El Niño avança no Pacífico, mas cientistas ainda veem incerteza sobre evento extremo; entenda

El Niño avança no Pacífico, mas cientistas ainda veem incerteza sobre evento extremo; entenda

 

Fonte: Bandeira



Segundo a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), agência científica dos Estados Unidos voltada ao monitoramento dos oceanos, da atmosfera e do clima, a probabilidade de formação de um El Niño até o fim de 2026 chega a 98%. O último episódio ocorreu entre maio de 2023 e junho de 2024 e esteve associado a extremos climáticos em diferentes partes do planeta, incluindo seca severa na Amazônia, sucessivas ondas de calor e o aumento das chuvas no Sul do Brasil em meio às enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul.

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O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, especialmente na região conhecida como Niño 3.4. Quando esse aquecimento persiste por vários meses, ele altera a circulação atmosférica global e interfere nos padrões de temperatura e chuva em diferentes regiões do mundo, inclusive no Brasil.

Nos últimos meses, centros meteorológicos internacionais passaram a registrar uma aceleração consistente desse aquecimento no Pacífico. Modelos climáticos internacionais convergem para um cenário de desenvolvimento do fenômeno ao longo do segundo semestre deste ano, com persistência até o verão de 2027.

O avanço rápido das anomalias de temperatura abaixo da superfície do oceano chamou atenção de órgãos de monitoramento climático nas últimas semanas. Em nota técnica divulgada no dia 15 de maio, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) afirmou que o El Niño deve assumir papel determinante no clima global entre 2026 e 2027.

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— A diferença prática é que um evento forte consegue dominar sobre outros fatores climáticos e impor padrões de seca e chuva muito mais severos e previsíveis. Os modelos atuais mostram um aquecimento oceânico acelerado e consistente desde maio, indicando que o fenômeno deve assumir protagonismo no clima do segundo semestre de 2026 — afirmou João Hackerrot, CEO da Tempo OK.

Os primeiros sinais atmosféricos também começaram a aparecer. Entre eles estão o enfraquecimento gradual dos ventos alísios — correntes de ar que normalmente ajudam a empurrar águas quentes em direção à Ásia — e a manutenção de temperaturas mais elevadas na faixa equatorial do Pacífico. Esse conjunto favorece a consolidação do fenômeno nos próximos meses.

A meteorologista Andrea Ramos afirma que o cenário atual chama atenção pela velocidade com que os modelos passaram a convergir para a formação do El Niño ainda antes do inverno no Hemisfério Sul. Segundo ela, embora exista incerteza sobre a intensidade final do aquecimento, o sinal oceânico observado neste momento já é considerado consistente pelos principais centros internacionais de monitoramento.

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As projeções mais recentes da NOAA indicam alta probabilidade de persistência do fenômeno até o fim do ano, mas especialistas ressaltam que previsões feitas nesta época ainda carregam limitações importantes de previsibilidade, principalmente em cenários de longo prazo.

O próprio Cemaden afirma que muitas previsões alarmistas disseminadas nas redes sociais não encontram sustentação em dados científicos robustos. Segundo o órgão, o El Niño não permite antecipar eventos específicos, mas sim indicar alterações probabilísticas no risco climático, aumentando a chance de extremos de chuva, seca e calor em determinadas regiões.

— O que existe hoje é um consenso científico sobre a formação do El Niño, mas ainda não sobre sua intensidade final. Os próximos meses serão decisivos para entender até onde esse aquecimento do Pacífico pode avançar e quais serão os reflexos mais diretos no clima da América do Sul — afirmou Andrea Ramos.

O mapa dos impactos no Brasil

Os impactos mais diretos do El Niño no Brasil costumam aparecer na distribuição irregular das chuvas e no aumento das temperaturas. Historicamente, o fenômeno favorece chuva acima da média na Região Sul, enquanto Norte e Nordeste tendem a enfrentar períodos mais secos. No Sudeste e no Centro-Oeste, os efeitos aparecem de forma menos uniforme, geralmente associados a calor persistente e alterações no regime de chuva.

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A nota técnica divulgada pelo Cemaden aponta que os sinais de maior preocupação neste momento estão concentrados justamente no centro-sul do país, especialmente nos estados do Sul. O documento indica aumento da propensão a episódios de chuva mais intensos e persistentes, principalmente durante a primavera.

No Rio Grande do Sul, o órgão identifica o “sinal mais robusto” entre os estados analisados. As projeções indicam maior frequência de acumulados elevados em poucos dias, cenário que pode favorecer enchentes, enxurradas, alagamentos urbanos e deslizamentos de terra, sobretudo em áreas como Serra Gaúcha, Planalto Meridional e região metropolitana de Porto Alegre.

O padrão lembra parte das condições observadas durante o último El Niño, entre 2023 e 2024, período marcado pelas enchentes históricas no Rio Grande do Sul. Meteorologistas ressaltam, porém, que o fenômeno não explica sozinho a tragédia climática registrada no estado. A intensidade das chuvas esteve associada à combinação de diferentes fatores atmosféricos, incluindo bloqueios climáticos, sucessivas frentes frias e condições específicas de circulação sobre o Sul do país.

— O El Niño funciona como um pano de fundo que aumenta a propensão para determinados extremos climáticos, especialmente chuva acima da média no Sul. Mas eventos como o do Rio Grande do Sul envolvem uma combinação muito complexa de fatores meteorológicos e hidrológicos — afirmou Andrea Ramos.

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Santa Catarina e Paraná também aparecem entre as áreas de atenção monitoradas pelo Cemaden. O órgão aponta maior risco para episódios de chuva intensa em regiões de relevo vulnerável, como Vale do Itajaí, Serra do Mar e áreas urbanas densamente ocupadas.

Enquanto isso, o cenário projetado para Norte e Nordeste é oposto. Os modelos indicam tendência de redução das chuvas e aumento das temperaturas, condição que pode ampliar o risco de estiagem, pressão sobre reservatórios e incêndios florestais, especialmente na Amazônia e no Pantanal. O documento também cita possíveis impactos sobre agricultura e recursos hídricos caso o aquecimento do Pacífico persista até 2027.

O debate sobre um “super El Niño”

A expressão “super El Niño” passou a ganhar força nos últimos meses em redes sociais e publicações internacionais, mas especialistas ressaltam que o termo não representa uma classificação oficial da meteorologia.

Segundo a NOAA, os eventos são divididos em fracos, moderados, fortes e muito fortes, de acordo com o nível de aquecimento das águas do Pacífico Equatorial. De maneira informal, a expressão costuma ser aplicada a episódios extremamente intensos, com anomalias acima de 2°C na região Niño 3.4.

A possibilidade de um evento dessa magnitude ganhou atenção após alguns modelos climáticos internacionais projetarem anomalias próximas de 3°C nos próximos meses. O próprio Cemaden reconhece que alguns cenários apontam para um evento potencialmente histórico, mas ressalta que projeções feitas nesta época do ano ainda possuem limitações importantes de previsibilidade.

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Andrea Ramos afirma que parte da repercussão nas redes sociais acabou transformando cenários extremos em previsões tratadas como inevitáveis, apesar de os próprios centros meteorológicos internacionais ainda trabalharem com diferentes possibilidades para a intensidade final do fenômeno.

— Existe consenso sobre a formação do El Niño, mas não sobre a intensidade final. Hoje, os modelos convergem para um fenômeno relevante, porém ainda há incerteza sobre até onde esse aquecimento vai avançar — afirmou João Hackerrot.

A NOAA estima cerca de 37% de chance de o fenômeno atingir a categoria mais intensa. A avaliação de centros meteorológicos é que fatores atmosféricos que ainda serão observados ao longo do inverno e da primavera podem tanto acelerar quanto limitar o aquecimento das águas do Pacífico nos próximos meses.