Astrônomos confirmaram a existência de Elias 2-24 b, um planeta com menos de 1 milhão de anos que passou a ser considerado o mais jovem conhecido até agora. Com massa aproximada à de Júpiter, o objeto ainda está em processo de formação e permanece dentro do disco de gás e poeira que circunda sua estrela, Elias 2-24, localizada a cerca de 450 anos-luz da Terra. Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Quer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp A descoberta foi feita a partir de dados de arquivo do W. M. Keck Observatory, no Havaí, em uma pesquisa liderada por Andrea Bernardi, doutorando da Universidad Diego Portales, no Chile. O estudo foi publicado na quarta-feira no periódico The Astrophysical Journal Letters. A existência de um planeta tão jovem amplia uma dificuldade para os atuais modelos de formação planetária. Antes de Elias 2-24 b, o recorde era dividido por quatro planetas, dois em torno da estrela PDS 70 e dois em torno de WISPIT 2, todos com mais de 5 milhões de anos. Como Elias 2-24 b foi encontrado A equipe analisou observações de arquivo de sete estrelas que haviam sido estudadas com o coronógrafo do Keck Observatory. Cada uma delas possui um disco de detritos formado por materiais como poeira, gás, fragmentos de gelo e pedaços de rocha. Esses discos apresentam estruturas e lacunas. Para os astrônomos, essas regiões podem indicar a presença de planetas em formação, capazes de abrir espaços no material que gira ao redor da estrela. O coronógrafo bloqueia a luz intensa da estrela e permite observar objetos muito mais fracos em suas proximidades. Foi dessa forma que os pesquisadores procuraram planetas escondidos ou parcialmente envolvidos pelos discos. No sistema Elias 2-24, o objeto foi encontrado justamente dentro de uma dessas lacunas. Bernardi explicou: — Os planetas deveriam ser encontrados dentro das lacunas, já que são eles que as estão abrindo. E foi exatamente lá que encontramos Elias 2-24 b — disse Bernardi. Planeta desafia modelos de formação Segundo Lucas Cieza, professor do Instituto de Estudios Astrofísicos, no Chile, e coautor do estudo, os modelos já encontravam dificuldades para explicar a existência dos recordistas anteriores. — Os nossos modelos de formação planetária já tinham dificuldade para explicar os recordistas anteriores de planeta mais jovem conhecido, um empate entre quatro planetas, dois orbitando a estrela PDS 70 e dois orbitando a estrela WISPIT 2, que têm todos mais de 5 milhões de anos. Elias 2-24 b nos mostra que até mesmo nossos melhores modelos de formação planetária ainda estão deixando de considerar alguns processos importantes — disse Cieza. A descoberta indica que ainda existem etapas da formação de planetas que não são completamente contempladas pelas simulações e teorias atuais. O objeto também oferece uma oportunidade rara para observar um sistema planetário em uma fase extremamente inicial. Um planeta ainda em construção Estrelas se formam a partir de grandes nuvens de gás e poeira em rotação. Quando uma nova estrela nasce, parte do material permanece ao seu redor e forma um disco. Ao longo do tempo, esse material se agrupa e dá origem aos planetas. Elias 2-24 b é observado ainda dentro desse ambiente de formação. A descrição artística associada ao estudo mostra o planeta crescendo no interior do disco e recebendo material ao redor. O objeto está em uma grande lacuna do disco, característica compatível com uma das principais teorias para a formação de planetas gigantes. Por ainda estar em processo de crescimento, Elias 2-24 b funciona como uma oportunidade para estudar uma etapa que normalmente permanece escondida. Por que planetas tão jovens são difíceis de observar A detecção de planetas recém-formados é particularmente difícil porque eles ficam envolvidos por grandes quantidades de poeira e gás. Um dos métodos mais usados para encontrar exoplanetas é o trânsito, quando um planeta passa diante de sua estrela e provoca uma pequena redução temporária em seu brilho aparente. A técnica, porém, encontra limitações em objetos muito jovens. Eles podem estar profundamente envolvidos pela poeira ou em órbitas muito distantes de suas estrelas, o que dificulta a observação. Existem cerca de 6 mil exoplanetas confirmados, e a esmagadora maioria tem bilhões de anos e está muito próxima de suas estrelas. Isso significa que os telescópios conseguem observar com maior facilidade planetas em fases muito posteriores à formação, enquanto os primeiros estágios permanecem pouco acessíveis. Para os pesquisadores, encontrar mais planetas em formação permitiria comparar objetos reais com as previsões feitas por teorias e simulações. Cieza resume o problema: — A galáxia produz continuamente novas estrelas e planetas, então há muitos deles em todas as fases da evolução. Isso significa que, em teoria, podemos observar todo o processo, mas há uma grande lacuna naquilo que a maioria dos telescópios consegue detectar. No momento, somos praticamente cegos para esses planetas bebês — explica. Uma máquina do tempo para os astrônomos Por estar em uma fase tão inicial, Elias 2-24 b pode funcionar como uma espécie de máquina do tempo para os pesquisadores. A observação do sistema permite estudar características que remetem aos primeiros momentos de um sistema planetário e pode ajudar a reconstruir como o Sistema Solar poderia ter sido bilhões de anos atrás. A importância está justamente na possibilidade de acompanhar uma fase que normalmente precisa ser reconstruída a partir de modelos, já que poucos planetas foram observados diretamente durante seu processo de formação. A existência do possível planeta não foi percebida pela primeira vez em 2026. Cerca de uma década antes da confirmação, observações feitas pelo ALMA, no Chile, haviam revelado uma lacuna no disco de poeira da estrela Elias 2-24. Posteriormente, o Very Large Telescope, do Observatório Europeu do Sul, também no Chile, registrou um pequeno ponto de luz dentro dessa lacuna. A partir daí, os astrônomos passaram a investigar se aquele sinal poderia ser um planeta. Havia, porém, um problema: a hipótese não se encaixava nos modelos existentes. As lacunas pareciam surgir cedo demais e a uma distância grande demais da estrela para que um planeta com as dimensões de Júpiter pudesse se formar tão rapidamente. Planeta está muito mais distante da estrela Segundo os modelos citados no estudo, seriam necessários cerca de 5 milhões de anos para formar um planeta do tamanho de Júpiter a uma distância equivalente à órbita de Júpiter em relação ao Sol, pouco mais de cinco vezes a distância entre a Terra e o Sol. Quanto maior a distância, maior seria o tempo previsto para a formação. Elias 2-24 b, no entanto, está a uma distância equivalente a 55 vezes a distância entre a Terra e o Sol em relação à sua estrela. Mesmo nessa posição, o objeto já apresenta características compatíveis com um planeta em formação e tem idade inferior a 1 milhão de anos. Para resolver a questão, Bernardi e sua equipe recorreram ao Keck Observatory Archive, resultado de uma parceria financiada pela NASA entre o Keck Observatory e o NASA Exoplanet Science Institute, ligado ao Caltech/IPAC. Os pesquisadores voltaram às imagens antigas e encontraram o pequeno ponto de luz em observações realizadas em 2018 e 2020. Ao combinar os registros, conseguiram acompanhar o movimento do objeto ao longo do tempo. O deslocamento observado mostrou um comportamento mais compatível com um planeta do que com um defeito de imagem ou uma estrela localizada ao fundo. Assim, a equipe confirmou a existência de Elias 2-24 b. — Normalmente ouvimos falar de telescópios trabalhando separadamente, mas essa confirmação só foi possível usando vários telescópios em conjunto. Elias 2-24 b está no limite do que os telescópios atuais conseguem detectar, mas, com novos instrumentos como o telescópio espacial Nancy Grace Roman, da NASA, essas detecções devem se tornar mais fáceis — disse Bernardi. Roman poderá encontrar mais planetas O telescópio espacial Nancy Grace Roman, da NASA, foi lançado em 30 de agosto e conta com um coronógrafo mais potente, capaz de bloquear melhor a luz das estrelas. A tecnologia deve facilitar a busca por planetas que hoje são difíceis de observar diretamente. A mesma técnica usada para confirmar Elias 2-24 b poderá ser aplicada pelo Roman na procura de planetas em órbitas menores, incluindo possíveis análogos de Júpiter. Segundo as informações do estudo, Elias 2-24 b está cerca de dez vezes mais distante de sua estrela hospedeira do que seria possível detectar atualmente em muitos casos. O que muda na busca por planetas bebês A descoberta amplia o número de objetos que podem ser usados para testar modelos de formação planetária. Quanto mais planetas forem observados ainda nos primeiros estágios de desenvolvimento, maior será a possibilidade de comparar as previsões das simulações com sistemas reais. Cieza considera que o resultado marca o início de uma nova etapa: — Este é apenas o começo de uma nova era de descobertas. É incrível que, com a tecnologia moderna, sejamos realmente capazes de ver a formação de planetas acontecendo em tempo real, e o Roman levará a busca por planetas a um novo nível — diz
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Elias 2-24 b: saiba como foi encontrado o planeta mais jovem já conhecido, com menos de 1 milhão de anos
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O Globo
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