Drama em Ramos marca dia com seis incêndios no Rio; fogo poderia ter queimado um quarteirão inteiro, dizem bombeiros

 

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O Rio viveu uma segunda-feira de trabalho intenso para o Corpo de Bombeiros desde o amanhecer. Ao longo do dia, a corporação foi acionada para seis incêndios em diferentes regiões da cidade, em uma sequência de ocorrências que misturou tragédia, sustos e operações de grande porte. O episódio que mais chamou atenção foi o incêndio de grandes proporções em uma loja de autopeças de motocicletas em Ramos, na Zona Norte, que produziu uma gigantesca coluna de fumaça visível de diversos pontos da cidade e mobilizou pelo menos 100 militares. Apesar da dimensão das chamas, ninguém ficou ferido no local. O contraste com outra ocorrência do dia evidencia o drama vivido pelas equipes: em Campo Grande, na Zona Oeste, duas pessoas morreram em um incêndio dentro de uma residência.

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Incêndio em Ramos

A corporação foi acionada às 6h49 para combater o fogo que atingiu uma loja de peças de venda de motocicletas chamada Motocriss, na Rua da Regeneração, segundo os bombeiros. A empresa, que funciona há cerca de 30 anos e pertence a uma família, ocupa um prédio de quatro andares repleto de materiais inflamáveis. A estrutura do prédio da loja ficou totalmente comprometida, já que os quatro andares foram caindo com o fogo, e, segundo os bombeiros, provavelmente terá de ser demolida. A Defesa Civil do Rio de Janeiro ainda fará uma avaliação técnica nos imóveis vizinhos, alguns dos quais já apresentam rachaduras e pequenos danos estruturais. As causas do incêndio ainda serão investigadas.

Funcionários relataram que uma nova carga de pneus havia chegado nos últimos dias e estava armazenada no quarto andar, onde o incêndio teria começado. No terceiro pavimento, eram guardados óleos e lubrificantes — produtos que também contribuíram para alimentar as chamas.

Incêndio poderia ter atingido outros estabelecimentos próximos

Fabiano Rocha/Agência O Globo

De acordo com o subcomandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio, Luciano Sarmento, quando as equipes chegaram ao local o fogo já estava em estágio avançado.

— O incêndio já era de grandes proporções quando chegamos. Em poucos minutos após nossa chegada houve o colapso estrutural da edificação, o que dificultou muito o combate, porque o combate mais efetivo é quando conseguimos acessar o interior do prédio — explicou.

O desabamento parcial do teto impediu a entrada imediata das equipes e obrigou os bombeiros a montar uma estratégia diferente de combate. Segundo Sarmento, a primeira prioridade das equipes foi evacuar moradores e resgatar animais das casas vizinhas, já que o prédio fica cercado por construções geminadas, residências e comércios colados uns aos outros.

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— Era muito cedo, as pessoas ainda estavam dormindo. As equipes retiraram moradores e conseguimos resgatar animais. A nossa preocupação inicial foi evitar vítimas — afirmou Sarmento.

Em seguida, os bombeiros cercaram o incêndio com equipes posicionadas em pelo menos três frentes.

— Tivemos equipes em todos os flancos do incêndio. Aqui tinha tudo para ser uma tragédia, com a possibilidade de queimar um quarteirão inteiro, dada a carga de material combustível — disse o subcomandante.

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Entre os materiais que alimentaram o fogo estavam pneus, plásticos e outros derivados de petróleo, todos de combustão rápida.

Coluna de fumaça vista de vários bairros

A intensidade das chamas produziu uma espessa coluna de fumaça preta, que rapidamente se espalhou pela região e pôde ser vista de vários pontos do Rio. O incêndio também afetou o trânsito nas proximidades, principalmente na Avenida Brasil, uma das principais vias expressas da cidade, na altura de Ramos e Bonsucesso, com retenções até Parada de Lucas por volta das 10h da manhã. O Centro de Operações e Resiliência (COR) chegou a alertar motoristas para redução de visibilidade causada pela fumaça, enquanto uma faixa da pista lateral precisou ser fechada.

No total, cerca de cem bombeiros e 30 viaturas participaram da operação, que contou ainda com escadas mecânicas e drones equipados com câmera térmica para localizar pontos mais quentes do incêndio.

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— O drone nos permite identificar onde estão as áreas mais quentes para direcionar melhor o combate — explicou Sarmento.

Dono escapou por pouco

No momento em que o incêndio começou, um dos proprietários da loja estava dentro do prédio, mas conseguiu sair a tempo e sem ferimentos. Do lado de fora, ele acompanhava o combate ao fogo em silêncio, visivelmente abalado. Funcionários relataram que o empresário — já um senhor de idade — passou mal e precisou beber água, sentado diante do prédio destruído, sem conseguir acreditar no que via.

Uma funcionária que trabalha há 18 anos na empresa descreveu o clima entre os colegas.

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— Viemos desesperados. Eles não mereciam isso. É uma empresa muito respeitada aqui — disse a funcionária.

Escola vizinha

Ao lado do prédio atingido fica a Escola Técnica Santos Silva, que funciona há 25 anos no bairro. A fundadora da instituição, Sandra Silva, contou que o vigilante que estava de plantão no local sentiu um cheiro estranho ainda por volta das 2h da manhã, horas antes de o incêndio se tornar visível.

— Ele sentiu um cheiro diferente e depois percebeu que estava aumentando. Começou a alertar moradores — relatou.

Apesar da proximidade com o fogo, o prédio da escola não foi atingido. Pelo contrário: o telhado da instituição acabou servindo como ponto de apoio para os bombeiros, que utilizaram a estrutura para posicionar mangueiras e combater as chamas.

— Para mim é um milagre a escola não ter sido atingida — afirmou Sandra, que suspendeu as aulas temporariamente até que o local seja liberado pelas autoridades.

Moradores correm para salvar animais

Entre o medo de as chamas se espalharem e a tensão de terem que deixar suas casas às pressas, moradores de imóveis vizinhos à loja ainda se preocuparam em resgatar seus animais de estimação. A vendedora Rhayane Lira teve como a primeira preocupação encontrar a cadela Lindinha, de 8 anos. Em meio à pressa, ela e o irmão mais novo começaram a procurar a coleira do animal enquanto a cadela se escondia pela casa. Segundo Rhayane, Lindinha estava dentro do quarto, que estava fechado, o que acabou evitando que a cadela respirasse a fumaça mais densa.

— A gente procurando a coleira, procurando a coleira, e ela já tinha sumido pela casa. Peguei no colo, coloquei a coleira e saímos — contou a jovem.

Outra que também viveu momentos de alívio foi Morena Marcelino, de 70 anos. Ela acordou com as chamas e ficou nervosa quando viu que seu cachorro havia em casa.

— Graças a Deus conseguiram subir e trouxeram ele — disse ela, que teve a residência interditada.

Mortos e feridos

Além da ocorrência de grandes proporções em Ramos, o Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro atendeu outros cinco incêndios ao longo desta segunda-feira na capital.

O caso mais grave ocorreu em Campo Grande, onde bombeiros foram acionados às 4h42 para um incêndio em uma residência na Rua Murilo de Vasconcelos. Duas pessoas morreram e uma terceira foi levada ao Hospital Municipal Rocha Faria.

No Leblon, na Zona Sul, equipes combateram um incêndio no sétimo andar de um prédio residencial na Rua Humberto de Campos. Dois homens foram socorridos e encaminhados ao Hospital Municipal Miguel Couto.

Já na Rocinha, o fogo atingiu o terceiro andar de um imóvel de três pavimentos, sem deixar vítimas. Outro incêndio ocorreu em Parque Colúmbia, na Zona Norte, onde as chamas atingiram uma casa, também sem feridos.

Mais tarde, já durante a tarde, o COR informou que houve também um incêndio em ônibus em Madureira, na Rua Carolina Machado, na altura da Avenida Ministro Edgard Romero, que provocou interdição da via e retenções no trânsito.