Durante muito tempo, a América Latina conviveu com o estigma de reagir tarde demais às grandes revoluções industriais globais. Observávamos as ondas de inovação nascerem e as adotávamos apenas quando o mercado internacional já caminhava para a maturidade. No entanto, o avanço avassalador da Inteligência Artificial nos coloca diante de um fenômeno raro na história econômica regional. Temos hoje a real oportunidade de realizar o chamado leapfrogging, ou seja, quebrar o ciclo histórico de atraso e pular etapas de desenvolvimento direto para a vanguarda digital.
A Inteligência Artificial ocupa, atualmente, a posição de principal motor de produtividade das companhias, na qual sua atuação, combinada ao processamento em nuvem e à automação inteligente, é a resposta mais robusta para sanar gargalos históricos de eficiência que há tanto tempo limitam o crescimento de países.
É preciso, porém, entender que para que esse salto se consolide, a tecnologia não pode operar no vácuo. Ela depende de uma infraestrutura robusta, de um ambiente regulatório favorável e de uma visão de governança que equilibre ambição econômica e responsabilidade socioambiental. A recente aprovação e sanção do Redata, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, sinaliza que o poder público compreendeu a urgência da soberania digital. Ao suspender tributos federais cruciais, como o Imposto de Importação, o IPI e o PIS/Cofins por até cinco anos para equipamentos de infraestrutura de dados, o governo brasileiro reduz significativamente o custo de entrada e modernização tecnológica. O impacto dessa medida ultrapassa as fronteiras nacionais e cria um efeito dominó por toda a América Latina: o custo reduzido atrai capital estrangeiro de grande escala, posicionando a região como um hub estratégico e altamente competitivo para a construção de data centers de última geração. Sem servidores locais potentes e infraestrutura de rede resiliente, rodar modelos fundacionais de IA de forma ágil e segura poderia ser economicamente inviável, sendo assim, o Redata se torna capaz de permitir que empresas de diversos setores processem dados massivos com baixa latência e custos otimizados. Segundo um mapeamento conduzido pela Bain&Company, essa movimentação estrutural encontra um mercado corporativo maduro e faminto por transformação. A pesquisa aponta que a IA já atinge impressionantes 95% das empresas no Brasil e figura entre as cinco maiores prioridades estratégicas para 86% das lideranças de negócio. O tema migrou das diretorias de tecnologia diretamente para as mesas dos conselhos de administração e dos CEOs.
Esse cenário demonstra que o empresariado local não discute mais se deve ou não implementar a IA, mas sim com qual velocidade consegue e deve fazê-lo para não perder competitividade. A urgência por escalabilidade traz à tona desafios complexos que exigem soluções igualmente sofisticadas. O primeiro e mais latente deles é a qualificação de talentos.
A escassez de profissionais capacitados para criar, implementar e auditar sistemas complexos de IA é um gargalo global. Não basta consumir tecnologia de fora, mas capacitar engenheiros de dados, especialistas em arquitetura de nuvem e profissionais de negócios que saibam extrair valor dessas ferramentas em larga escala. Para além da formação humana, muitas organizações ainda sofrem com arquiteturas de informação fragmentadas e silos organizacionais que geram dados de baixa qualidade. Alimentar modelos de IA com bases de dados inconsistentes é um convite ao erro estratégico e às crescentes ameaças à segurança cibernética, exibindo a necessidade de estabelecer uma governança corporativa rígida que garanta a privacidade, a ética e a resiliência dos sistemas diante de ataques cada vez mais sofisticados. Não podemos esquecer também que, à medida que expandimos nossa capacidade de processamento, o debate sobre a sustentabilidade e os critérios ESG ganha contornos obrigatórios. Os data centers modernos, cruciais para a IA, exigem uma quantidade massiva de energia e recursos, e a própria legislação do Redata inteligentemente prevê contrapartidas ambientais severas, exigindo o uso de fontes de energia limpa e renovável. É fato que a América Latina tem todas as condições para dar um salto histórico na adoção de inteligência artificial. Entretanto, é necessário o alinhamento entre incentivos governamentais eficientes e o forte desejo corporativo mapeado pelos dados de mercado. Nosso legado será medido pelas fundações sólidas que construímos em termos de infraestrutura, educação de talentos, segurança e sustentabilidade para garantir a prosperidade e a relevância global. *Ricardo Ferreira é VP & General Manager Latam da DXC Technology Mais Lidas
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