Ebola: da origem da infecção à letalidade do surto, veja em 4 pontos o que ainda falta ser respondido sobre a emergência internacional
No último fim de semana, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, decretou que o surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda representa uma emergência de saúde pública de importância internacional, o estágio mais elevado de alerta da organização.
A medida foi tomada devido à escala e à rapidez com que os casos têm se disseminado. Em atualização nesta terça-feira, já eram mais de 500 casos e 130 mortes suspeitas associadas ao surto.
— Não tomei essa decisão de forma leviana. Fiz isso (...) porque estou profundamente preocupado com a amplitude e a rapidez da epidemia — disse Tedros durante discurso na Assembleia Mundial da Saúde, que acontece em Genebra, na Suíça.
Essa é a 9ª vez que a OMS instaura o mais alto nível de alerta – e a terceira relacionada ao vírus Ebola. Abaixo, entenda em 4 pontos o que falta esclarecer sobre o novo surto.
1. Origem do surto
No dia 5 de maio, a OMS foi notificada sobre mortes na província de Ituri, na RDC, na ocasião por causa desconhecida. Após investigação, no dia 15, foi confirmada a detecção do Bundibugyo, uma espécie do vírus Ebola para a qual não há vacinas ou tratamentos específicos disponíveis. Nesse dia, porém, já havia 246 casos suspeitas e 80 mortes ligadas ao surto, um número elevado mesmo para o Ebola.
A maioria dos casos tinha entre 20 e 39 anos. Um entrave que levou à demora do diagnóstico é que os testes apresentaram resultados negativos para a cepa Zaire do Ebola, que é a mais comum, e não havia exames para o Bundibugyo disponíveis na região.
Além disso, os sangramentos nasais característicos do Ebola só começaram no quinto dia de infecção. Por isso, apenas quando amostras foram enviadas e analisadas na capital da RDC, Kinshasa, é que o vírus foi confirmado.
A OMS investiga ainda qual é a origem do surto. O primeiro caso suspeito identificado foi um trabalhador da área da saúde que relatou sintomas como febre, hemorragia e vômitos no dia 24 de abril e que morreu dias depois em um centro médico de Bunia, capital de Ituri. Mas ainda não se sabe como teve início a disseminação do vírus.
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— Não acho que tenhamos o ‘paciente zero’ por enquanto. O que sabemos até agora é que, em 5 de maio, houve uma pessoa que morreu em Bunia. O corpo foi levado de volta para Mongbwalu e colocado em um caixão. E então a família decidiu que o caixão não era digno da pessoa. E, portanto, trocaram o caixão. Depois houve o funeral, e foi a partir daí que começou — disse Anne Ancia, representante da OMS na RDC em coletiva de imprensa nesta quinta-feira.
A espécie Bundibugyo do Ebola é considerada uma zoonose, ou seja, uma doença que circula entre animais. Acredita-se que morcegos frugívoros sejam os principais reservatórios naturais do vírus, e que a infecção entre humanos ocorra pelo contato próximo com sangue ou secreções de animais contaminados.
Depois, porém, o vírus se espalha entre humanos pelo contato direto com sangue, secreções, órgãos ou outros fluidos corporais de pessoas infectadas ou por superfícies contaminadas. De acordo com a OMS, essa transmissão é particularmente ampliada em serviços de saúde com medidas de prevenção inadequadas e durante práticas inseguras de sepultamento que envolvem contato direto com pessoas falecidas, como ocorreu com o óbito em Bunia.
No momento, a OMS trabalha com a hipótese de que os casos se originaram na região de Mongbwalu, em Ituri, que é uma área de mineração com grande circulação de pessoas, com infectados subsequentes migrando para distritos maiores da província, como Rwampara e Bunia, em busca de atendimento médico.
“Uma investigação epidemiológica completa e um trabalho de rastreamento retrospectivo estão em andamento”, diz a OMS.
2. Qual a extensão do surto
Quando o vírus Ebola foi confirmado, já havia um elevado número de casos em diferentes locais. Por isso, as autoridades sanitárias ainda trabalham para entender qual a escala exata do surto, com dezenas de mortes sendo confirmadas a cada dia.
— Há grande incerteza sobre o número de infecções e até onde o vírus se espalhou — contou Anne. Ela destacou que uma dificuldade é que a região afetada é marcada por um “contexto epidemiológico, operacional e humanitário altamente complexo, marcado por insegurança, deslocamento populacional e áreas tanto densamente povoadas quanto remotas”.
Até a quinta-feira, 10 zonas de saúde na província de Ituri foram atingidas, além da província de Kivu do Norte, com casos confirmados em Butembo e Goma, uma grande cidade da RDC. Além disso, a Uganda, país vizinho, também confirmou dois casos importados da RDC, incluindo uma morte.
“O papel de Ituri como centro comercial e migratório, além de sua proximidade com Uganda e Sudão do Sul, aumenta o risco de exportação regional e de transmissão transfronteiriça”, alerta a OMS.
Para o Brasil, porém, não há no momento risco de que o Ebola se dissemine e provoque surtos como o observado nos países africanos. Para Leonardo Weissmann, infectologista do Hospital Regional Jorge Rossmann, em São Paulo, e mestre em Ciências, Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade de São Paulo (USP), o meio de transmissão do patógeno dificulta a sua maior dispersão pelo mundo:
— Embora a possibilidade de importação de um caso por viajante não possa ser completamente descartada em um mundo globalizado, o Ebola não é uma doença de transmissão aérea. O contágio ocorre por contato direto com sangue, secreções e outros fluidos corporais de pessoas infectadas ou falecidas pela doença, o que limita significativamente sua capacidade de disseminação em comparação com vírus respiratórios, como influenza ou SARS-CoV-2, que causa a Covid-19.
3. Qual é a letalidade do surto
Segundo a OMS, em surtos anteriores da espécie Bundibugyo, a taxa de letalidade do vírus foi de 30% a 50%, ou seja, até metade dos casos morreram. No atual, entre os registros suspeitos, a proporção está em cerca de uma morte a cada quatro infectados, uma taxa de aproximadamente 25%. Esse percentual, porém, ainda deve mudar com a identificação de mais casos e óbitos.
4. Há vacinas que funcionam?
Embora não existam doses direcionadas especificamente para a espécie Bundibugyo, o diretor-geral da OMS disse que a organização analisa “quais vacinas ou tratamentos candidatos estão disponíveis e se algum deles poderia ser usado neste surto”:
— Um grupo consultivo técnico da OMS se reunirá para fornecer recomendações adicionais à OMS sobre quais potenciais vacinas devem ser priorizadas.
Uma das doses em consideração é a Ervebo, uma vacina contra o vírus Ebola Zaire que não foi testada no contexto de circulação do Bundibugyo. Estudos em animais sugerem que, embora não sejam a mesma espécie, o imunizante pode oferecer algum grau de proteção para o Bundibugyo.
Cientistas correm para testar imunizantes e antivirais contra o Bundibugyo no novo surto porque a circulação do vírus é necessária para avaliar a eficácia das terapias. E, como a sua ocorrência é rara – apenas outros dois surtos foram registrados, em 2007 e 2012 –, não há muitas oportunidades como essa para testá-las.
Relembre outras emergências internacionais de saúde
Mpox - 2022 a 2023 | 2024 a 2025
Paciente com monkeypox é examinado no hospital Arzobispo Loayza em Lima, no Peru
Ernesto BENAVIDES / AFP
A última emergência a ter sido decretada e a ter chegado ao fim foi relacionada à mpox em 2024 após uma nova linhagem do vírus ter sido associada a um surto com mais de 14 mil infectados e 524 mortos na República Democrática do Congo (RDC). Em maio de 2025, após uma diminuição de quase 90% no número de casos notificados, a OMS deu fim ao status de alerta.
Antes disso, em 2022, a doença, que já era endêmica em alguns países africanos, como na RDC, se disseminou pela primeira vez globalmente e de forma inédita por meio de relações sexuais. Nessa época, foi também a primeira vez que a OMS decretou emergência internacional por conta do vírus.
Naquele ano, a mpox atingiu todos os continentes habitados, provocando cerca de 85 mil casos e pouco mais de 120 óbitos. O Brasil foi o segundo país mais afetado. Porém, com a queda de novos casos, em maio de 2023, quase um ano depois, a OMS decidiu encerrar a emergência. Ainda assim, o vírus continua a circular em muitas localidades.
Covid-19 - 2020 a 2023
Cemitério do Caju, covas rasas em tempo de Coronavírus.
Gabriel Monteiro / Agência O Globo
A pandemia da Covid-19 levou a OMS a instaurar emergência ainda no dia 30 de janeiro de 2020. A crise sanitária, uma das piores da História da humanidade, foi provocada por um novo coronavírus descoberto em 2019 na cidade de Wuhan, na China.
Até agora, foram registradas mais de 7 milhões de mortes e 700 milhões de infectados. Um novo relatório da OMS, porém, estima que o número de mortes excessivas entre 2020 e 2023 chega, na realidade, a 22 milhões, mais que o triplo. O total engloba tanto óbitos que não foram notificados oficialmente, como aqueles decorrentes do impacto da crise sanitária nos serviços de saúde.
No entanto, com a vacinação, que envolveu a maior campanha já realizada no planeta, os casos e, principalmente, a gravidade da doença diminuíram. Dessa maneira, também em 2023, no dia 5 de maio, a OMS deu fim ao cenário de emergência de saúde de importância internacional.
Ebola - 2019 a 2020 | 2014 a 2016
Surto de ebola na Guiné.
AFP / SEYLLOU
Antes do surto atual, já houve duas emergências internacionais pelo vírus Ebola. A última foi decretada em julho de 2019 devido a um surto também na República Democrática do Congo (RDC) e chegou ao fim em junho do ano seguinte.
A anterior foi o surto de maior magnitude que ocorreu na África Ocidental, instaurada entre agosto de 2014 e março de 2016. Ao longo de 28 meses, foram registrados 28,7 mil casos e 11,4 mil mortes, com temores de que a doença se espalharia para outros continentes e países.
Zika - 2016
Mosquito Aedes aegypti, transmissor de dengue, zika e chikungunya.
NIAID
Em fevereiro de 2016, em meio ao aumento de distúrbios neurológicos e malformações fetais devido à infecção de gestantes pelo vírus da Zika, transmitido pelo Aedes aegypti, a OMS decretou um cenário de emergência internacional. O status chegou ao fim em novembro do mesmo ano.
Gripe suína - 2009 a 2010
A infecção humana causada pelo vírus influenza A(H1N1)v é conhecida como 'gripe suína'
Freepik
Alguns anos antes, em outro cenário que envolveu fortemente o Brasil, a OMS instaurou emergência de saúde pública internacional devido aos casos de gripe suína H1N1. A doença recebeu esse nome por ser uma nova versão do Influenza que infectava pessoas, porcos e aves.
O surto deixou cerca de 284 mil mortos, e a cepa H1N1 se tornou uma das que causam a gripe sazonal hoje. A emergência foi decretada pela OMS em abril de 2009 e durou até agosto de 2010.
Poliovírus - 2014 até agora
Vacinação contra a póliomelite People
Márcio Alves / Agência O Globo
A pólio é uma doença viral antiga que causa paralisia infantil e foi erradicada em muitos países, como no Brasil, graças à vacinação. No entanto, frente à manutenção da transmissão internacional do patógeno, a OMS decidiu declarar uma emergência em maio de 2014, que continua em vigor até hoje. A medida é parte dos esforços para erradicar a doença do planeta.
