Editora que fez sucesso com 'Mafalda' fecha as portas na Argentina após obra de Quino deixar catálogo

 

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Uma das editoras independentes mais emblemáticas da Argentina, a Ediciones de la Flor escreveu seu último capítulo na história do mercado editorial do país no fim do mês passado. A notícia do encerramento das atividades veio após os sobrinhos herdeiros de Quino anunciarem, ainda em 2025, que toda a obra do cartunista passaria para o selo Sudamericana, da multinacional Penguin Random House. “Mafalda” era um dos principais títulos de venda contínua da editora.

Fundada em 1966 por Daniel Divinsky e Ana María Kuki Miller, o selo também contou, em seu lançamento, com a participação do editor Jorge Álvarez e do lembrado “advogado dos escritores” Oscar Finkelberg, que ajudou a conseguir a libertação dos fundadores após mais de cem dias presos durante a ditadura militar argentina. O casal se divorciou em 2009, e Divinsky deixou a editora em 2015. Desde então, Miller assumiu a direção editorial.

Em entrevista ao jornal La Nacion, Miller afirmou comentou sobre a falência da empresa.

— A editora não está à venda, como nunca quisemos fazer. Simplesmente estou encerrando as atividades porque considero que o ciclo da editora e o meu chegaram ao fim, independentemente de todos os outros fatores que transformaram o setor.

Até o fim do ano, a empresa continuará funcionando, com cinco funcionários. Há um ano, a De la Flor não imprime novos exemplares.

— Foi um golpe no coração. A De la Flor era Quino e Quino era a De la Flor — disse Miller sobre a saída da obra do amigo. — Não tenho sucessor: meu filho é músico e eu não consigo mais começar uma editora do zero aos 82 anos.

O encerramento também é explicado por outros fatores como a queda no consumo, aumento dos custos e mudanças na forma de editar livros.

Os últimos exemplares da editora incluíam obras como “La Mary”, de Emilio Perina; “Mi padre”, de Arturo Carrera; “El amigo y otros poemas”, de Daniel Samoilovich; “O analista de Bagé”, de Luis Fernando Veríssimo; “Sentimientos completos”, de César Fernández Moreno; “Arnulfo o los infortunios de un príncipe”, de Daniel Guebel; “El palacio de la noche”, de Pablo de Santis; e “Bailen las estepas”, de Susana Szwarc.

Na Argentina, a De la Flor publicou em espanhol o primeiro romance de Umberto Eco, “O nome da Rosa”, em coedição com a Lumen, além de contos e romances de Roberto Fontanarrosa e Griselda Gambaro, romances de John Berger e clássicos de não ficção de Rodolfo Walsh.

“Editar livros na Argentina sempre foi uma corrida de obstáculos e chegamos até aqui aos saltos. Hoje, a tecnologia e a situação econômica exigem desafios muito diferentes, decisivos para uma editora que sempre teve a independência como bandeira. Esta é nossa última feira e nosso último ano de atividade. Nos despedimos sabendo que nosso legado vive nas novas editoras criadas por jovens que cresceram com nossos livros e que as obras que publicamos com convicção e amor continuarão nas bibliotecas e na memória dos leitores. Obrigado por fazer parte desses 60 anos da nossa história”, afirmou a editora em comunicado.