Quando o UTV da FIA Girls on Track Brasil parar para manutenção durante o Sertões, não haverá homens esperando para assumir o trabalho nos bastidores.
Quem pilota é Pâmela Bozzano.
No banco ao lado, Elisa Lacerda faz a navegação.
Camila Mattheis comanda a equipe, Brenda Farias trabalha na engenharia e Ana Cristina da Silva, na mecânica.
Pelo segundo ano consecutivo, o time chega à maior prova off-road das Américas com mulheres ocupando todas as funções.
A iniciativa da Comissão Feminina de Automobilismo da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) volta ao Sertões num ambiente em que elas ainda são ampla minoria.
Entre os 248 competidores inscritos em 2026, apenas 11 são mulheres, o equivalente a 4,4% do grid.
Pâmela é uma delas.
Natural de Ituporanga, em Santa Catarina, a pilota conheceu o rali em 2021, apresentada à modalidade pelo marido.
Cinco anos depois, parte para seu terceiro Sertões.
Elisa, por sua vez, fará sua estreia na competição.
— A gente fica muito feliz de estar representando as mulheres e o projeto, de ter sido convidada.
Sabemos que são poucas que têm essa oportunidade de estar aqui.
Às vezes, muitas acabam não tendo a coragem de vir sozinhas — diz Pâmela.
Pamela Bozzano conquista Sertões em 2022
Reprodução
A existência de uma estrutura formada por mulheres, acredita a pilota, pode diminuir justamente essa primeira barreira.
Para uma competidora que chega a um ambiente historicamente masculino, encontrar uma chefe de equipe, uma engenheira ou uma mecânica do mesmo gênero também ajuda a criar a sensação de pertencimento.
Elisa vê a participação sob uma perspectiva semelhante.
Mais do que completar a prova, sabe que o desempenho da equipe será acompanhado por outras mulheres que ainda enxergam o automobilismo de fora.
— É um esporte predominantemente masculino, um ambiente predominantemente masculino, mas a gente sabe que tem espaço para mulher.
Estamos conquistando nosso espaço.
Tem um peso muito maior saber que há muitas mulheres olhando para a gente, torcendo e querendo se espelhar — afirma.
— A gente consegue mostrar que isso aqui não é só para homem, que conseguimos e estamos ali no páreo com eles.
‘Não gostam de perder para mulher’
O discurso de igualdade não significa que a convivência esteja livre de situações que lembram às competidoras que elas ainda ocupam um espaço predominantemente masculino.
Para Pâmela, uma das manifestações mais comuns aparece nas brincadeiras e comentários ouvidos durante a trajetória no automobilismo.
— Para mim, foram as piadinhas masculinas.
No geral, eles respeitam muito a gente, até porque acabamos competindo de igual para igual.
Acho que eles não gostam muito de perder para a gente.
Tem aquele “não gosto de perder para mulher” — conta.
A reação, diz, virou combustível:
— Dá até um gostinho maior para a gente correr atrás, batalhar mesmo para deixar eles no chinelo.
Se o UTV não distingue quem está ao volante, alguns detalhes aparentemente banais mostram que a estrutura do automobilismo ainda foi pensada majoritariamente para homens.
Durante uma especial, por exemplo, uma simples parada para ir ao banheiro pode se transformar em desvantagem.
Pâmela conta que já houve pedidos de adaptações no macacão para facilitar o processo, mas mudanças esbarram nas regras de homologação da FIA.
— Um homem, para tirar o macacão e ir ao banheiro, leva dois segundos.
Para a gente é um pouco mais demorado.
É um prejuízo que temos em relação aos homens — explica.
Fora isso, não há diferença no UTV ou qualquer vantagem técnica pelo fato de o projeto ser feminino.
O equipamento é o mesmo.
Dentro da equipe, porém, elas encontram diferenças mais prosaicas.
Ao comparar a experiência com estruturas predominantemente masculinas, as integrantes brincam que organização virou uma espécie de vantagem competitiva.
Água, protetor solar, hidratante e até hidratante labial entram no planejamento.
— Somos mais organizadas — brincam.
A mulher que tenta organizar o caos
Se Pâmela e Elisa serão os rostos da equipe dentro do UTV, boa parte do Sertões de Camila Mattheis acontece quando os veículos já deixaram a especial.
Como chefe do time, cabe a ela coordenar uma operação que envolve mecânicos, deslocamentos, resgate e a preparação para o dia seguinte.
E sua rotina pode atravessar a madrugada.
— Minha rotina é tentar não ficar louca todo dia — brinca Camila.
— Normalmente durmo muito tarde e acordo muito cedo, porque gosto de ter certeza de que as coisas estão organizadas do jeito que eu gostaria.
Quando os veículos retornam, começa outra corrida.
Camila acompanha os problemas mecânicos, procura soluções e, quando necessário, peças com outras equipes.
Só considera o trabalho encaminhado depois de conferir também o planejamento do dia seguinte, o deslocamento das carretas e a estratégia dos veículos de resgate.
— Quando vejo que todo o planejamento do dia seguinte está pronto, que os motoristas sabem o caminho e os motoristas de resgate sabem o que têm que fazer, nessa hora consigo ir dormir.
Pouco depois, está novamente de pé para conferir se cada integrante começou sua função.
Além de chefiar, Camila dirige um dos veículos e participa do resgate da própria estrutura.
— São muitos dias dormindo pouco.
Mas tenho uma adrenalina tão alta durante o Sertões que aguento, nem sei como.
A chefe diz enxergar nas histórias de Pâmela e Elisa algo parecido com a própria trajetória: mulheres atraídas por modalidades dominadas por homens e que transformaram a necessidade de conquistar espaço em estímulo competitivo.
— A gente está sempre se desafiando, e isso acaba impulsionando a treinar mais, a dar o nosso melhor.
Elas são competitivas do mesmo jeito que eu sou — diz Camila.
Antes da largada, a preparação inclui até ensaiar situações que podem decidir minutos preciosos no meio da especial.
Pâmela e Elisa já disputaram juntas uma prova de carro em 2024.
Agora treinam troca de pneus, definem quem pega cada ferramenta e recebem orientações dos mecânicos sobre pequenos reparos que podem ser feitos sem assistência externa.
O desafio será colocado à prova a partir deste sábado.
A 34ª edição do Sertões será disputada entre 22 e 30 de agosto, com largada e chegada em Goiânia e passagem por Goiás, Bahia, Tocantins e Maranhão.
Serão 4.020 quilômetros, dos quais 2.611 de especiais cronometradas para carros, motos e UTVs, distribuídos em oito etapas.
Para a FIA Girls on Track Brasil, chegar ao fim será parte da missão.
Mas Camila deixa claro que representatividade não elimina competitividade.
— O principal objetivo de todas nós é terminar todos os dias e trazer o carro de volta para casa, mas também estar ali disputando, fazendo uma boa prova e indo no melhor que pudermos.
