Dulce Quental revê sucessos como cantora e compositora em show que estreia nesta sexta-feira (24) no Rio
Dulce Quental é aquela cantora que, no começo dos anos 1980, esteve à frente do grupo de rock Sempre Livre em hits como “Eu sou free”, “Esse seu jeito sexy de ser” e “Fui eu” (de Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso). E a mesma que, pouco mais tarde, em carreira solo, trouxe um tanto de charme e sofisticação ao pop BR em gravações de “Caleidoscópio” (outra de Herbert, que só mais tarde os Paralamas gravariam) e “Natureza humana” (versão dos irmãos Waly e Jorge Salomão, para o sucesso de Michael Jackson “Human nature”).
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Mas, agora, ela é “A mulher escondida nas canções”, título do show que estreia amanhã, às 20h, no Acaso Cultural, em Botafogo, na Zona Sul do Rio.
— Com o tempo, entendi algo simples: as pessoas vão ao show para celebrar a própria vida. Querem ouvir as músicas que marcaram a juventude, os amores, as dores de cotovelo. Por muitos anos, eu não consegui oferecer isso. Estava concentrada em me formar como artista: estudar, dominar as ferramentas do ofício — conta Dulce. — E o estouro veio cedo demais: saí do anonimato para a superexposição e para uma sobrecarga de trabalho. Hoje, eu volto a esse repertório com mais leveza e mais recursos e consigo reler essas canções de outro lugar.
Dulce não ficou parada no tempo: depois dos 80, foi parceira de Roberto Frejat num dos maiores sucessos do Barão Vermelho (“O poeta está vivo”, tributo a Cazuza), de Ana Carolina e Chiara Civello (em “Resta”, do verso “aquela mulher escondida nas letras de tantas canções”), de Paulinho Moska (em “Bordados de psicodelia” e “Fino e invisível”, que gravaria em seu álbum de 2004, e “Beleza roubada”), de Zélia Duncan (em “Capuccino”, outra do “Beleza”)...
— E venho dialogando, nessas últimas décadas, com expoentes de gerações diferentes, como Zé Manoel, Jonas e Pedro Sá, Raul Misturada e Paulo Monarco. Agora, meu diálogo é com esse jovem guitarrista, Pedro Terra (com quem ela divide o novo show). Através dessa troca entre gerações, a gente se renova. Artistas trabalham com a linguagem, e a linguagem evolui. É preciso evoluir com ela — recomenda a artista, que nos últimos anos lançou os álbuns “Música e maresia” (2016) e “Sob o signo do amor” (2022). — Agora que estou cantando enquanto toco (no show, ela empunha ora o violão, ora a guitarra), a cantora e a compositora estão em simbiose imperfeita. A atenção se dilui muito ao tocar e cantar ao mesmo tempo. Exige prática e uma automação dos gestos que, com o tempo e a repetição, se tornam mais naturais.
Cantora que sempre foi “meio bossa nova e meio rock’n’roll”, Dulce volta aos palcos para mostrar, além dos hits e de suas composições, algumas curiosas recriações que fez em seus LPs dos anos 1980, como as de “Terra de Gigantes” (Engenheiros do Hawaii), “Pros que estão em casa” (Hojerizah) e “Minha flor, meu bebê” (Cazuza). Num show despido de artifícios, ela se diz “totalmente nua: carne, nervos e osso”.
— Não tem banda nem efeitos especiais para me segurar. Sou eu, com minhas qualidades e imperfeições. Acho que o estilo se faz das nossas características. Na expressão artística, acho que interessam menos o belo e a perfeição e mais o buraco onde o Outro pode se encontrar. Eu diria que a mulher escondida talvez possa se encontrar ali, entre diferentes espelhos — arrisca. — Fui entendendo que a música é uma linguagem corporal. O cantor é um atleta vocal. A música tem a sua língua, de cifras e notas, que hoje sei escrever e ler. Me sinto mais preparada: toco instrumento, domino recursos de gravação e edição. Na prática, sou gravadora, selo digital, editora e ainda carrego o piano nas costas.
