"Ele não lembra de absolutamente nada": Filha de fotojornalista tenta recuperar a memória do pai mostrando imagens do acervo dele

 

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Aurora tinha 13 anos quando sua vida e a de toda a família mudou por completo. Depois que o pai sofreu um acidente doméstico, os médicos deram diferentes diagnósticos: alguns afirmaram que ele permaneceria em estado vegetativo, outros disseram que ele perderia a mobilidade e houve ainda quem previsse a perda total da memória. O último cenário foi o que aconteceu.

Na época, Antônio Gaudério era um fotógrafo renomado da Folha de S.Paulo e referência no fotojornalismo de denúncia. Quando acordou do coma, estava com uma câmera na mão. A família tentava estimulá-lo para que lembrasse, ao menos, da profissão. Antônio sabia que era fotógrafo, mas não tinha dimensão da própria trajetória e dos trabalhos que realizou.

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Antônio Gaudério

Em entrevista ao GLOBO, Aurora conta que viveu um luto com alguém ainda vivo. Hoje, aos 26 anos, ela atua como produtora cultural e gestora de artes. O pai, porém, segue tentando descobrir quem era antes do acidente. Para a filha, a tragédia fez com que todos entendessem que o Antônio de antes não voltaria mais — aquele seria o novo.

Hoje, ela vê nesse processo uma oportunidade de redescobrir alguém amado enquanto ele também redescobre o mundo. Na conversa, ela falou sobre a iniciativa de preservação do acervo do fotógrafo, criada principalmente para ajudá-lo a recuperar a memória, além da rotina dos dois atualmente.

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Antônio Gaudério

Redescobrir quem foi

Todos os dias, Aurora mostra ao pai registros de trabalhos antigos, na tentativa de fazê-lo lembrar ou, ao menos, reconhecer o próprio talento. Aurora conduz o projeto ao lado da pesquisadora Marina Monteiro, que dedica o mestrado à trajetória de Antônio. Marina mergulha no acervo do fotógrafo e faz uma pré-curadoria do material encontrado.

Antônio possui um extenso portfólio com registros de temas sensíveis que ainda assolam o país, como prostituição e trabalho infantil, fome e destruição da Amazônia. Ele recebeu o prêmio Vladimir Herzog pela sequência fotográfica “Crise na Saúde”, de 1993, além de duas menções honrosas por “Privatização da Embraer”, de 1995, e “Infância Roubada”, do mesmo ano.

Aurora e Antônio

Reprodução

— Quando comecei a mostrar as fotos para ele, o olhar era absolutamente curioso e, muitas vezes, desconfiado. Ele questionava: “Será que essa foto é minha?” — conta.

Depois da curadoria feita por Marina, o material chega até Aurora. Com os arquivos em mãos, ela se senta ao lado do pai para mostrar o que foi encontrado naquele dia. Nesse momento, tenta estimulá-lo ao máximo para que pense sobre as imagens e tente resgatar alguma lembrança. Antônio então escolhe uma fotografia para ser publicada e explica o motivo da escolha.

— Esse projeto de pesquisa e recuperação do acervo do meu pai tem como principal objetivo a recuperação da memória dele. Esse é o ponto número um — revela.

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Fotos com legenda são ouro

Todas as imagens publicadas no Instagram de Antônio possuem legendas que contam os bastidores dos registros e explicam o contexto em que foram feitos. Mas não é o fotógrafo quem conta essas histórias à filha — é o contrário.

Por conta da perda total da memória, Antônio não se lembra de absolutamente nada da época em que trabalhava como fotógrafo. Aurora depende das legendas encontradas nos arquivos para tentar explicar ao pai o que ele registrava e por que estava naquele lugar.

— Eu mostro, por exemplo, uma foto do interior de Goiás e ele não tem ideia do que estava fazendo lá ou qual era aquela matéria. É como se estivesse vendo pela primeira vez. Todas as legendas que encontramos valem ouro para a gente, porque isso é tudo o que sabemos — desabafa.

Quando encontram fotografias acompanhadas de legendas ou matérias anexadas, é nesse momento que Aurora consegue contar ao pai sobre os trabalhos que ele realizou. Já as imagens sem identificação seguem envoltas em mistério. Ainda assim, ela diz que aprendeu a enxergar beleza nisso.

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Antônio Gaudério

Hoje, Antônio tem 68 anos e convive com fortes dificuldades cognitivas, incluindo dislexia, afasia e limitações na fala. Segundo Aurora, o processo de revisitar o próprio trabalho tem ajudado o pai a melhorar cognitivamente. Ela acredita que, a cada dia, ele evolui mais rápido com esse método de estímulo emocional e afetivo.

— Essa função não é um trabalho laboral, porque ele não trabalha mais. É um trabalho emocional — revela.

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