El Niño: o menino vai dar trabalho

El Niño: o menino vai dar trabalho

 

Fonte: Bandeira



No século XIX, pescadores peruanos percebiam que, em certos anos, por volta do Natal, uma corrente de água quente aparecia no Pacífico, e isso reduzia a pesca. Pela época em que aparecia, a chamaram de El Niño, em referência ao Menino Jesus.

Hoje a ciência entendeu que essa corrente fazia parte de uma grande reorganização das águas do Pacífico, com efeitos globais. O El Niño é um dos fenômenos metereológicos mais estudados do planeta, e produz mudanças climáticas globais, especialmente significativas na América do Sul.

A agência climática americana, elevou para mais de 90% a probabilidade de o El Niño se formar este ano, começando entre junho e julho até o início de 2027. Alguns modelos climáticos projetam aquecimento do Pacífico em mais de 2°C, o que leva os meteorologistas a falar em um “super El Niño”.

O Brasil será afetado de formas opostas, conforme a região. No Sul, o risco é de temporais severos, enchentes e deslizamentos. A traumática memória das enchentes de 2024 em 478 municípios gaúchos, também durante o fenômeno, torna o alerta mais preocupante.

Na Amazônia, Pantanal e no Nordeste espera-se calor intenso e seca prolongada. Os rios, tão importantes para o transporte e o sustento, podem voltar a secar. As prováveis queimadas podem produzir perdas graves de biodiversidade e cobertura vegetal, e poluição do ar. No Sudeste espera-se ondas de calor extremo e eventuais chuvas torrenciais, com risco elevado para áreas de encosta, como na Região Serrana do RJ. Arboviroses como dengue e chikungunya devem aumentar.

O calor intenso, que é esperado em todo o país, causa mais internações por doenças cardiovasculares e respiratórias, agrava condições crônicas e aumenta a mortalidade silenciosamente. Os mais vulneráveis são idosos, crianças pequenas, pessoas com doenças crônicas e os mais pobres.

Governos precisam limpar sistemas de drenagem, revisar mapas de risco, preparar abrigos, reforçar estruturas e equipes de saúde, Defesa Civil e combate ao fogo, instalar pontos de refrigeração e hidratação pública e ativar sistemas de alerta e orientação da população, com atenção especial às áreas de pobreza e moradias de risco. Na área da seca, investir em filtros familiares, cisternas e infraestrutura hídrica.

As famílias também devem se preparar. Em chuvas intensas, se afastar de encostas e margens de rios ao primeiro sinal de alerta. Nunca atravessar ruas alagadas — 30 cm de água em movimento são suficientes para arrastar um adulto. Armazenar lanterna, documentos, medicamentos de uso contínuo, água e um carregador de celular em uma mochila. Desligar o disjuntor geral antes que a água entre em casa.

Em calor extremo, o mais importante é beber água fria com frequência. Nos picos de calor, entre 10h e 16h, não se expor ao sol e molhar o corpo. Cuidar dos idosos, crianças pequenas, grávidas, pessoas com doenças cardíacas ou renais. Febre alta, mal-estar, prostração e confusão mental são sinais de exaustão pelo calor e exigem atendimento médico.

Em seca prolongada, as prioridades são reduzir o consumo de água, evitar fogueiras e queimadas, fechar janelas e usar máscaras PFF2 nos dias de muita fumaça. A qualidade da água também piora durante secas, e os filtros são essenciais.

Governos federal e estaduais estão tomando providências. Mas é preciso ir além: investir na mitigação da crise climática. Infelizmente, a bancada ruralista e a extrema direita no Congresso estão fazendo tudo para destruir nossa natureza. Precisamos apoiar organizações e políticos que defendem o ambiente, a floresta e seus povos, a transição energética. E também cobrar das empresas e exigir das prefeituras as soluções baseadas na natureza para nossas cidades, que permitem não só a mitigação de catástrofes, mas a melhoria da qualidade de vida de todos nós.