'Ela lutou contra as ondas até não aguentar mais': testemunha relata naufrágio que deixou turista espanhola morta na Colômbia

Fonte: Bandeira da fonte

Às 16h10, o mar já estava forte demais em Cabo San Juan, na Colômbia.
A maré havia obrigado os banhistas a sair da água e, segundo as pessoas que estavam no local, as condições eram evidentes para qualquer um que olhasse para o litoral.
Ainda assim, uma pequena embarcação começou a sair carregada de turistas.
Não conseguiu avançar muito.
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Jorge Soto estava na praia e, junto com outras pessoas, viu a lancha virar devido à força do mar.
Em segundos, dezenas de pessoas ficaram dispersas entre as ondas.
Algumas foram levadas em direção às pedras.
Outras tentaram voltar nadando.
Entre elas estava Noelia Maximino Beltrán, uma turista espanhola de 31 anos que lutou durante vários minutos para se manter na superfície até que seu corpo não resistiu mais.
Soto, natural de Cúcuta e morador da Argentina, havia chegado ao Parque Nacional Natural Tayrona como qualquer outro visitante.
Acabou participando de um resgate improvisado que, segundo seu relato, foi inicialmente conduzido pelos próprios turistas, diante da ausência de recursos suficientes para responder a uma emergência daquela magnitude.
— Ela lutou contra as ondas para voltar à margem, mas, ao contrário de outros que foram arrastados para as pedras, ela foi levada para mais longe e foi impossível retirá-la a tempo — relatou Soto ao El Tiempo.
Uma lancha lotada e um mar que já indicava o perigo
O relato de Soto começa antes do naufrágio.
Segundo ele, naquela tarde ouviu conversas sobre a saída de passageiros de Cabo San Juan.
Muitos buscavam evitar o trajeto terrestre de volta, e a lancha representava uma alternativa mais rápida.
O problema, afirma, era que a embarcação já levava muitos passageiros.
Uma fotografia tirada antes da emergência mostra mais de 30 pessoas dentro da lancha.
Soto afirma que, de acordo com relatos que ouviu posteriormente de alguns sobreviventes, entre cinco e seis passageiros estariam sem coletes salva-vidas.
Um ajudante da embarcação, diz ele, falava em quatro.
Autoridades colombianas vão investigar naufrágio de embarcação, se estava com mais passageiros que o permitido e se alguém estava sem colete salva-vidas
Reprodução via El Tiempo
O El Tiempo não conseguiu verificar essa informação de forma independente.
Soto afirma que situações semelhantes eram conhecidas entre os visitantes: quando restam as últimas vagas, relata, alguns passageiros acabam aceitando viajar mesmo sem equipamentos de proteção suficientes.
— Você chega por último, é a última lancha e não quer voltar caminhando.
Então dizem que você pode ir, mas sem colete — afirmou.
Ele também lembrou que passou por uma situação semelhante durante uma visita anterior ao parque, quando havia coletes para apenas duas das cinco pessoas de seu grupo em uma embarcação e, mesmo assim, eles aceitaram fazer o trajeto.
'A lancha virou e ninguém chegava'
A embarcação virou, segundo Soto, por volta das 16h10.
A emergência ocorreu muito perto da costa, mas as condições do mar tornaram extremamente difícil chegar até os náufragos.
Foi então que os visitantes começaram a se organizar.
— Fizemos correntes humanas.
Alguns se amarraram com redes para conseguir entrar até a metade da praia e retirar as pessoas — lembra.
Outros tentaram chegar pelas pedras.
Usaram cordas, roupas e qualquer objeto que pudesse servir para dar segurança a quem se aventurava na água.
Um dos amigos de Soto acabou sofrendo uma grave lesão no joelho enquanto tentava ajudar entre as pedras.
— Ele deslocou o joelho naquele momento, entre as pedras — conta Soto.
Ele afirma que a reação dos turistas foi determinante e considera que, sem aquela intervenção, o número de vítimas poderia ter sido maior.
Noelia continuava lutando em alto-mar
Enquanto vários náufragos conseguiam chegar às pedras ou eram retirados por meio das correntes improvisadas, Noelia permanecia em uma situação muito mais complicada.
Um vídeo que veio a público após a tragédia mostra uma pessoa lutando contra as ondas enquanto, da terra, várias pessoas observam sem poder fazer nada.
Soto identifica a mulher como Noelia.
Segundo seu relato, a espanhola tentava se manter sobre a água e voltar para a costa, mas a corrente a afastava.
— A garota ficou sozinha, boiando na água por muito tempo.
Ela não tinha colete — afirmou.
Da praia, era possível vê-la.
O problema era chegar até ela sem que outra pessoa também acabasse sendo arrastada pelo mar.
Soto lembra que a corrente finalmente levou Noelia para a região das pedras.
A partir daquele ponto, conseguiram retirá-la.
Naquele momento, diz ele, ela já não respondia.
Médicos e enfermeiros que estavam passeando acabaram atendendo os feridos
A emergência teve outro elemento fortuito: entre os turistas havia médicos e enfermeiros.
Foram eles, segundo Soto, que começaram a atender vários dos náufragos e realizaram manobras de reanimação.
A testemunha destaca especialmente a atuação de uma paramédica que estava na praia e que, segundo ele, permaneceu atendendo a emergência, conseguiu oxigênio, cobertores e gazes e ajudou a estabilizar os afetados.
Quando Noelia finalmente foi levada a um local onde poderia receber atendimento, começaram as manobras de reanimação.
— Fizeram RCP por cerca de 20 minutos, colocaram oxigênio nela, mas ela nunca reagiu — relata.
Pescadores da região também participaram posteriormente do resgate de um grupo que permanecia na água.
'Você paga seguro e entrada, mas não havia como resgatá-la'
O relato de Soto questiona duramente a capacidade de resposta a uma emergência em uma das praias mais visitadas do Tayrona.
— É lamentável que as pessoas paguem seguro e uma entrada cara e que, em uma praia tão movimentada como Cabo San Juan, não haja uma lancha ou equipamentos de resgate adequados para atender a esse tipo de emergência — afirmou.
Sua versão também diverge de alguns relatos oficiais divulgados após o acidente sobre a evacuação e a coordenação da emergência.
Soto afirma que, quando deixou Cabo San Juan, ainda havia várias pessoas resgatadas esperando para serem evacuadas.
— Nós saímos por volta das 19h30 na ambulância, com meu amigo que machucou o joelho e dois turistas espanhóis.
Era a primeira ambulância a sair e, lá em cima, ficaram nove pessoas que havíamos retirado da água relatou.
Entre elas, afirma, havia uma menina de dois anos.
Segundo seu testemunho, durante várias horas houve dificuldades de comunicação entre as pessoas que atendiam à emergência na praia e as equipes localizadas em outros pontos do parque.
Essas afirmações correspondem à versão da testemunha e deverão ser confrontadas com os registros e protocolos das entidades que participaram do atendimento.
Suposta lotação acima da capacidade é investigada
Além dos tempos de resposta, o acidente fez o turista de Cúcuta questionar a autorização para a saída da embarcação em meio ao mar agitado e afirmar que o interesse em vender mais vagas teria prevalecido sobre as condições de segurança.
— Não importaram as condições do mar, mas vender o maior número possível de lugares.
Eles não tinham avançado muito quando viraram — afirmou.
Uma imagem feita antes do acidente será fundamental para determinar quantas pessoas realmente estavam a bordo e se a embarcação tinha capacidade autorizada para transportá-las.
Também será necessário determinar se todos tinham coletes salva-vidas e quais controles foram realizados antes de permitir a saída.
Para Soto, a tragédia obriga a olhar para além do tombamento da embarcação e perguntar o que teria acontecido se houvesse um sistema de resgate capaz de reagir imediatamente em uma praia que recebe centenas de visitantes diariamente.
'A história dela precisa ser contada como aconteceu'
Jorge Soto voltou do Tayrona com um amigo ferido e imagens difíceis de esquecer.
Ele se lembra de desconhecidos se amarrando para entrar na água, turistas que de repente se transformaram em socorristas, profissionais de saúde atendendo pessoas no meio da praia e uma mulher que passou minutos lutando contra um mar que, finalmente, não conseguiu vencer.
Por isso, decidiu falar.
— Sinto que, pelo menos, a história dela precisa ser contada como aconteceu — disse.
Noelia Maximino Beltrán tinha 31 anos.
Segundo o relato da testemunha, ela havia pegado aquela lancha para evitar o longo caminho de volta de Cabo San Juan.
Minutos depois, acabou na água.
Agora, as investigações deverão determinar o que deu errado: quantas pessoas estavam a bordo, se havia excesso de passageiros, se todos usavam colete salva-vidas, quais eram as condições de navegação autorizadas e como os protocolos de emergência funcionaram de fato.
Registros do terremoto na Colômbia