Ebola: por que parentes invadem hospitais para buscar os corpos das vítimas? Entenda

Ebola: por que parentes invadem hospitais para buscar os corpos das vítimas? Entenda

 

Fonte: Bandeira



Em meio às notícias de aumento nos casos e mortes suspeitos de Ebola na República Democrática do Congo, que já ultrapassam 900 infectados e 220 vítimas, também se acumulam relatos sobre invasões de hospitais.

A principal causa dos ataques é o choque entre os protocolos sanitários de enterro seguro e as tradições fúnebres locais, além da desinformação e desconfiança da população.

Na noite de domingo, um grupo de pessoas invadiu um hospital em Mongbwalu, uma grande cidade da província de Ituri, no nordeste do país, para levar o corpo de um líder religioso que havia morrido de Ebola.

— Eles queriam recuperar o corpo de um sacerdote católico que havia morrido de Ebola — explicou um funcionário do local, que pediu anonimato. Segundo ele, a vítima era “muito conhecida, um líder religioso de Mongbwalu”, cidade com cerca de 130 mil habitantes. Soldados intervieram para dispersar a multidão com tiros de advertência.

Na quinta-feira passada, houve um tumulto no hospital de Rwampara, outro foco do surto de Ebola em Ituri. Os manifestantes incendiaram as tendas destinadas ao isolamento dos doentes depois que um jovem de 24 anos, filho de um militar, morreu de Ebola e a família exigiu o corpo para fazer o enterro — o que foi negado.

Em frente ao hospital, após o tumulto, famílias de três pacientes falecidos esperavam nervosas pelo enterro deles. "Meu irmão não morreu de Ebola, é uma doença imaginária", disse à agência AFP Jérémie Arwampara.

"Por que se recusam a nos entregar o corpo? É meu irmão mais velho, não posso ter medo dele", protestou Ezekiel Shambuyi.

Resguardadas pelos muros do hospital, as equipes de saúde se preparavam para os enterros, vestindo macacões, luvas e óculos de proteção. Por fim, saíram com três caixões brancos e pretos, colocados em um triciclo.

Em meio aos ataques, uma dezena de pacientes suspeitos de estarem contaminados acabaram fugindo ou desaparecendo do Hospital Geral de Referência de Mongbwalu.

Risco de contágio

O Ebola é uma doença viral letal transmitida por contato direto com fluidos corporais. A infecção pode provocar hemorragias graves e falência múltipla de órgãos. Os corpos das vítimas podem ser contagiosos.

No entanto, nas zonas rurais da RDC, "os familiares se lançam sobre os corpos, tocam os cadáveres e as roupas dos mortos enquanto organizam rituais funerários que reúnem muitas pessoas", explicou na semana passada à AFP Jean Marie Ezadri, líder da sociedade civil em Ituri.

Assim, as autoridades do país determinaram que o trabalho de enterrar os corpos seja feito por profissionais. Os caixões são borrifados com desinfetante pelas equipes hospitalares e enterrados rapidamente por homens com os rostos cobertos por trajes de proteção.

Rituais

Diante do surto, cujo risco foi elevado de "alto" para "muito alto" pela Organização Mundial da Saúde (OMS), rituais fúnebres tradicionais foram proibidos pelas autoridades de saúde no momento, como:

lavagem ritualística do corpo,

toque de despedida (a tradição local exige o toque físico nas roupas e no corpo),

velórios prolongados (com vigílias noturnas),

grandes assembleias fúnebres (reuniões com comida e bebida que integram toda a comunidade).

transporte privado de corpos:

Atualmente, há uma restrição rigorosa imposta pelo governo limitando os sepultamentos a um número máximo de 50 pessoas.

Para garantir que as regras sejam seguidas, a RDC reforçou a segurança e passou a realizar funerais sob escolta militar, gerando revolta e a falsa impressão na comunidade de que os corpos estão sendo "roubados" pelo Estado.