefe da Comunidade das Nações, Defensora da Fé” era formalmente chefe de Estado de 14 paĂses da chamada Comunidade das Nações, do Canadá Ă Austrália e Ă Nova Zelândia, alĂ©m de ilhas do pacifico e do Caribe. Ela testemunhou o fim do impĂ©rio onde o Sol nunca se punha e o aparecimento do Reino Unido como o que Ă© hoje, uma potĂŞncia europeia dentre outras. Nesta transição, dedicou-se a preservar os vĂnculos com as antigas colĂ´nias por meio da Comunidade Britânica das Nações.
A morte da monarca Ă© um evento de importância inequĂvoca para o Reino Unido, pois, alĂ©m do luto, desencadeou grandes questões constitucionais, sobre a sucessĂŁo.
— Há uma sensação de terremoto — afirma Steven Barnett, professor da Escola de Comunicação e MĂdia da Universidade de Westminster.
Para o historiador Robert Lancey, consultor de “The Crown”, e autor do livro “The Crown: The Inside History”, “em tempos de desacordo polĂtico e crise, o papel da monarquia Ă© de lembrar Ă s pessoas os valores mais elevados que todos compartilhamos, a despeito das diferentes visões polĂticas”. Para ele, o fascĂnio com a famĂlia real permanecerá. Mas acha difĂcil que Charles III, o novo soberano, em um reinado relativamente curto que terá pela frente (em comparação com o da mĂŁe), seja capaz de conquistar o amor e respeito que Elizabeth II construiu ao longo destas sete dĂ©cadas.
Por outro lado, as ideias progressistas de Charles sobre conservação e mudança do clima, que já foram motivo de risos, agora representem um veredicto popular e de consenso para o futuro. Por isso, embora seja mais velho, suas ideias estão mais em consonância com as gerações mais jovens — disse Lancey.
