Educação humanista e civismo digital entram no centro do debate escolar, avalia Sergio Bento de Araujo
A escola brasileira vive um paradoxo, isso porque, como alude Sergio Bento de Araujo, empresário especialista em educação, nunca houve tanta informação circulando entre estudantes, mas a capacidade de conviver com opiniões diferentes parece mais frágil. A rotina escolar passou a refletir, com mais intensidade, conflitos que antes ficavam do lado de fora. O que acontece nas redes sociais atravessa o portão, molda relações e altera expectativas sobre autoridade, respeito e pertencimento.
Nesse contexto, cresce a discussão sobre civismo digital. O termo não se limita à etiqueta online. Ele envolve habilidades sociais e cognitivas para participar do espaço público sem reduzir o outro a inimigo. O debate aponta para uma transformação necessária no ambiente escolar, a escola precisa tratar o convívio como parte do currículo, pois a experiência digital já é componente inevitável da vida social.
Redes sociais e mudanças de comportamento no cotidiano escolar
A socialização juvenil mudou de forma acelerada. As redes ampliaram a conexão e o repertório. Porém, também reforçaram comparação constante e respostas impulsivas. A lógica de curtidas e polarização, em muitos casos, reduz espaço para nuance. Isso afeta relações entre estudantes e também o diálogo entre escola e família.
O ambiente digital pode intensificar conflitos, pois mensagens circulam sem contexto e ganham interpretações rápidas. Boatos se espalham com facilidade. Divergências viram disputas. E o adolescente, ainda em formação, tende a experimentar pertencimento por meio de grupos e narrativas fechadas.
Sergio Bento de Araujo avalia que a escola não pode responder a esse cenário apenas com proibição. Para ele, a transformação exige educação para a convivência. Isso inclui orientar sobre linguagem, responsabilidade e escuta. Quando a escola cria espaços estruturados de diálogo, reduz o risco de o conflito digital virar ruptura no cotidiano presencial.
Educação humanista como resposta à desinformação e à intolerância
A educação humanista reaparece como conceito central. A ideia não é romantizar o passado. É recuperar fundamentos que sustentam a convivência democrática: respeito, argumentação, empatia e responsabilidade coletiva. Em um ambiente digital que incentiva frases curtas e reações rápidas, o pensamento reflexivo precisa ser cultivado.
Conforme demonstra Sergio Bento de Araujo, formar para o digital significa formar para o comum. O aluno precisa aprender que participação pública não é ataque, mas construção. E que divergência não exige humilhação. Para ele, a educação humanista dá linguagem e estrutura para esse aprendizado.
A escola como espaço de convivência e reconstrução do diálogo
A discussão sobre civismo digital também reposiciona o papel da escola na comunidade. Famílias esperam que a escola ensine conteúdo, mas também que ofereça ambiente seguro, capaz de reduzir conflitos e fortalecer pertencimento. Isso se torna mais relevante em redes com vulnerabilidade social e alto risco de evasão.
Algumas iniciativas educacionais já mostram caminhos. Programas que combinam diálogo, convivência e projetos integrados, inclusive com esporte e atividades coletivas, reforçam vínculos. Ambientes com escuta estruturada ajudam a reduzir a tensão e a ampliar a sensação de acolhimento. A escola deixa de ser apenas lugar de aula e passa a funcionar como espaço de prevenção social.
Sergio Bento de Araujo destaca que esse papel não é acessório. Ele afirma que o clima escolar é variável estratégica. Onde há convivência saudável, há mais permanência e maior possibilidade de aprendizado. A tecnologia, nesse cenário, não é o centro. O centro é a relação humana.
O que muda na prática: projetos, rotinas e cultura escolar
Transformar civismo digital em prática escolar exige método. Não basta incluir o tema em palestras isoladas. É necessário criar rotinas de debate, mediação de conflitos e participação estudantil. Projetos pedagógicos podem trabalhar temas como linguagem no digital, responsabilidade ao compartilhar conteúdo e impacto de discursos de ódio.
A comunicação com a comunidade também precisa ser mais estruturada. Canais oficiais e respostas claras reduzem ruído e evitam que boatos dominem a narrativa. Isso fortalece a confiança entre escola e família. Além disso, a formação continuada de professores é essencial. A equipe precisa de repertório para lidar com conflitos que nascem no digital e se manifestam no pátio.
Como considera, Sergio Bento de Araujo, a mudança mais importante é cultural. Ele defende que a escola precisa tratar convivência como parte do projeto formativo. Em tempos de polarização e ansiedade, educação humanista e civismo digital deixam de ser temas abstratos e passam a ser infraestrutura do cotidiano escolar.
A transformação do ambiente escolar, portanto, não depende apenas de tecnologia. Depende de direção clara, projetos consistentes e compromisso com diálogo. Em uma sociedade que se comunica cada vez mais por telas, a escola pode funcionar como espaço que ensina a conversar de verdade.
