Educação além da decoreba: o que deveria entrar no currículo das escolas
Fui uma aluna apenas razoável. Gostava de aprender nosso idioma e amava Geografia — as capitais, fusos, cordilheiras, desertos. O resto, levava na base da decoreba. Cheguei até aqui, deu para o gasto.
Mas, fosse eu a dona da escola, corromperia o currículo padrão: os alunos aprenderiam a viver. O ensino de Português, por exemplo, seria associado à Literatura, mas sem obrigar a leitura de clássicos: transformaria a sala num grande sarau e numa empolgante oficina, onde todos produziriam os próprios poemas e autoficções. Elisa Lucinda seria a professora.
Matemática, o mínimo necessário, e muitas aulas de teatro. Texto, interpretação, dança, canto, choro, riso, circo. Cada aluno teria a oportunidade de se expressar para além do óbvio, em contato direto com as próprias emoções. Neco Piccolo, você assume a turma?
Ninguém se formaria sem saber tocar piano — ou violão, guitarra, violino, berimbau. E a manejar a arte da escultura — ou pintura, cerâmica, bordado. Além disso, inglês e espanhol na ponta da língua.
Esporte teria horário expandido. Vôlei, futebol, ginástica, natação (sendo um sonho, orçamento ilimitado: piscinas!). Nenhum aluno parado. E ioga, pilates, exercícios de baixo impacto. Atividade física seria mais importante do que a tabela periódica.
Culinária. O valor dos nutrientes, a relação do alimento com saúde e longevidade. A escola teria pomar e horta. A garotada descascaria batata, provaria frutas exóticas, criaria as próprias receitas. Bela Gil, Rita Lobo, Carla Pernambuco, nem precisam mandar currículo, o emprego é de vocês.
Filosofia seria indispensável (Viviane Mosé, te convoco). E aulas sobre política. O que é comunismo, fascismo, capitalismo, socialismo, democracia, tirania. Lições de ética e humanidade. A escola também discutiria escravidão, racismo, machismo, transfobia, já que alguns pais acham difícil (ou chato) falar sobre isso na hora do jantar.
Aulas sobre todas as religiões — todas — num contexto de cultura geral. Sem a obrigatoriedade da prática de nenhuma delas no ambiente da escola.
Para fechar o currículo, surpresa: haveria um período em que os alunos é que ensinariam os professores. Matéria: tecnologia. Desde o básico: uso de totens em aeroportos e manejo de três controles remotos ao mesmo tempo.
Os estudantes teriam que frequentar as aulas de manhã e à tarde, pois haveria também Educação Sexual, Educação Financeira, Ambientalismo, Psicologia. Os cursos técnicos e as faculdades se encarregariam, depois, dos conteúdos especializados.
Então eu acordei. Escutei alguém negando o aquecimento global, outro naturalizando feminicídios, outro ainda pedindo a volta da ditadura, e voltei a dormir.
