'Ele já chegou a quase enforcar três meninas': mulheres trans que vivem da prostituição em Niterói dizem que homem exige R$ 120 por semana de cada uma

 

Fonte:


A rotina noturna de mulheres trans que trabalham na prostituição em ruas do Centro Niterói, próximo à Praça São João, tem sido marcada, há cerca de dois anos, por medo, ameaças e violência. Elas relatam a atuação de um homem que se apresenta como “dono da rua” e exige pagamentos semanais no valor de R$ 120 para permitir que permaneçam nos pontos onde costumam trabalhar. Segundo os depoimentos, as que se recusam a pagar são intimidadas, agredidas e expulsas do local. No dia 26 de janeiro, uma das vítimas registrou boletim de ocorrência na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), no Rio. No depoimento, a mulher trans afirma ser alvo de cafetinagem.

Acusado de matar 18 pessoas: Traficante é preso em casa onde mantinha família em cárcere privado em Niterói

Motos roubadas: Ponto de desmanche é encontrado pela polícia em Niterói; vídeo

De acordo com os relatos, o suspeito circula pela região entre 22h e 4h, geralmente às quintas-feiras, passando a pé, de moto ou em diferentes carros. Segundo os relatos, o valor dobra caso o pagamento não seja feito até a meia-noite. A cobrança ocorre de forma presencial ou por mensagens de WhatsApp. Algumas mulheres afirmam possuir áudios enviados pelo homem exigindo o dinheiro.

— Ele estaciona o carro perto da gente, ameaça, agride. Já chegou a quase enforcar meninas que não tinham o valor exigido. A rua é meu meio de subsistência. É dali que tiro dinheiro para viver. Mas estou exausta dessa situação. Ele afirma que, por não fazer os pagamentos exigidos, estou impedida de trabalhar na rua — relata uma mulher trans que trabalha há oito anos na região central de Niterói e hoje está afastada das ruas por medo de represálias.

— O indivíduo é bem agressivo. E não se intimida com a presença da polícia — afirma outra mulher trans.

Segundo as denúncias, o homem não apenas faz as cobranças, como também decide quem pode ou não trabalhar no local, expulsando quem se recusa a pagar. As mulheres afirmam ainda que ele costuma ostentar arma de fogo e dizer que não teme a presença policial, alegando ter ligação com agentes públicos. Algumas dizem já ter visto o homem nas imediações de delegacias, usando essa suposta proximidade com autoridades como forma de intimidação.

Denúncia ao Ministério Público

As denúncias indicam ainda que o esquema ultrapassa a prostituição em si, com indícios de associação a outros crimes. A menção recorrente a possíveis vínculos com agentes do poder público e com milicianos elevou o grau de preocupação das vítimas, que temem retaliações.

Diante da gravidade dos relatos, a vereadora Benny Briolly (PSOL) formalizou uma denúncia ao Ministério Público para que o caso seja investigado. Segundo a parlamentar, o objetivo é garantir que o MP acompanhe de perto as apurações, responsabilize eventuais envolvidos e assegure proteção às denunciantes.

— Estamos falando de denúncias extremamente graves, que vão muito além da prostituição. Há relatos que associam essa exploração a outros crimes sérios, inclusive com indícios de ligação com o crime organizado. É fundamental que o Ministério Público acompanhe cada passo dessa investigação — afirmou Benny.

A vereadora também informou que irá oficiar a delegacia responsável para que o caso seja acompanhado pela Comissão de Direitos Humanos e da Mulher da Câmara Municipal. Segundo ela, a intenção é garantir que as investigações avancem com rigor e que as vítimas recebam acolhimento institucional.

Benny Briolly ressaltou ainda que, em um contexto de exclusão histórica do mercado formal de trabalho, muitas mulheres trans veem na prostituição a única alternativa de sustento. Por isso, segundo a parlamentar, situações de exploração e violência exigem resposta rápida do poder público.

A Comissão de Direitos Humanos de Niterói, segundo a vereadora, também deve atuar no acompanhamento do caso, mobilizando recursos institucionais e cobrando providências das autoridades responsáveis, enquanto as mulheres aguardam medidas que garantam segurança para voltar a trabalhar sem medo.

Initial plugin text