Nas semanas seguintes à proibição das bets no Brasil – que ocorreu em 25 de setembro de 2026 – um impacto muito significativo foi observado. A partir daquela data, nas semanas de 5 a 11 de outubro, dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) divulgados em 28 de outubro revelam que houve um aumento de 6,5% no consumo de alimentos essenciais.
Itens como arroz, feijão, óleo, macarrão e café apresentaram um aumento nas vendas depois que as bets foram banidas do país, que enfrentava quase uma epidemia de jogatina, com o dinheiro das famílias escorrendo para o bolso do Tigrinho. A proibição foi assinada pelo presidente Lula, a partir da Medida Provisória nº 1.394/2026, que prevê a proibição da exploração, oferta, intermediação e publicidade de loterias de apostas de quota fixa no território nacional e institui o Comitê Interinstitucional de Fiscalização da Exploração e da Publicidade Ilegal de Apostas de Quota Fixa.
A decisão de Lula gerou polêmica e reação de casas de apostas e clubes de futebol patrocinados por elas, donos de bets e influenciadores, que passaram a taxar a medida de “populista”. Nada mais distante da realidade, segundo comprova a própria Abras, que ressalta que o aumento das vendas de alimentos mostra que parte do dinheiro das famílias que era utilizado em apostas pode estar voltando para as despesas básicas das próprias famílias.
Para o presidente da entidade, João Galassi, durante a Feira Supervendas, realizada em Aracaju (SE) e que foi palco do anúncio dos resultados, houve aumento no volume de compras em supermercados, atacarejos, mercados de bairro e lojas de vizinhança, ou seja, em todos os canais de vendas.
Famílias deixando de gastar com jogos e gastando em alimentos. O prejuízo provocado pelas bets sem controle no Brasil não se reduz a impactos financeiros negativos ou endividamento.
Há enormes prejuízos emocionais e familiares provocados pelos jogos, com impactos em toda a cadeia familiar. O estudo “Mulheres & Bets: o custo das apostas online para as brasileiras e suas famílias”, promovido pelo Estúdio Clarice, em parceria com ao grupo Estratégia Latina e o Instituto Ideia, revelaram a profundidade desse impacto.
Dados do estudo mostraram o seguinte cenário: 54% das brasileiras são diretamente afetadas pelas bets: 42% já apostaram (sendo 20% apostadoras atuais e 22% ex-apostadoras), e 12% não jogam, mas convivem com familiares ou amigos que apostam; as mães apostam significativamente mais (22,7%) do que mulheres sem filhos (14,6%).
A maior parte das jogadoras pertence às classes C, D e E; diferentemente dos homens, o jogo entre as mulheres raramente começa como lazer; as principais razões apontadas são buscar renda extra (21,5%), conseguir dinheiro rápido (19%), pagar despesas essenciais e contas da casa (16%), tentar cobrir dívidas pré-existentes (11,5%).
Cerca de 67% das mulheres defendem a proibição total das plataformas de apostas online no Brasil, avaliando que o fenômeno destrói as famílias e gera esgotamento mental e financeiro. De acordo com a pesquisa, as mulheres relatam impactos expressivos como intensos conflitos familiares, perda de confiança; desgaste emocional; mudança na qualidade de vida.
Entre os impactados, 40% acreditam que as apostas online afetam a capacidade da pessoa viciada em relação a trabalhar ou gerar renda (36% entre as mulheres e 45% entre os homens). Além disso, o jogo é encarado pelas apostadoras como “estratégia de investimento”.
E em muitos casos, a aposta passa a ser encarada como trabalho. Por outro lado, há inúmeros relatos de pessoas que viram seus parentes ou companheiros sucumbindo às apostas online – as bets se tornaram, sim, um problema grave de saúde pública no Brasil, e pesquisas apontam que o mecanismo desses jogos é estruturado para viciar.
Ou seja, tudo nas apostas online enseja prejuízo à vida do cidadão comum, que começa a jogar pela ilusão de melhorar rapidamente de vida. E as empresas fomentam essa ilusão.
Segundo a pesquisa “Mulheres & Bets”, as casas de apostas online conseguiram difundir a ideia de que existem estratégias para vencer os jogos de azar. Os apostadores mergulham de cabeça nessas estratégias, comprometendo renda, saúde e convivência familiar.
Infelizmente, os resultados muito positivos da proibição e os levantamentos sobre os prejuízos sociais e individuais das apostas online não foram suficientes para que grupos que lucravam com as bets aceitassem o fim da jogatina. Desse modo, entidades do setor de apostas, com apoio de clubes de futebol, acionaram o STF para tentarem derrubar a Medida Provisória que decretou o fim dos jogos, e o ministro Luiz Fux determinou a realização de uma audiência pública – para a qual, inicialmente, não haviam sido convocadas as entidades da sociedade civil contrárias às bets.
Nesse cenário desafiador, é importante recapitular, como já fizemos aqui, a origem desse problema: as bets foram liberadas em 2018, no governo Michel Temer; segundo a Lei 13.756/2018, era necessário criar diretrizes para o funcionamento e a fiscalização do mercado de bets em até dois anos a partir da sanção, ou seja, isso deveria ter sido feito até o ano de 2020, governo Jair Bolsonaro, mas nada foi feito, e as bets seguiram sem qualquer regulamentação.
O mercado de apostas online tomou conta do Brasil. A falta de regulação durante o governo Jair Bolsonaro fez o mercado de bets explodir no Brasil – não havia regras claras de funcionamento, cumprimento de exigências e tributação, o que provocou uma renúncia fiscal de cerca de R$ 40 bilhões.
O problema explodiu, então, no colo do governo Lula, que tem atuado para buscar uma regulação rigorosa das bets, fiscalizar o funcionamento e os impactos para os apostadores e impor uma tributação rigorosa. O que culminou na proibição em setembro deste ano.
As apostas online instigam o apostador pela falsa perspectiva de melhorar rapidamente de vida. Essa estratégia é muito bem construída e usa a propagada para disseminar um ambiente sempre alegre e festivo e a atuação de influenciadores, que mostram um estilo de vida glamouroso.
Além disso, de maneira sutil e até subliminar, as casas de aposta online vendem a ideia de que apostar nas bets configura uma espécie de investimento financeiro – as pessoas, presas pelo vício, apostam mais e mais com a falsa ideia de que estão fazendo um investimento no futuro. Os problemas, como endividamento das famílias e corrosão da saúde mental, nunca aparecem, e o que prevalece é a falsa ideia de riqueza e prosperidade futura.
Em relação ao endividamento, segundo reportagem da Agência Brasil, as famílias brasileiras perderam mais de R$ 6 bilhões para as bets no ano passado (referente à diferença entre o dinheiro apostado e o devolvido em forma de prêmio). Nesse mesmo período, as bets movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações via Pix.
Os dados fazem parte do Boletim Fiscal dos Estados, divulgado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz). Resumindo: enquanto as empresas lucram, as famílias ficam endividadas, e as pessoas adoecem.
As bets não apresentam nada de positivo para os indivíduos e a sociedade, e lutaram muito às custas do sofrimento crescente das pessoas, que são levadas pela falsa promessa de melhorar de vida. E essa dinâmica é mais do que suficiente para que essa jogatina seja banida do Brasil.
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições.
Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica).
Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).
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