'Dubai acabou'? Estrangeiros refletem sobre a sensação de segurança e a tentativa de manutenção da normalidade em meio a ataques aéreos
Considerado um destino dos sonhos e altamente seguro para muitos influencers, personalidades e empresários, Dubai enfrenta um período conturbado depois de ter sido "arrastado" para o conflito entre EUA, Israel e Irã. Hotéis de luxo já foram atingidos por bombardeios e espaço aéreo foi fechado. Além das consequências da guerra armada, os Emirados Árabes Unidos (EAU), onde não há imprensa livre, enfrentam uma guerra de informações e desinformação nas redes.
De acordo com informações da emissora inglesa BBC, pelo menos 21 pessoas foram acusadas de "crimes cibernéticos" nos EAU por postagens nas redes sociais mostrando ataques recentes. Um britânico de 60 anos faz parte dos acusados pelo governo e contou à BBC que as queixas direcionadas a ele foram "vagas".
Explosão nas imediações do Aeroporto Internacional de Dubai
AFP
Dubai foi alvo de dois terços dos mísseis iranianos e três explosões massivas abalaram a cidade na manhã de quarta-feira (11/3), causando danos ao aeroporto internacional. Quatro pessoas ficaram feridas quando dois drones atingiram o terminal. Até mesmo o hotel Fairmont, em Palm Jumeirah, foi atingido pelo Irã, enquanto funcionários de bancos ocidentais, incluindo o Standard Chartered e o Citi, deixaram os seus escritórios em meio a ameaças da República Islâmica de que seriam os próximos alvos de bombardeios.
'O brilho definitivamente se apagou'
Ao mesmo tempo, a internet fervillha com postagens exageradamente positivas e outras sensacionalistas a respeito da região. No instagram, o influenciador "Sharkao" compartilhou imagens falsas sobre uma suposta saída em massa de Dubai depois de ataques do Irã. No meio desse caos na região que era vista como um paraíso no Oriente Médio, muitos se perguntam: "Dubai acabou"?
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"O brilho definitivamente se apagou", disse John Trudinger, um britânico residente em Dubai há 16 anos, ao jornal "The Guardian".
John emprega mais de 100 professores do Reino Unido na sua escola. Segundo ele, a maioria dos seus funcionários está "profundamente traumatizada e com muita dificuldade para lidar" com a guerra. Alguns "fugiram" e disseram que nunca mais voltarão.
O taxista Zain Anwar viu o seu carro destruído em um ataque com míssil. O imigrante declarou que a sua família está implorando para que ele volte para o Paquistão.
"Não quero mais ficar em Dubai, não há negócios, não estamos ganhando nada desde essa guerra e não vejo o turismo voltando. Muitos taxistas, como eu, estão pensando em ir para outro país. Todo mundo sabe que Dubai acabou", afirmou ele.
Na contramão, influencers usam suas contas em redes sociais para defender a normalidade na região e exaltar os governantes do país. As postagens são parecidas e levantaram suspeitas de patrocínio governamental para a manutenção de uma boa imagem do país.
Influencers postam mensagens idênticas sobre 'segurança em Dubai' em meio à queda de mísseis iranianos
Reprodução/Instagram
Nos vídeos, as criadoras de conteúdo digital escrevem: "Você vive em Dubai, está assustado? Não! Porque sei quem nos protege", mostrando do sheik Mohammed bin Rashid Al Maktoum, o governante do emirado de Dubai.
A russa Makshayeva Anastasiya seguiu a mesma linha sobre 'segurança em Dubai' em meio à queda de mísseis iranianos
Reprodução/Instagram
A britânica Luisa Zissman compartilhou uma publicação zombando de turistas assustados que fugiram de Dubai e estão "fingindo que voltaram da linha de frente".
A estrela do programa "The Apprentice", de 38 anos, mudou-se do Reino Unido para os Emirados Árabes Unidos em dezembro e declarou apoio ao governo emiradense, chegando a afirmar que é o "país mais seguro do mundo", apesar da onda de ataques com drones.
Mas, depois de repetir fielmente a versão oficial de que o emirado continua aberto para negócios, ela retornou ao Reino Unido.
O compatriota Ben Moss admitiu estar mais preocupado com a possibilidade de ser multado ou preso por publicar conteúdo "inadequado" do que com os próprios explosivos letais.
"Sinto-me completamente seguro aqui por causa das defesas aéreas dos Emirados Árabes Unidos, mas as leis às vezes me preocupam, então sempre mantenho uma atitude positiva", comentou o influencer.
Dubai não possui vastas reservas de petróleo e depende da sua população de estrangeiros, que representa cerca de 90% do emirado. Para se manter como um paraíso seguro para esse grande contingente, o governo lançou uma campanha desesperada de relações públicas, dizendo às pessoas que os "grandes estrondos" no céu são "o som de que estamos seguros", enquanto o sistema de defesa aérea dos Emirados Árabes Unidos entra em ação.
Mas o que dizem os brasileiros que vivem na região?
Vitor Veil, de 38 anos, é fisioterapeuta e professor de dança em Dubai, onde mora desde 2022. Ele participa de um evento bastante frequentado pelos brasileiros do emirado: o forró de domingo. O encontro foi criado no ano passado e já virou tradição para muitos moradores da região.
Vitor decidiu sair do Brasil em busca de oportunidades de trabalho e considera Dubai "um projeto desenvolvido com sucesso" que atrai pessoas por causa da segurança e facilidade de empreender.
"Acredito que os conflitos da região geram uma sensação de instabilidade porém não creio que apague o brilho da cidade. Especialmente porque em situações de dificuldade, como foi com a Covid-19, o governo mostrou atenção e cuidado com a população. Existe uma sensação de incerteza, mas também há segurança transmitida pelo governo", disse ele ao PAGE NOT FOUND.
Questionado sobre a forma como Dubai será vista depois do término do conflito, Vitor disse acreditar que a credibilidade do emirado não será muito afetada.
"Nesse exato momento não tem como pensar em Dubai como a cidade dos sonhos, visto que o mundo inteiro está de olho em como o governo vai lidar com essa situação. Acredito que a conclusão desse período vai ditar como o emirado vai ser visto daqui pra frente. E por isso mesmo, o governo tem feito bastante esforço pra lidar com essa crise", acrescentou.
Para o brasileiro, os esforços de propaganda do governo, que visam manter a boa imagem do país, não possuem "dissonância" com a realidade:
"Eles se esforçam para tornar o que prometem realidade. Não há dissonância entre a 'propaganda' e a realidade. Inclusive, quando a situação melhorar, farão questão de explicar que lidaram bem com os ataques e como fizeram tudo isso."
Quando entra em contato com parentes no Brasil, Vitor também tenta passar a própria visão da situação e desmentir alguns relatos publicados na internet.
Vitor Veil (esq.) e Michelli Possmozer (dir.): brasileiros moradores de Dubai contaram ao PAGE NOT FOUND sobre a situação do emirado em meio ao conflito entre EUA e Irã
Divulgação
A comunidade brasileira, segundo o professor, comunica-se bastante em grupos de Whatsapp, informando que locais estão seguros e quais não estão. Em momentos de possível ataque, Vitor disse que o governo envia avisos, pedindo para que as pessoas procurem locais seguros e, posteriormente, com a situação normalizada, retomem a rotina.
Notificações enviadas à moradores de Dubai e outros emirados quando há risco de ataque; à esquerda, notificação de ataque e pedido para que a população permaneça em lugar seguro; à direita, notificação informando sobre retorno à normalidade
Reprodução
Vitor também revelou que escutar os sons de mísseis ou drones sendo abatidos se tornou comum desde o início dos ataques, mas que nos últimos dias a frequência diminuiu.
"Tem gente que até fala que se você ouviu algum som é um bom sinal, porque o míssil ou drone foi interceptado. Mas assusta mesmo porque é um som bem alto. A gente as vezes também ouve o barulhos dos caças que ficam monitorando o espaço aéreo, mas nesses últimos dias tem diminuído", declarou ele.
O governo também avisa sobre possíveis movimentos estratégicos do Irã à população, segundo o brasileiro:
"Estão falando muito que agora o Irã está querendo mirar bancos americanos. Inclusive muita gente que trabalha em banco foi instruído a ficar de home office até que verifiquem se é real a ameaça mesmo."
'A sensação de muitos é realmente de medo'
'Sensacionalismo'
Michelli Possmozer, de 40 anos, atuou como jornalista no Brasil durante 15 anos e é mais uma brasileira que se mudou para Dubai. Ela contou ao PAGE NOT FOUND que viajou para o emirado há um ano e meio para estudar inglês e optou por permanecer lá, onde mora e hoje exerce a profissão de personal trainer. Michelli reforça a sensação de medo, mas afirma que ainda se sente segura para seguir a vida com "normalidade".
"A sensação de muitos é realmente de medo com relação a tudo que está acontecendo, porque a gente (brasileiros) nunca viveu esse tipo de conflito. O cenário é de incerteza, mas as pessoas nascidas aqui acham que isso não vai mais durar muito tempo. Eu tenho me sentido segura para sair de casa e confio no sistema de defesa do governo", disse Michelli.
A personal trainer ecoou o relato de Vitor e também comentou sobre os estrondos de interceptações e avisos nos celulares:
"Os estrondos das interceptações são recorrentes. Praticamente todos os dias a gente escuta. E a gente também recebe os alertas. Então quando tem algum drone ou míssil sendo interceptado, a gente recebe o alerta para não sair de casa no celular, e quando está tudo seguro eles também mandam esses alertas avisando que a gente já pode voltar às atividades normalmente."
Perguntada sobre a pressão do governo para manter as boas aparências, Michelli disse estar ciente dos esforços de propaganda, mas que não acredita que o país "esteja maquiando" os acontecimentos:
"Há, sim, lugares atingidos por destroços de drones e mísseis, mas o país inteiro não está pegando fogo. Há um pouco de sensacionalismo da mídia estrangeira, na minha opinião."
A brasileira não planeja deixar Dubai, mas acredita que a região será afetada na esfera turística com os ataques.
"Dubai era um destino que muitas pessoas planejavam viagens para passar férias, mas acredito que isso realmente vai ficar prejudicado por conta tanto da guerra. Há uma certa tensão, mas acredito que a situação vai se resolver e não pretendo ir embora", concluiu.
Jogador deixou o país
Jhonatan David, de 29 anos, é um jogador de futebol e atuava pelo Fursan Hispania F.C., time da segunda divisão do campeonato dos Emirados Árabes Unidos. Em relato ao PAGE NOT FOUND, ele contou que deixou Dubai depois do início do conflito por orientação de empresários.
"Recebi o contato de um clube na Polônia e, depois de conversas com meus agentes, preferimos aceitar, ainda mais depois de todos os acontecimentos. Enquanto estava lá, vi alguns mísseis no céu, mas a percepção geral da população era boa, porque confiava no sistema de defesa do governo", contou o atleta.
'Receosa de fazer coisas ao ar livre'
Jéssica Santos, de 31 anos, é comissária de bordo e, há três anos, mora em Abu Dhabi, outro emirado atingido pela retaliação iraniana aos ataques dos EUA e de Israel. Ela conta que a região também tem sofrido bastante, assim como Dubai, e que a sensação de medo é constante.
"A maioria dos drones e mísseis estão sendo interceptados, mas alguns destroços caíram em algumas zonas e causaram estragos. Acho assustador, principalmente para brasileiros que nunca passaram por uma situação como essa antes. A gente fica incerto do que vai acontecer a cada dia, se vai melhorar ou piorar e apesar de muita gente estar seguindo com a vida normal, eu fico bem receosa de fazer coisas ao ar livre. Muita gente tem esse receio."
Jéssica Santos, 31, comissária de bordo moradora de Abu Dhabi relatou ao PAGE NOT FOUND que o trabalho foi extramemente afetado pelo conflito entre EUA e Irã
Divulgação
Segundo ela, o trabalho de comissária foi diretamente afetado pela situação do país:
"No começo, o espaço aéreo foi totalmente fechado e todos os voos foram cancelados. Com o passar dos dias, alguns voos foram retomados e as companhias postam diariamente em suas redes sociais a lista de decolagens. Então hoje temos alguns voos sendo operados, mas a lista ainda é pequena se comparada aos voos feitos em situação normal. Apesar disso, desde que os EAU começaram a ser afetados pelo conflito, não tive mais voos agendados. Trabalho na Etihad e, lá, recebemos um valor-base, mas sem os voos o salário do fim do mês será bem reduzido."
Apesar disso, Jéssica acredita que a região vai lidar bem com o conflito.
"Mesmo com essa situação, muita gente se sente completamente segura, pois os militares estão fazendo um ótimo trabalho com as interceptações. Depois que isso tudo passar, acredito muito que tanto Dubai como Abu Dhabi continuarão com a imagem positiva para os turistas e pessoas que pretendem migrar para cá", concluiu ela.
(*) Estagiário sob supervisão de Fernando Moreira
