Efeito dominó da menopausa: por que corpo, mente e pele mudam ao mesmo tempo

 

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Para muitas mulheres, a menopausa não se manifesta com um único sintoma claro, mas com uma sequência de mudanças que, à primeira vista, parecem desconexas: pele que perde o viço, cabelo que afina, sono fragmentado, humor instável e acúmulo de gordura, principalmente na região abdominal. É um verdadeiro "tudo ao mesmo tempo": alguns sintomas, como os fogachos, surgem de forma intensa; outros, como o aumento gradual da gordura abdominal, se instalam de forma silenciosa.

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"Sem dúvida, a mulher que não identificou os sintomas como sendo da menopausa apenas não ligou os pontos. Ela pode não ter sentido os calorões, mas a pele, o cabelo e, em muitos casos, a própria saúde mental e cognitiva também estão envolvidas. Esse conjunto de alterações faz parte de um mesmo fenômeno biológico, uma espécie de efeito dominó hormonal que impacta múltiplos sistemas ao mesmo tempo", explica Patricia Magier, ginecologista e criadora do Método Plena, que propõe cuidado completo, profundo e individualizado para a mulher.

A especialista diz que a principal engrenagem desse processo é a queda do estrogênio. "Embora muitas pessoas acreditem que esse é um hormônio apenas com função reprodutiva, ele atua como regulador metabólico, neurológico e estrutural. O estrogênio participa da manutenção da pele, da distribuição de gordura corporal, da sensibilidade à insulina e até da regulação do sono e do humor. Há receptores de estrogênio no cérebro, onde estão amplamente distribuídos (especialmente no hipocampo, córtex pré-frontal e amígdala) e atuam na modulação da memória, humor, cognição e neuroproteção. Quando ele diminui, o corpo inteiro precisa se adaptar", detalha.

Na pele, a redução hormonal compromete a produção de colágeno, elastina e ácido hialurônico, provocando flacidez, ressecamento e maior evidência de rugas. "Muitas mulheres acreditam que isso é resultado apenas do envelhecimento natural, mas a entrada na menopausa acelera esses processos de forma significativa. Sabemos que é possível perder até 30% do colágeno cutâneo nos primeiros cinco anos após o início da menopausa. Esse impacto também se reflete no cabelo, que pode se tornar mais fino, frágil e crescer mais lentamente devido à alteração no ciclo dos folículos capilares", afirma.

O metabolismo também sofre alterações importantes. A queda do estrogênio diminui a sensibilidade à insulina, favorecendo o acúmulo de gordura visceral, especialmente na região abdominal, associada ao risco cardiovascular. "Muitas mulheres relatam manter os mesmos hábitos e, ainda assim, começar a ganhar peso. Isso vai além das calorias consumidas: há uma mudança na forma como o corpo utiliza e armazena energia. A eficiência metabólica se altera e precisa ser compreendida e manejada de maneira integrada", complementa a especialista.

O sono é outro sistema impactado. Fogachos noturnos e alterações nos neurotransmissores podem fragmentar o descanso, reduzindo sua qualidade. Além disso, a diminuição do estrogênio enfraquece músculos da bexiga, uretra e assoalho pélvico, aumentando a frequência urinária, a urgência e a noctúria. "Então, não é incomum que o próprio funcionamento da bexiga prejudique o sono. Esse descanso menos reparador interfere diretamente no controle do apetite e no equilíbrio emocional, criando um ciclo difícil de quebrar", observa a Dra. Patricia.

Do ponto de vista neurológico, a redução do hormônio influencia substâncias como serotonina e dopamina, contribuindo para irritabilidade, ansiedade e episódios depressivos. "Não é apenas uma reação emocional, mas uma mudança neuroquímica real. É comum que a mulher se sinta diferente de si mesma, como se tivesse perdido o controle sobre o próprio corpo e suas emoções. Confusão mental, falta de memória, queda de produtividade e oscilações de humor refletem o impacto da queda hormonal na cognição", pontua a médica.

Essa percepção, muitas vezes invisível, é uma das principais dificuldades desse período. "Ao vivenciar múltiplas mudanças simultâneas, a mulher pode ter a sensação de que algo está errado, quando, na verdade, seu organismo está passando por uma transição fisiológica complexa. A boa notícia é que, ao entender esse efeito dominó, é possível intervir de forma estratégica. Abordagens integradas, alimentação adequada, prática de atividade física, manejo do estresse, higiene do sono e, quando indicado, terapias hormonais ou não hormonais, podem ajudar a minimizar os impactos e restaurar o equilíbrio", acrescenta.

O objetivo, segundo a Dra. Patricia, vai além do tratamento de sintomas isolados. "É necessário reconhecer a interconexão entre pele, metabolismo, cérebro e comportamento. Quando a mulher entende que tudo está ligado, ela deixa de se culpar e passa a buscar soluções mais eficazes e personalizadas", conclui.