Dos fundos de um cabaré ao olimpo da moda: a trajetória de Airon Martin, estrela da RIOFW que vai desfilar na Sapucaí

 

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A alegria de Airon Martin vai atravessar o mar e ancorar na passarela. Mais precisamente, na Sapucaí, sexta-feira, às 21h30, onde a Misci, uma das mais aguardadas estreias da Rio Fashion Week, apresentará a coleção de verão 27, Escapismo Tropical. O evento, que vai de terça a sábado no Píer Mauá e em locações externas da cidade, marca a reinserção da capital fluminense no calendário oficial da moda brasileira, depois de um jejum de mais de dez anos. O Sambódromo, inaugurado em março de 1984 e projetado por Oscar Niemeyer, caiu como uma luva na concepção do estilista, de 34 anos. “Em 2022, foi a primeira vez que pisei na Avenida, e fiquei muito impressionado com o carnaval carioca”, diz o designer, que inaugurou a primeira loja no Rio em janeiro, na Rua GarciaD’Ávila, em Ipanema. “Sempre tive um grande amor pela cidade.”

O estilista Airon Martin: todos os looks do ensaio são da Misci

Bruna Sussekind

Natural de Sinop, município de cerca de 225 mil habitantes no Mato Grosso, ele é um dos protagonistas da nova moda brasileira. Realiza crônicas visuais nas quais raízes e modernidade andam de mãos dadas. “Conto, por meio das minhas roupas, um lugar do Brasil que foi pouco relatado, e isso gera desejo na nova geração”, diz o designer. Airon já lançou coleções inspiradas em personagens da literatura nacional, como a de verão 26, baseada no livro de Jorge Amado “Tieta do Agreste”, e em movimentos culturais do país, como “A dama do interior”, que reverencia o Cinema Novo.

O estilista cresceu nos fundos de um cabaré sob forte influência das mulheres da família, a mãe, a avó materna e três tias. Lá, teve lições diárias de estética — “uma sensualidade nada óbvia” — e resiliência. O espírito desbravador, de quem saiu de casa aos 14 anos e chegou à capital paulista aos 22 determinado a realizar sonhos, empresta à retomada fashion do Rio, que, segundo ele, nunca deixou de ditar tendências. “É a capital cultural do Brasil”, crava, sem titubear. “É impossível falar sobre moda nacional sem abordar a carioca, que traz nossa identidade mais forte”, comenta. “É também o lugar em que sou feliz. Me sinto grato à cidade de São Paulo, mas é na capital fluminense que fico pleno. Além de ser onde as pessoas de todo o mundo querem estar”, continua ele, que mora em São Paulo, mas tem endereço fixo no Rio, o apartamento que fica em cima do da da estilista Lenny Niemeyer.

Mesmo apaixonado pela cidade, em janeiro, Airon chegou a afirmar que não participaria da RioFW. Depois, voltou atrás. “Conversei com Gustavo Oliveira, diretor da IMM (empresa organizadora do evento, que tem patrocínio da Prefeitura do Rio), e mudei de ideia. Olhei o projeto de forma diferente. Acredito no time envolvido. Fora isso, valorizo o poder do coletivo. É o máximo estar no mesmo line-up da Lenny (Niemeyer), a quem amo e tenho como madrinha”, diz.

O estilista participou cinco vezes da São Paulo Fashion Week e, desde 2023, optou por desfiles individuais. Sua adesão à semana de moda carioca traz mais relevância à primeira edição do evento. Gustavo Oliveira comemora: “É uma alegria ter a Misci com a gente, voltando às semanas de moda. Airon tem investido na cidade, abriu uma loja em Ipanema que dialoga com o mundo e vai fazer um desfile belíssimo”. Lenny Niemeyer completa: “Seu encontro com o Rio me deixa feliz. É um grande estilista, além de ser um indivíduo ético e repleto de vitalidade”.

Para dar vida à nova coleção — “O trajeto de um caipira chegando à Cidade Maravilhosa” —, Airon se debruçou sobre um passado mítico. “Pesquisei o Píer de Ipanema. Foquei no estilo de Gal Costa e Maria Bethânia, do início dos anos 1970, e acabei naquele pedaço de praia, um oásis em plena ditadura militar”, diz.

Paralelo às pesquisas em território carioca, mergulhou no seu Rio: “Cresci comendo pirarucu”, frisa. “Sou de família nordestina, nasci no Mato Grosso. Nos últimos tempos, o interior ganhou imenso protagonismo cultural em decorrência do poder econômico, puxado pelo agronegócio. Investiguei como seriam os códigos daquele passado de Ipanema misturados aos do Brasil de hoje. A coleção Escapismo Tropical é o mix desses dois mundos.” Como pano de fundo, acrescentou ainda a potência do carnaval. “Porque os desfiles das escolas de samba do Rio falam sobre diversas culturas. Convidei artistas como a carnavalesca Annik Salmon para colaborarem. Ela vai customizar a bolsa Sanfona da Misci (que custa R$ 8.600).” E mais: integrantes das Velhas Guardas de escolas de samba são convidados especiais, e a apresentação terá participação da bateria da Beija-Flor. “Também desenvolvi objetos cenográficos com materiais reciclados da folia”, emenda o estilista.

Annik, por sua vez, conta ter criado espécies de broches com símbolos das principais agremiações carnavalescas para decorar a bolsa. “Utilizei cordões, búzios, pedrarias, ficou linda (risos). Acho incrível um desfile na Sapucaí, valoriza o carnaval e a moda”, comenta.

Airon Martin, protagonista da Rio Fashion Week

Bruna Sussekind

Para a diretora criativa Nídia Aranha — responsável pela cenografia e parte artística do desfile da Misci —, Airon é “uma pessoa de êxodo que pesquisa a latinidade e o Brasil”. “Ele enxergava a capital fluminense de forma romantizada. Mas entrou em contato com outros contextos. A Lenny é a cara da Zona Sul. Sou da Baixada Fluminense e mostrei outras facetas da cidade”, conta. “Ele é aberto, integrativo, generoso e permite que outras pessoas se expandam juntas”, elogia Nídia.

O mood embalado pelas Dunas do Barato (como foram chamadas as montanhas de areia que se formaram na Praia de Ipanema, na altura da construção do emissário submarino, nos anos 1970) é um dos recortes da coleção. “A Gal, musa desse espaço, é a maior referência. Há estampas e mistura de cores. Vamos abordar o poder da liberdade. Investigamos o tropicalismo brasileiro incluindo códigos do interior, de onde venho”, descreve o designer.

Em meio à rotina intensa de criação, o estilista diz sentir falta de algo que o Rio o presenteou. “Morro de saudade da minha rede de vôlei de praia, localizada no Posto 11, em Ipanema. Fico vendo a movimentação do povo no grupo de WhatsApp, e sonhando com esse momento”, afirma Airon, que praticou o esporte semiprofissionalmente ao sair de sua cidade natal, na adolescência.

Discreto, afirma estar casado com o próprio negócio. “Dá tempo para namorar?”, questiona. “E tem uma coisa que desejo falar sobre tesão. Estamos revisitando o Píer de Ipanema, e liberdade tem tudo a ver com libido. Criação e sexo utilizam a mesma energia. Prefiro gastar meu tempo fazendo o que mais amo que é criar. Não é sexo. Cada vez mais tenho certeza disso. Quando vejo um produto que projetei, bem-feito, meu Deus, não existe orgasmo melhor”, exclama. O estilista também associa o Escapismo Tropical a uma habilidade especial dos brasileiros. “Temos muito a agregar. Inclusive ensinar os gringos a beijarem, que nem isso eles sabem”, brinca.

O designer Airon Martin

Bruna Sussekind

Por falar em gringos e terras estrangeiras, a atriz mineira Laura Lufési, do elenco do filme “O agente secreto”, usou um vestido da Misci no tapete vermelho do Oscar 2026, em março. “Foi no improviso, abri meu acervo para ela”, explica o estilista. Mas Airon ressalta a importância de o cinema brasileiro aliar a moda criada aqui à projeção internacional. “É importante trazer a discussão à tona. Quando artistas sobem ao palco falando de cultura brasileira, no mínimo, devem usar uma grife nacional”, opina o designer, que vai lançar inovações na passarela, como biocouro de capim e renda feita de redes de pesca.

O designer Airon Martin

Bruna Sussekind

Amigo de Airon, o produtor Enzo Celulari integra a equipe de construção do desfile e considera o estilista uma “potência da moda nacional”. “Ele mostra o tempo todo que o Brasil é capaz de produzir peças de luxo com identidade, que nossas grifes podem, sim, conquistar outros países”, analisa. Enzo escolhe a palavra impulso para definir a amizade dos dois: “A gente se provoca o tempo todo com perguntas inteligentes”.

É justamente a abertura para os questionamentos uma das molas propulsoras do designer, que não cansa de declarar seu amor ao Brasil e, agora, ao Rio. “Me conecto com a ousadia da mulher carioca, com o lifestyle vibrante da cidade. É apaixonante por ser reflexo do que penso e também do que sou.” Já pode pedir o crachá.

Coordenação criativa: Gabriela Travassos. Beleza: Laura Peres. Assistentes de fotografia: Felipe Viveiros e Victor de Beija.1Assistente de moda: Faby Pernambuco.Produção executiva: Kariny Grativol e Leila Ferrel.Agradecimentos: Sambódromo