‘Eles têm uma visão humanista muito maior’, diz especialista sobre nova geração de estudantes de medicina

 

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Em 10 anos, de 2014 para 2024, o número de vagas de medicina cresceu 139,3% no Brasil, segundo dados do Censo da Educação Superior. Mas não foi apenas a quantidade de estudantes que mudou. Em paralelo, um novo perfil de aluno, mais focado em gestão financeira e com uma visão humanista da prática médica, também passou a fazer parte dos cursos de graduação do país.

— Se eu pego a minha turma de medicina quando eu me formei, ela era muito mais homogênea, de uma forma ruim. Nas turmas de hoje, há uma heterogeneidade muito positiva — conta Gustavo Meirelles, doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), vice-presidente médico da Afya, maior ecossistema de educação em medicina no Brasil, com 38 instituições de ensino superior, e reitor da Unigranrio, no Rio de Janeiro.

Ao GLOBO, Meirelles fala sobre esse novo estudante de medicina, as transformações no conteúdo das universidades, os rumos dos recém-formados depois da graduação e a abordagem de pautas como saúde mental, uso de redes sociais e inteligência artificial.

Qual você diria que é o perfil hoje da pessoa que entra na graduação de medicina e o quanto ele mudou?

Houve uma mudança muito grande. O primeiro ponto é um perfil de um jovem muito mais interessado em inovação e empreendedorismo. Ele enxerga a medicina como uma carreira muito mais ampla, não apenas com as opções de atuar como um clínico, um cirurgião ou trabalhar com diagnóstico. Ele pode ser um gestor hospitalar, trabalhar com pesquisa, com direito aplicado à saúde, com engenharia clínica, produzir novos equipamentos.

O segundo ponto é que é uma pessoa com uma visão humanista muito maior. Nesse sentido, há um impacto extremamente relevante do programa Mais Médicos que ampliou o acesso à graduação a pessoas que vivem em lugares longe dos grandes centros, que não tinham universidades, e que antes nunca conseguiram fazer um curso de medicina.

Se eu pego a minha turma de medicina quando eu me formei, ela era muito mais homogênea, de uma forma ruim. Nas turmas de hoje, há uma heterogeneidade muito positiva que levam a esse perfil mais humanista e consequentemente a um melhor atendimento para a população.

Em termos de disciplinas que temos hoje na graduação, o que tem surgido de novidade e o que ainda é uma demanda não atendida dos alunos?

Na minha formação, não tínhamos conhecimento nenhum sobre uma gestão de consultório. O médico tinha uma visão exclusivamente técnica, nada sobre uma gestão financeira. Isso vem mudando. Vemos na faculdade e em cursos de pós-graduação e educação continuada matérias como essa. A ideia é que o jovem já saiba gerenciar um consultório em todos os sentidos, desde como atender um paciente até a como fazer a cobrança e cuidar das contas.

E com essa visão mais humanista, temos aulas hoje que simulam como dar notícias difíceis. Por exemplo, como digo para uma mãe que o filho que estava internado em uma UTI pediátrica acabou de falecer. Minha geração precisou aprender isso na prática. E, infelizmente, essa não é a melhor forma. Hoje já abordamos isso nas universidades.

E isso dialoga muito com saúde mental. Antigamente, esse tópico era pouco falado. Fazíamos residências médicas com 80 horas semanais de trabalho, plantões de 48 horas, e obviamente isso se reflete num atendimento pior para o paciente e um impacto ruim para a saúde da pessoa. Vejo a geração mais nova muito mais preocupada e atenta com saúde mental.

O que ainda falta é um conhecimento maior sobre a maior joia que temos no Brasil que é o sistema único de saúde. Já se ensina muito mais sobre do que na minha época, mas ainda acho que os alunos de cursos da saúde de um modo geral precisam conhecer mais o SUS, como funciona, o fato de ser o único sistema de saúde universal para um país com mais de 100 milhões de habitantes. Muitos ainda têm um desconhecimento e criticam o SUS até quando já precisaram utilizá-lo.

Temos um cenário elevado de profissionais com burnout no país?

Sim, vemos índices de burnout elevadíssimos. Fizemos um estudo na Afya que apontou que cerca de 45% apresentam algum quadro de doença mental, e 58,2% já vivenciaram algum grau de esgotamento relacionado ao trabalho. Isso não é diferente de muitos outros países.

A realidade norte-americana, por exemplo, tem dados piores, mas já começamos a ver aqui problemas muito semelhantes. Alguns médicos que estão ali naquele meio de carreira começam a se questionar se vale a pena trabalhar com medicina. Precisamos chamar a atenção para essa realidade, mas também pensar em medidas protetivas e terapêuticas para esses profissionais.

Isso já está sendo pensado desde a graduação?

Sim. Eu entrei na faculdade com 17 anos e já tinha contato com cadáver, logo depois tive contato com pacientes. Imagina o grau de estrutura de um jovem estudante para lidar com a morte, com notícias difíceis. Conhecimento e preparação para isso há algumas décadas era zero, era apenas na marra do dia a dia. Hoje, temos esse cuidado nas universidades. Temos preparação com atores, simulações de parada cardíaca com manequins infantis de altíssima qualidade. Então ele fica muito mais preparado para quando vai atender na prática.

Hoje há muito essa cobrança de o médico ser uma espécie de gestor financeiro, você acredita que a nova geração está mais adaptada a essa realidade?

Acredito que sim. Muitas pessoas da geração antiga montaram consultórios bem sucedidos, mas não se veem como empreendedores. A geração mais jovem já tem um foco maior nisso e sabe, inclusive, que hoje grande parte do trabalho acaba sendo medicina de grupo. Então o médico já está mais inserido no contexto de uma operadora de saúde, ou numa rede verticalizada, e vai precisar conhecer muito mais de economia, gestão e administração. Vejo que esses temas não só são mais explorados, como os jovens médicos têm mais atenção com isso.

Há uma questão muito grande no uso de redes sociais por médicos, como vê esse tema na formação médica?

Temos duas questões. Uma é que as mídias sociais acabam sendo um dos maiores gatilhos para a ansiedade e depressão. Porque é sempre um meio de comparação, o colega que já está atendendo pacientes no segundo período. E a segunda é a exposição, desde de dados próprios, como de pacientes e familiares. Falamos muito sobre isso hoje em dia com os jovens.

Mas vejo que o problema maior é o médico já formado, que começa a utilizar a mídia social e não teve isso na formação, não sabe como utilizá-la com ética. Recentemente soube de um caso que o cirurgião virou para o paciente no final da consulta e falou “não se esquece de postar nas redes que passou aqui”. Então são muitos profissionais atravessando limites que não deveriam.

Há uma preocupação também com a questão do conteúdo e da desinformação?

Hoje temos uma enxurrada de informações, é uma infodemia, e as pessoas às vezes se informam com fontes completamente inadequadas. E aí está a importância de o médico estar sempre atualizado. Senão há uma quantidade enorme de informações desencontradas, tanto para pacientes, quanto para profissionais de saúde. E muita gente não sabe separar o joio do trigo. Enquanto instituição de educação e saúde, vejo um papel importante nosso para passar informações corretas e fazer bem essa curadoria.

Em relação aos estudantes que já estão terminando a graduação, a residência ainda é o principal caminho?

Sou um grande entusiasta e defensor da residência médica, entendo que é uma excelente forma de educação continuada em que o médico tem uma vivência prática e teórica da sua especialidade. Infelizmente, não temos vagas de residência médica para 100% dos egressos no Brasil, hoje temos cerca de 40%. Nesse contexto, vejo um papel muito relevante da pós-graduação lato sensu.

Ela não substitui a residência, mas pode se aplicar para alguns perfis específicos, como profissionais que não conseguem ingressar na residência ou que precisem realizar a sua formação em paralelo ao trabalho como jovem médico para complementar a renda. A residência médica ainda exige dedicação mais do que integral, tem lugares que chegam a 70 horas semanais.

Um outro perfil é o profissional que já tem um tempo de formado, não fez residência médica, hoje já trabalha e quer se aperfeiçoar em alguma área específica. Então, as duas coexistem, a residência médica e a pós-graduação lato sensu.

E vemos outras mudanças ao longo dos anos. Eu sou de uma geração que tinha um foco muito grande também na pós-graduação stricto sensu, que é mestrado e doutorado. Mas agora vemos mais alunos com interesse em MBA, em busca de uma visão maior de gestão de negócios.

Em relação às especialidades mais buscadas, mudou muito nessa nova geração?

Eu fiz residência em radiologia, que era a especialidade número um em busca, muito difícil conseguir entrar. Isso mudou. Conduzi um estudo na Unifesp há alguns anos com estudantes do quarto ano, quando já estavam surgindo essas inovações digitais como inteligência artificial, que mostrou que muitos não queriam mais fazer com medo da IA. Era a especialidade top um há 10, 15 anos e hoje não está mais nas três principais.

E o interessante é que especialidades que estavam lá embaixo assumiram esses primeiros lugares. A psiquiatria estava longe há alguns anos e hoje é muito buscada por conta do grande número de transtornos de saúde mental. E também pela independência que os psiquiatras ainda têm, muitos conseguem manter o seu consultório, viver de atendimentos particulares.

Outra que vale ressaltar é a pediatria. Também era muito pouco procurada e vemos um crescimento muito porque cada vez mais pais e mães querem um atendimento de qualidade para os seus filhos.

Como tem sido o uso dessas técnicas de IA pelos estudantes na graduação?

Há um uso fortíssimo, não existe mais a medicina sem IA. Eu sou um grande fã da inovação, mas com o uso correto, obviamente. Um ponto importante na medicina é a proteção adequada dos dados. Lembrar que nós estamos usando informações de um paciente, que são completamente sigilosas. Esse é o maior risco de tecnologias como ChatGPT, Gemini, que eu adoro, mas que não foram concebidas para a saúde.

Infelizmente, há muitas pessoas subindo resultados de exames e prontuários no ChatGPT. E grande parte do material que você coloca ali pode ser usado para treinamento do próprio sistema, o que acaba perdendo completamente o sigilo. Qualquer uma dessas soluções, embora excelentes, não tem fim dedicado para o uso em saúde. Defendemos o uso de ferramentas criadas para a saúde. Nós temos por exemplo o Whitebook Assist, que é completamente conversacional, mas com as limitações para o uso correto da informação em saúde.