Apesar de o El Niño ainda não ter trazido a seca esperada para setembro, mais de 500 municípios foram colocados em “alerta alto” para risco de fogo pelo governo federal nos próximos meses, até novembro. A probabilidade de uma estiagem prolongada e baixa umidade do ar, intensificadas pelo fenômeno, podem fazer desse período o mais crítico para os incêndios florestais.
Mesmo com a chuva atípica em algumas regiões no início de setembro, meteorologistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) consideram que o cenário projetado deve se manter, principalmente na região Norte, que concentra o maior número de municípios em alerta máximo.
— As regiões mais críticas, que estão em vermelho, acredito que continuarão em vermelho — prevê o coordenador de operações do Cemaden, Marcelo Seluchi, reforçando que a precipitação permanece abaixo da média em regiões da Amazônia. Além disso, no Centro-Norte, é provável que o El Niño atrase o próximo ciclo chuvoso. Com isso, a seca ainda pode “chegar atrasada” e aumentar o risco de fogo do fim de 2026 até o início de 2027. No fim de agosto, o governo conversou com gestores de municípios e estados de todas as regiões para apresentar medidas de preparação e prevenção aos incêndios que estão sendo adotadas pela União, como a liberação mais rápidas de recursos voltados a prevenir e combater incêndios a estados e municípios; reforço no número de brigadistas federais e equipamentos de combate a incêndio, incluindo 49 aeronaves e notificação pelo Ibama de mais de 10 mil proprietários rurais em áreas críticas da Amazônia, Cerrado e Pantanal para que implementem ações de prevenção e combate aos incêndios florestais em suas propriedades. O diálogo e encaminhamento das ações foi coordenado pela Sala de Situação do El Niño, que reúne 24 ministérios e órgãos que acompanham as condições climáticas. No fim de julho, foi anunciado um pacote de R$ 1,3 bilhão para ações de prevenção e resposta aos efeitos do fenômeno climático. Desse montante, R$ 337 milhões provêm de uma medida provisória de crédito extraordinário voltada especificamente aos incêndios. Houve ainda aporte de cerca de R$ 521 milhões do Fundo Amazônia para equipar os Corpos de Bombeiros de 14 estados.
Desde 2023, o governo afirma ainda ter aumentado em 138% o orçamento para controle do desmatamento e combate aos incêndios, com cerca de R$ 1 bilhão executado em 2026 pelo Ministério do Meio Ambiente, Ibama e ICMBio. Também houve aumento no efetivo de brigadistas federais, de 3.523 em 2023 para 4.410 em julho deste ano.
El Niño é ‘teste’ para política nacional A partir de 2024 — ano em que o país teve um recorde de incêndios florestais —, o enfrentamento aos incêndios passou a contar com os instrumentos da Polícia Nacional de Manejo Integrado do Fogo, que distribuiu entre os entes as competências na prevenção e combate a incêndio, prevendo a criação de programas de brigadas florestais, planos municipais que organizem como prevenir e enfrentar os incêndios e gerir o uso do fogo de forma segura e planejada quando for necessário, entre outros.
Um levantamento do Centro Brasil no Clima (CBC) sobre o preparo dos estados para manejo do fogo no contexto do El Niño deste ano aponta que apenas quatro unidades federativas têm planos de manejo integrado do fogo formalmente aprovados, e que a maior parte ainda confunde ou substitui a gestão preventiva do fogo por instrumentos focados na resposta a emergências.
Nesse âmbito, o governo federal afirma estar apoiando os estados da Amazônia Legal na elaboração desses planos, além de ter R$ 800 milhões previstos e em execução no Programa União com Municípios, que envolve 80 municípios prioritários da Amazônia, para reduzir desmatamento e incêndios florestais. Para Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), houve avanços importantes desde a aprovação da política nacional, principalmente na articulação entre órgãos responsáveis pela prevenção e combate aos incêndios. Mas a implementação ainda é recente: para dar resultado, precisa ganhar escala nos estados e municípios, com orçamento, equipes e planos territoriais.
— Acho que o teste vem agora em 2026 e 2027 — diz.
‘Tudo se transforma em cinza’ Na região de Montividiu, sudoeste de Goiás, o produtor Erick Van Den Broek afirma que propriedades no entorno da sua, a Fazenda Tropical, já vem enfrentando pequenos focos de queimada na última semana, amenizados pela chegada da chuva. O risco de fogo é administrado pelas brigadas voluntárias locais. No Centro-Oeste como um todo, dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA), vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), indicam que a área queimada até o fim de agosto neste ano ainda está abaixo da média histórica para o período.
Com a possibilidade de o período seco se prolongar por conta do El Niño até o início dos meses mais chuvosos, em novembro e dezembro, o produtor se preocupa com o cultivo de soja, que pode ser prejudicado caso haja fogo nesse momento, pré-plantio, e seca no fim do ano, quando ocorre a floração e enchimento do grão.
— Tudo se transforma em cinza, não tem palhada para ajudar a proteger o solo. Sem essa camada de matéria orgânica em cima, o solo está mais exposto a altas temperaturas e também à perda de umidade. O risco para a cultura subsequente é maior: vai se desidratar com maior facilidade, pode ter a queima do caule da planta na hora da germinação por excesso de temperatura e como não tem essa proteção, tem seu estresse hídrico com maior facilidade — explica Van Den Broek ao GLOBO. A Fazenda Tropical já sofreu os impactos do fogo na lavoura. Em 2024, foi atingida por um incêndio de grandes proporções, que queimou mais de 500 hectares. Além da plantação, o fogo danificou o armazém, equipamentos e a reserva legal (área de vegetação nativa dentro de uma propriedade). O efeito da degradação é sentido na produtividade e leva anos para ser recuperado.
O fato de a região que abriga a fazenda ser alta, com fortes rajadas de vento, torna a propagação rápida e difícil de controlar. Quando esse fator se combina ao fogo e à vegetação seca, o estrago está feito.
Apesar das condições climáticas contribuírem, estudos mostram que, no cenário nacional, quase todo incêndio começa por ação humana, intencional ou não. Especialistas defendem que controlar esse fator, chamado de ignição, é crucial para evitar os incêndios florestais.
Membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, a pesquisadora do Ipam Ane Alencar lembra que, no caso das áreas privadas, a competência prioritária para agir contra os incêndios é dos estados, que licenciam atividades que podem envolver queima. O governo federal deve atuar principalmente na coordenação, dando suporte para fortalecer os Corpos de Bombeiros e no combate de grandes incêndios, além de ser diretamente responsável pelo fogo nas Unidades de Conservação federais. A criação de brigadas voluntárias privadas é vista como necessária para prevenção e primeira resposta.
Alencar destaca o papel central do setor produtivo para consolidar a prevenção no país, acompanhando as condições meteorológicas, respeitando períodos de proibição do fogo, mantendo aceiros, cuidando para que áreas mais vulneráveis fiquem longe de fontes de ignição, protegendo as reservas legais e restaurando áreas degradadas.
— Precisamos engajar o máximo de pessoas possível para que o primeiro combate seja feito e trabalhar estratégias de prevenção, para que não tenha que chegar no combate — diz Tavares.
O fazendeiro de Montividiu (GO) afirma que a conscientização sobre a importância dessas práticas para afastar os incêndios têm aumentado entre os produtores da região. Segundo Van Den Broek, a organização entre eles é o que tem funcionado para conter focos, com manutenção de brigada terrestre e aérea, em grande parte com recursos privados. Recebem algum apoio do município de Rio Verde, maior e com maior orçamento que Montividiu, a 50 km de distância. — Vejo que (desde 2024) teve maior união entre os produtores e velocidade de resolução quando ocorre um incêndio. Mas falta apoio governamental para essas brigadas, que custam bastante pro produtor. Ainda há uma carência do poder público.
O Globo