Economia, 'nove dedos' e acusações sobre corrupção dominam debate da Globo; veja como foi o último confronto entre Flávio Bolsonaro e Lula

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Fonte da notícia: Valor Valor

Os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocaram a economia no foco do debate da Globo, realizado nesta sexta-feira (23). No último confronto antes do segundo turno, no domingo (25), os presidenciáveis tentaram falar para o eleitor indeciso, divergiram sobre propostas para saúde, segurança e trocaram farpas, com Flávio usando a expressão "nove dedos" para se referir ao presidente, que rebateu com "miliciano".

Nos blocos finais, a tensão aumentou quando os candidatos debateram sobre segurança pública e corrupção, que trouxeram à tona acusações sobre Master e fraudes no INSS. O presidente reiterou o desafio pela abertura dos sigilos bancário e telefônico.

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Veja quem os candidatos levaram para o debate Já no início do primeiro bloco, Flávio explorou o endividamento das famílias e o poder de compra das famílias que, segundo ele, não conseguem mais encher o carrinho de compras.

O candidato do PL explorou a promessa do presidente feita em 2022 de que a população voltaria a comprar picanha, em um simbolismo do aumento do poder de compra. “Você prometeu e não cumpriu”, criticou Flávio.

Lula afirmou que seu governo fez duas edições do programa Desenrola, para reduzir o endividamento da população, e disse que a próxima edição do programa vai “resolver o problema”. “Queremos que a economia seja reativada”, disse o presidente.

Lula relacionou o endividamento às bets, proibidas pelo governo federal às vésperas do primeiro turno. “Vamos fazer com que o dinheiro que a pessoa ganha sobre para cuidar da família”, disse.

“As mulheres desse país são favoráveis [a acabar com as bets] porque querem que o dinheiro do marido e o dinheiro dela seja usado para as crianças e não para fazer aposta”, disse Lula. O presidente vinculou o endividamento da população às bets.

Flávio retrucou e disse que o adversário “enrolou o povo”. “Antes, [a população] parcelava a geladeira, agora parcela o que está na geladeira.

Está parcelando pizza no iFood por seis meses.” Ainda no embate econômico, para tentar emparedar Flávio, que havia criticado o anúncio de uma PEC por Lula para estabelecer tarifa zero dos ônibus aos fins de semana, o presidente questionou o adversário sobre a proposta.

O senador disse ser favorável à tarifa zero aos fins de semana e na resposta, afirmou: “Não adianta dar com uma mão e tirar com nove dedos”. A fala desagradou Lula que, no segundo bloco, lembrou que perdeu um dos dedos da mão em um acidente de trabalho.

"Se alguém sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu. Não vou admitir que um miliciano me chame de nove dedos." Flávio disse que se “Lula se sentiu ofendido, eu peço desculpas”.

Vídeo: Lula rebate provocação de Flávio sobre 'nove dedos' Imagens TV Globo

Lula buscou explorar a sua experiência no Executivo e reagia com ironias quando o adversário mencionava números e indicadores em sequência. O presidente comparou Flávio a um aluno "decoreba".

Diversas vezes disse que seu adversário "não conhece o Brasil" e sugeriu ao espectador "dar um Google" para confirmar as informações. Segurança pública

Flávio escolheu o tema da retomada de territórios para falar sobre combate ao crime organizado. Na resposta, Lula citou Cristiane Gomes da Silva, a mãe da menina Ana Clara, que foi morta aos cinco anos, e cujo suposto assassino foi defendido pelo senador, que é advogado.

A mãe da garota estava na plateia. "O que leva um senador da República a defender um policial que deu um tiro de fuzil em uma criança? Que segurança é essa?", questionou Lula, apontando para Cristiane, sentada na primeira fila, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).

"Ana Clara, quero falar com a senhora", disse Flávio, confundindo os nomes. Segundo o senador, ele "tem segurança" que o policial acusado não cometeu o crime.

"Ele ainda nem foi julgado", disse Flávio. Campanha de Flávio vê acerto em estratégia de 'imagem técnica e moderada'

O senador voltou a falar que irá classificar facções como Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC) como "narcoterroristas", algo que o governo é contra. "Eu vou tratar bandido como bandido", disse.

Em tempo de resposta, Flávio faz aceno às mulheres empreendedoras prometendo o rastreamento de agressores. Ele também prometeu a criação da Casa da Mulher Brasileira para o acolhimento de mulheres e seus filhos vítimas de violência, o que já existe hoje.

O senador reiterou sua proposta de acabar com a maioridade penal para condenados por estupro. "Eu sou a favor da diminuição da maioridade penal.

Por mim, não vai ser nem para 16 anos. Em caso de estupro, seria de 14 anos", afirmou Flávio.

"Você que é estuprador, você que é abusador, você vai sofrer castração química", completou o senador. A prática não é permitida hoje no Brasil pela Constituição.

Em seu tempo de resposta, concedido a ele por ter sido chamado de "miliciano", Flávio diz que Lula o acusa de crimes que nunca cometeu. O senador aproveita esse momento para falar sobre suas propostas em segurança pública: combater o crime organizado e classificar as milícias como organizações narcoterroristas.

Corrupção No bloco final, os ataques pessoais dominaram o embate.

Lula citou polêmica envolvendo o senador e o jogador de futebol Richarlison em torno da posse de um imóvel de luxo na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. O candidato do PL colocou o ex-banqueiro Daniel Vorcaro no debate ao questionar Lula sobre o recebimento de um whisky pelo presidente da República.

Lula nega ter recebido presentes e relembra a relação do senador com Vorcaro, a quem pediu dinheiro para financiar o filme "Dark Horse". “Quem é amigo do Vorcaro é você, quem pegou R$ 134 milhões do Vorcaro é você.

Não me coloca nessa vala, não”, disse. “Quantas fotos tem você abraçado a ele? Tenha coragem de dizer que vocês são parceiros.”

Flávio desconversou e disse que o dinheiro que recebeu de Vorcaro foi para financiar um filme sobre seu pai. O senador acusou Lula de corrupção.

Lula retrucou. “A verdade é que temos uma quadrilha solta no país”, disse, em referência a Flávio e aliados.

Flávio tenta desgastar Lula ao associar o filho do petista, Fábio Luís Lula da Silva, ao dono do sítio de Atibaia e relembrou a relação do filho com a empresária Roberta Luchsinger, suspeita de tráfico de influência. O presidente repetiu o desafio pela abertura de sigilos, a exemplo do que fez no debate da Band.

Salário mínimo e programas sociais Lula usou a política de reajuste do salário mínimo para questionar as propostas econômicas do adversário.

O presidente comparou as suas gestões à de Jair Bolsonaro ao dizer que o valor do salário mínimo seria hoje de R$ 900 se dependesse dos reajustes concedidos pelos governos do bolsonarista e de Michel Temer. O petista provocou o adversário a responder por que já chamou o Bolsa Família de "Bolsa Farelo" e por que votou contra um projeto para ampliar licença-maternidade quando era deputado estadual.

Flávio demonstrou desconforto ao responder e disse que hoje votaria de forma diferente. “Isso faz bastante tempo e na época votei achando que isso fosse dificultar as mulheres terem emprego”, disse.

O candidato do PL disse que, se eleito, reajustará a remuneração mínima acima da inflação. "Eu vou reajustar o salário mínimo acima da inflação, para quebrar a sua fake news", afirmou.

Flávio também afirmou que não vai privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil nem a Caixa Econômica Federal. Flávio defendeu o governo do presidente da Argentina, Javier Milei, depois de o presidente ter criticado a gestão do país vizinho.

“A esquerda governou a Argentina e destruiu o país”, disse. “Milei teve que consertar as coisas ruins.

Terei o mesmo trabalho aqui.” Juros e Banco Central

Flávio utilizou o endividamento da população para desgastar a gestão de Lula, em especial entre os eleitores mais pobres. O presidente, por sua vez, atribuiu a alta taxa dos juros ao Banco Central e questionou o bolsonarista sobre o tema.

" Por que vocês fizeram o Banco Central independente? É pergunta", disse o petista. O candidato do PL afirmou que a independência do BC foi um "legado" do governo do seu pai.

"Fizemos um Banco Central independente para evitar que presidentes que são gastadores, como você, chegassem em um momento como esse e colocassem um político lá para diminuir a taxa de juros na canetada. É isso que a gente não pode deixar acontecer com o Brasil.

Isso é um legado de Jair Bolsonaro, sim. É para mostrar que não tem apego ao poder", afirmou.

O senador voltou a dizer que a taxa de juros deve cair se ele for eleito e afirmou que hoje esse percentual seria de 7% sem este novo mandato de Lula. Sem tratar de números, Flávio disse que irá comprar as dívidas dos brasileiros como forma de diminuir o endividamento.

A isso, Lula destacou o pacote de propostas legislativas enviado ao Congresso para tratar do endividamento de pessoas físicas e de Microempreendedores Individuais (MEIs). O presidente ainda destacou as outras medidas do Planalto voltadas aos MEIs, como o aumento do teto de faturamento e a elevação do número de funcionários que uma empresa desse tipo pode ter.

Lula ainda buscou responder sobre a acusação de que trocaria o presidente do BC por razões políticas dizendo que teve "presidente do Banco Central por 8 anos e não o trocou". Infraestrutura e exportação

Flávio foi sorteado para começar a responder e o tema sorteado foi infraestrutura e exportação. Os dois candidatos trocaram acusações sobre obras paradas no país.

“O Brasil voltou a ser um grande cemitério de obras”, disse Flávio, citando obras paralisadas na gestão do presidente Lula. O presidente retrucou e disse que seu adversário não conhece o Brasil.

“Se ele conhecesse, ele saberia que em nenhum outro momento se investiu em obras de infraestrutura”, disse o petista, destacando ações de seu governo. O petista destacou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e listou obras para rodovias, ferrovias e portos e aeroportos.

“Eu vou continuar as obras porque vou ganhar as eleições”, disse o petista. Vídeo: Flávio diz que país é ‘grande cemitério de obras’

Imagens TV Globo Flávio afirmou que, se eleito, vai “rasgar” o país em ferrovias e defendeu a concessão de rodovias e portos.

O senador disse que terminará a Transnordestina e que pretende tratar a internet como infraestrutura. “Vou levar internet para aldeias indígenas.

Quero um Brasil conectado”, disse. Lula ironizou o adversário e afirmou que “o adversário parece aqueles alunos que decoram para o vestibular”.

“Sabe decorar, mas não aprende”, disse o presidente, destacando, em seguida, que seu governo está fazendo a Transnordestina, investindo em obras como o túnel Santos-Guarujá (SP) e que vai concluir a transposição do rio São Francisco. Na sequência, disse que seu governo é o que mais investe em infraestrutura.

Flávio buscou explorar ausências e falhas de infraestruturas para atacar o tratamento da região Norte pelas gestões petistas. O senador culpou as políticas ambientais do Executivo federal de Lula pela falta de infraestruturas e argumentou que os indígenas devem decidir "o que eles vão fazer nas suas terras".

O candidato do PL defendeu ainda a criação de datacenters, a ampliação da Zona Franca de Manaus e uma maior produção nacional de fertilizantes. Para este último tópico, o bolsonarista utilizou o conceito de soberania nacional, explorado pela campanha petista.

Em resposta, Lula destacou o potencial da economia verde e criticou a gestão de Ricardo Salles à frente do Meio Ambiente. "Se ele conhecesse o Amazonas Se ele conhecesse um pouco do potencial da economia verde, ele ia perceber que a floresta em pé, colocando os indígenas para cuidar da terra, tem muito mais potencial do que abaixo", afirmou o postulante do PT.

Pandemia e SUS Lula destacou um ponto criticado do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, o enfrentamento da pandemia da covid-19 e a falta de tanques de oxigênio para os amazonenses como forma de retrucar a questão de Flávio sobre a região.

"Não conhece o Brasil. Acho que ele só ouviu falar de Manaus e da região Norte quando o pai dele apareceu na TV rindo e imitando uma pessoa asfixiada e morrendo porque não tinha oxigênio.

Se ele conhecesse tudo o que a gente faz pelo Amazonas, pode perguntar para os senadores: mais investimentos em saneamento básico, internet, construção de estradas", disse o presidente. No debate da Band, Flávio reconheceu as falhas do governo do pai, Jair Bolsonaro, no combate à covid-19.

Nesta sexta-feira, usou o tempo para rebater que o pai tenha sido insensível às vítimas. No terceiro bloco, os candidatos discutiram sobre investimentos na saúde.

O atual chefe do Executivo acusou o adversário de cortar investimentos do Sistema Único de Saúde (SUS), que respondeu questionando a espera nos hospitais públicos. Lula citou uma fala de Cláudio Lottenberg, um dos possíveis nomes de Flávio para a Saúde, que disse, em 2019, que o SUS "não precisava de mais investimentos".

"Não são palavras minhas, são deles. Como vai melhorar a saúde? É com o tesouraço?", quesitonou o presidente.

"O tesouraço vai ser na corrupção. O problema do SUS é que o dinheiro é mal aplicado", afirmou Flávio.

"Você chega no hospital e é fila em tudo. Eu vou investir, sim, no SUS.

Uma pessoa que está na fila de transplantes, vou investir nisso." O presidente retomou a gestão de Bolsonaro durante a pandemia.

"O SUS é o responsável por evitar que morresse mais gente na covid. No governo do pai dele, quem tomasse vacina ia virar gay, ia virar jacaré...

Ele até inventou um remédio, a cloroquina", afirmou Lula. "Graças a Deus, existia o SUS, com médicos, faxineiros e enfermeiros que colocaram sua vida em risco", completou, acusando o ex-presidente de "debochar" dos doentes.

Educação Flávio acusou Lula de zerar o Orçamento federal para o período integral e de maquiar os recursos enviados para a área.

"Eu vou fazer o que você não fez, candidato. Você zerou o orçamento federal para o ensino integral e tentou maquiar uma outra cifra", afirmou o senador.

O senador prometeu estimular que as crianças passem mais tempo na escola por meio da criação de programas de ensino técnico nos contraturnos para o ensino de "profissões do futuro", além da oferta de bolsas em creches particulares caso não haja vagas em públicas. O presidente, por sua vez, comparou as suas gestões às do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusando-o de ter retirado recursos de institutos federais e universidades.

Ele também prometeu ter todas as escolas em período integral até o fim de um eventual mandato. "Nós vamos concluir no próximo mandato 100% das escolas em tempo integral nesse país até o ensino médio.

Vamos estender o pé de meia para universidades, porque não querermos que nenhum jovem desista da escola", respondeu o petista.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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