Eleições legislativas nos EUA podem impor dura derrota a Trump

Eleições legislativas nos EUA podem impor dura derrota a Trump

 

Fonte: Bandeira



As eleições legislativas de 3 de novembro nos Estados Unidos têm o potencial de fustigar o capital político do republicano Donald Trump, de demolir suas políticas públicas mais controversas e de impor limites à sua atuação até encerrar sua administração. Em duas palavras, podem torná-lo um pato manco até 2028 e, no limite, destituí-lo da Casa Branca. Tal cenário depende da possível conquista da maioria dos assentos na Câmara dos Deputados e no Senado pelo Partido Democrata — hipótese que deixou de ser aspiração etérea.

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Neste momento, especialistas consideram muito provável a retomada da Câmara pela oposição democrata — uma chance calculada em 90% pelo economista Maurício Moura, fundador da IDEA Big Data e professor da Universidade George Washington. A história pesa nessa conclusão. Foram raras as vitórias do partido do presidente nas eleições de meio de mandato nas últimas décadas, explica Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas.

Não há, entretanto, clareza sobre os resultados para o Senado, a Casa responsável por conduzir o impeachment, confirmar as nomeações do presidente e ratificar acordos internacionais, além de ser capaz de postergar ou bloquear os projetos do Executivo. Ali estão em jogo 35 das 100 vagas.

— Embora menos provável, mas não implausível, o cenário em que os democratas passam a controlar as duas Casas do Congresso faria de Trump um pato duplamente manco, sujeito a ser impedido em qualquer momento. Justificativas não faltam para tanto — avalia Sergio Fausto, diretor-executivo da Fundação Fernando Henrique Cardoso.

Onda de rejeição

A rigor, o próprio Trump contribuiu para esse horizonte ao bombardear o Irã, ao lado de Israel, em 28 de fevereiro. Os índices de aprovação de seu trabalho já não andavam bons na véspera dos ataques — desaprovação de 55,3% dos americanos, segundo a média das pesquisas calculada pelo Real Clear Politics (RCP). No início do mês, impulsionada pelo impacto do conflito no custo de vida, cresceu para 56,6%.

— O fato de haver uma onda de rejeição palpável a Trump no país afeta negativamente os candidatos republicanos. Mas a corrida eleitoral no Senado é diferente — pondera Stuenkel. — Os eleitores despendem mais tempo avaliando as posições dos concorrentes à Casa sobre os assuntos nacionais e estão cientes de que seus mandatos estendem-se por seis anos, enquanto o dos deputados é de apenas dois anos.

Clifford Young, presidente do Ipsos Public Affairs, avalia que, se hoje a disputa pelo Senado está em 50% para cada partido, somente o fim da guerra contra o Irã poderia favorecer os republicanos a manter sua maioria na Casa. Os democratas, por sua vez, precisam vencer em quatro estados — Maine, Carolina do Norte, Ohio e Alasca — e defender suas atuais cadeiras em Geórgia, New Hampshire e Michigan, pondera Moura. Inusitadamente, podem sair vitoriosos no Texas, um estado historicamente republicano.

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Moura explica que o líder americano já teceu meios para manipular e complicar o processo de votação. Primeiro, baixou por decreto novas regras para o voto por correio, opção cuja segurança tem sido recorrentemente atestada no país. Depois, teceu com vários estados, os responsáveis pelas eleições, a mudança do mapa de seus distritos eleitorais para favorecer os republicanos.

A terceira iniciativa, pendente de aprovação da Câmara, é a exigência de documentos com foto para votar — medida que Trump, se contrariado, promete impor por decreto. Por fim, a Casa Branca deixou no ar a possibilidade de envio da Guarda Nacional ou do ICE, a política anti-imigração, a locais de votação

Tudo somado, não há dúvidas sobre a intenção do presidente americano de desestimular ao máximo o eleitor — em um dia normal de trabalho ou de estudos e sob baixas temperaturas — a comparecer às urnas. As iniciativas fustigam, sobretudo, as minorias abraçadas pelos democratas, diz Stuenkel. Mas não deixam de desestimular republicanos.

— Tudo isso agrega um padrão sem precedentes de incerteza, algo que só costuma ocorrer em democracias instáveis, menos consolidadas. No entanto, acho pouco provável que tire a vitória democrata na Câmara — avalia Stuenkel.

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Teste de liderança

Trump tampouco deve conformar-se com os potenciais resultados desfavoráveis a seu partido. Mesmo que os democratas conquistem apenas o controle da Câmara, o magnata sofrerá perda de capital político, na opinião de Fausto. Pode até preservar sua liderança inconteste entre os republicanos, mas terá de lidar com uma casa baixa disposta a travar as discussões do orçamento e a desgastar sua gestão.

— Os democratas terão mais voz para apresentar uma agenda alternativa ao trumpismo com vista às eleições de 2028. A questão é se saberão aproveitá-la — afirma Fausto.

Não há dúvidas, para Moura, que a derrota republicana nas duas Casas levará Trump a criar confusões e a ofender a credibilidade do processo eleitoral. Fausto concorda.

— Como ele reagiria a essa ferida narcísica? Difícil imaginar moderação. Tenderia, isto sim, a radicalizar, levando o abuso do poder presidencial ao extremo.

Em princípio, um Senado com maioria democrata terá o impeachment como cartada contra os abusos da Casa Branca, ainda mais se escudado pela Câmara. Mas há razões para o partido evitar esse instrumento. Na opinião de Fausto, não haveria ganhos políticos em entregar a Presidência a JD Vance, o atual vice. Além disso, o impedimento tenderia a fortalecer a ala nacionalista-xenofóbica do Partido Republicano. Tal via, porém, pode tornar-se inevitável, a depender da reação de Trump à sua derrota em novembro.