Ele levou 20 anos para descobrir uma doença rara. Agora, criou uma IA para encurtar essa jornada

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Dimas Timmers levou cerca de 20 anos para descobrir que tinha distonia mioclônica, uma síndrome rara que afeta o sistema nervoso central e provoca espasmos. Ao longo desse caminho, conta ter passado por centenas de médicos em busca de uma resposta.

Anos depois, a experiência pessoal acabaria se tornando o ponto de partida para a Raras Health, healthtech brasileira criada para tentar encurtar justamente esse percurso. “Tudo veio pelo propósito de vida”, diz Timmers, CEO e fundador da startup.

Pesquisador de inteligência artificial há cerca de dez anos, ele reuniu profissionais com experiência clínica e em genômica para construir uma plataforma voltada à jornada de pacientes com doenças raras. Criada em 2025, a Raras Health combina inteligência artificial, conhecimento científico, atendimento médico e genômica.

A ideia é que a tecnologia ajude a organizar informações e identificar sinais que possam levar pacientes até especialistas — sem substituir a avaliação humana. Uma das principais portas de entrada é um assistente de IA disponível pelo WhatsApp.

Segundo a empresa, a ferramenta foi treinada com informações sobre mais de 10 mil doenças raras, 8 milhões de artigos científicos e protocolos do SUS. O paciente pode conversar com o sistema sobre sintomas e condições e, quando determinados sinais são identificados, o caso pode ser encaminhado para a equipe humana e para especialistas.

Dimas Timmers, CEO e fundador da Raras Health Divulgação

“Todo mundo tem um celular na mão e procura informação na internet”, afirma João Bosco Oliveira, médico e um dos sócios da Raras. A proposta, segundo ele, é usar a IA como início de uma jornada que pode continuar com triagem humana, consulta especializada e, quando necessário, testes genéticos.

Hoje, de acordo com Oliveira, a plataforma recebe cerca de 300 conversas por semana. O problema que a startup tenta atacar é particularmente complexo.

Doenças raras abrangem milhares de condições diferentes, o que pode transformar a busca por um diagnóstico em uma jornada de anos. A Raras quer reunir diferentes etapas desse processo dentro de um mesmo ecossistema.

Depois da interação inicial com a IA e da triagem humana, pacientes podem ser direcionados para especialistas e, em determinados casos, para testes genômicos. A empresa também pretende usar os dados para acompanhar a trajetória dos pacientes e desenvolver protocolos personalizados.

Mais recentemente, a empresa se uniu à Wikimedia Brasil no projeto Conhecimento Raro. A iniciativa prevê criar e aprimorar verbetes em português sobre doenças raras, além de traduções, revisões científicas e oficinas.

A primeira etapa tem como foco 70 doenças raras que possuem tratamento disponível pelo SUS. A parceria também ajuda a ampliar os canais pelos quais a startup pretende distribuir informação.

Além da Wikipédia e do assistente no WhatsApp, estão previstos conteúdos com especialistas e um podcast apresentado pelo médico Alexandre Kawassaki. Quem paga a conta

O modelo de negócios da Raras passa por diferentes frentes. No B2B, a startup trabalha com farmacêuticas, planos de saúde e governo.

A empresa também está começando a estruturar uma oferta diretamente para o consumidor. Segundo Oliveira, o desenho apresentado pela startup prevê três modalidades: uma gratuita, para acesso a recursos básicos e esclarecimento de dúvidas; outra de R$ 50, com acesso a consulta com médica de família; e uma modalidade de R$ 500 que inclui análise genômica e acompanhamento mais amplo da jornada entre diagnóstico e tratamento.

A empresa tem ainda um comitê científico formado por 20 médicos especialistas em doenças raras e uma equipe de sete pessoas dedicada a produto e tecnologia, segundo os fundadores. Agora, a Raras busca capital para acelerar essa expansão.

A healthtech está captando US$ 2 milhões em uma rodada com valuation de R$ 60 milhões. Segundo Timmers, a companhia já captou R$ 2 milhões anteriormente com investidores-anjo.

A projeção da startup é chegar a R$ 20 milhões em faturamento até 2027 e R$ 100 milhões até 2030. Parte do novo dinheiro deve financiar a entrada nos Estados Unidos.

A empresa pretende começar a explorar o mercado americano no próximo ano e planeja usar uma parcela dos recursos para criar um laboratório no país. A Raras também foi aceita em um programa de aceleração nos Estados Unidos, que deve ter início ainda no último trimestre deste ano.

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