Eleições mudam Congresso, mas Trump mantém controle da política externa

Eleições mudam Congresso, mas Trump mantém controle da política externa - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

A derrota expressiva do Partido Republicano nas eleições legislativas americanas enfraqueceu o presidente Donald Trump, além de ter ampliado a capacidade do Congresso de fiscalizar seu governo e exercer maior escrutínio sobre sua agenda. Na política externa, porém, o republicano ainda terá ampla margem de manobra para perseguir seus objetivos, mesmo diante da oposição dos democratas, que assumirão o controle do Legislativo em janeiro.

Leia também: EUA e Irã avançam em negociação sobre questão nuclear e se aproximam de acordo

Trump volta a ameaçar o Irã e diz que talvez tenha que ‘destruir o resto do país’ Republicanos vivem clima de incerteza, e democratas, euforia

Mesmo com os parlamentares democratas buscando conter o presidente republicano quando assumirem o controle do Congresso, Trump continuará com ampla margem de manobra para perseguir seus objetivos no cenário internacional — do Irã e de Israel à Ucrânia e à China — durante seus dois últimos anos no cargo.

A questão central, dizem analistas, é se Trump se sentirá refreado pelo fraco desempenho de seu partido nas eleições legislativas de terça-feira ou encorajado a tomar medidas mais drásticas para construir seu legado nas relações dos EUA tanto com aliados quanto com adversários. A questão mais urgente é a guerra de difícil solução contra o Irã, que Trump reconheceu na quarta-feira ter contribuído para a perda do controle das duas Casas do Congresso por seu partido.

Ele insistiu, porém, que não se arrependia de ter atacado a República Islâmica e que era essencial impedir Teerã de obter uma arma nuclear, algo que o país afirma nunca ter buscado. O resultado das eleições legislativas evidenciou a reação negativa dos eleitores após oito meses de conflito, que elevaram os preços da gasolina no território americano e reduziram os índices de aprovação do presidente.

Os democratas acusaram os republicanos de abrir mão das prerrogativas do Congresso para autorizar guerras e dar carta branca a Trump no cenário internacional, não apenas contra o Irã, mas também em sua abordagem da guerra da Rússia na Ucrânia, sua campanha de imposição de tarifas, a captura do presidente da Venezuela e os ataques mortais contra embarcações na costa da América Latina.

O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, disse a jornalistas na quarta-feira que o mandato recebido por seu partido é conter o "caos de Trump dentro e fora do país" e encerrar a guerra contra o Irã. Isso, porém, é mais fácil de dizer do que de fazer, diante da ampla liberdade de atuação que os presidentes americanos tradicionalmente possuem em política externa e operações militares.

"Um Congresso democrata tem capacidade de barrar a agenda legislativa doméstica de Trump, mas não tem muita capacidade de impedir um presidente de exercer seus poderes como comandante-em-chefe", afirmou William Wechsler, diretor sênior dos programas para o Oriente Médio do Atlantic Council.

Os principais instrumentos dos democratas poderão ser investigações, audiências de confirmação de indicados de Trump e o poder de controlar o financiamento das operações americanas no exterior. Analistas afirmam, no entanto, que sua capacidade de influência será limitada.

Sem responder diretamente às perguntas da Reuters sobre as implicações das eleições, a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, afirmou: "O presidente Trump restaurou de maneira eficaz a força americana no cenário mundial [...] O presidente continuará trabalhando com qualquer pessoa para colocar os Estados Unidos em primeiro lugar e melhorar as condições de vida das famílias em todo o país, e suas decisões de política externa nunca foram motivadas pela política."

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acena durante um comício de campanha para as eleições de meio de mandato Reuters/Kaylee Greenlee

Trump entra na fase final do mandato Presidentes que entram na fase final de seus mandatos, quando estão impedidos de concorrer novamente e veem sua influência interna diminuir, frequentemente passam a se concentrar nos assuntos internacionais — e muitos analistas esperam algo semelhante de Trump.

Alguns especialistas, porém, veem o risco de que a impulsividade de Trump provoque mais instabilidade no Oriente Médio ou desencadeie um conflito em outro lugar, possivelmente tendo como alvo Cuba, ilha governada por comunistas contra a qual ele impôs um bloqueio de petróleo e que ameaçou repetidamente.

"Se for provocado e se sentir encurralado", afirmou Laura Blumenfeld, analista de política externa da Universidade Johns Hopkins, "Trump poderá optar por demonstrar seus poderes presidenciais por meio do uso unilateral da força no exterior". Em relação ao Irã, Trump enfrenta a escolha entre lançar uma nova rodada de ataques aéreos, buscar uma saída negociada ou manter o cenário atual.

Tal impasse tenso mantém os preços globais da energia elevados e os países vizinhos do Golfo em alerta. Embora líderes iranianos tenham comemorado o que consideram uma humilhação de Trump em seu próprio país, pessoas em Washington familiarizadas com as discussões afirmam que ele ainda poderá recorrer à ação militar.

Uma fonte disse que Trump agora não tinha mais nada a perder politicamente. Mas Sina Toossi, especialista em Irã do Center for International Policy, em Washington, afirmou: "Uma escalada não oferece um caminho claro para a vitória e corre o risco de agravar justamente as dificuldades econômicas que levaram os eleitores a punir os republicanos".

Qualquer retomada de hostilidades de grande escala também poderia provocar mais dissidência dentro do movimento Make America Great Again (Maga) de Trump, no qual um número crescente de apoiadores está insatisfeito com o descumprimento de sua promessa de campanha de 2024 de evitar intervenções no exterior.

O vice-presidente J.D. Vance se distanciou da política de Trump para o Irã na quarta-feira, questionando se ela valia o custo e atribuindo a ela a derrota eleitoral esmagadora dos republicanos.

Uma mulher passa diante de um cartaz que retrata o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dentro de uma cela de prisão, em Teerã, capital do Irã Majid Asgaripour/WANA via Reuters

Democratas miram políticas para Ucrânia e Israel Ao assumirem o controle do Congresso em janeiro, os democratas também buscarão retomar o apoio à Ucrânia, que enfrenta pressões de Trump enquanto combate uma invasão russa que já dura quatro anos e meio.

Os democratas esperam atrair mais republicanos para os esforços de aprovação de uma nova ajuda à Ucrânia e formar uma maioria capaz de superar um eventual veto de Trump, que suspendeu a assistência direta ao país. A decisão de Trump de suspender sanções sobre as exportações russas de diesel provocou críticas, inclusive de alguns republicanos, por reforçar a impressão de que o presidente americano estava se alinhando cada vez mais a Moscou.

Ao mesmo tempo, os democratas querem usar seu novo poder para começar a recuperar as relações com os aliados europeus e com o Canadá, embora analistas afirmem que os parlamentares, sozinhos, não conseguirão restaurar a confiança de governos abalados pelas tarifas e pelas táticas de pressão de Trump.

Trump também deverá enfrentar um Congresso menos favorável a Israel do que em qualquer outro momento, enquanto alguns republicanos também questionam o apoio tradicional de seu partido ao aliado mais próximo de Washington no Oriente Médio. Muitos dos candidatos democratas eleitos são progressistas que fizeram campanha contra a ajuda militar a Israel e contra a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.

Eles pretendem pressionar pelo fim dos bilhões de dólares em assistência anual. O próprio Trump anunciou no dia da eleição que essa ajuda seria interrompida no fim do ano, embora não estivesse claro se ele tem autoridade legal para isso.

A campanha militar de Israel em Gaza, a aproximação do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu com Trump e o Partido Republicano e uma onda de violência de colonos na Cisjordânia ocupada já haviam enfraquecido décadas de apoio bipartidário. Apesar disso, o poder de veto de Trump poderá limitar a capacidade dos democratas de impor grandes mudanças de política.

No fim das contas, a maioria dos analistas considera que a política externa de Trump durante o restante de seu segundo mandato será orientada por sua visão do próprio lugar na história, que até agora tem se baseado fortemente no exercício do poder militar americano no exterior. "Ele está preocupado com seu legado, em ter deixado uma marca no mundo, não necessariamente uma marca positiva", afirmou Ross Harrison, pesquisador sênior do Middle East Institute, durante uma transmissão pela internet organizada pelo centro de estudos de Washington.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, caminha durante um evento de volta às aulas realizado para destacar as políticas educacionais de seu governo, no Roseiral da Casa Branca, em Washington, em 24 de agosto de 2026 REUTERS/Jonathan Ernst

Publicação Original Valor valor.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →