Dor crônica, fadiga e impactos emocionais: entenda os desafios de quem tem fibromialgia
No Dia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Fibromialgia, celebrado nesta terça-feira (12), especialistas reforçam a importância de ampliar o debate sobre a síndrome, que provoca dores crônicas generalizadas, fadiga, distúrbios do sono, alterações emocionais e impactos na qualidade de vida dos pacientes. Apesar de afetar milhões de pessoas no Brasil, a fibromialgia ainda enfrenta desinformação, preconceito e dificuldades no diagnóstico, já que os sintomas podem ser confundidos com outras doenças.
A reumatologista Julimar Benedita explica que a fibromialgia é uma síndrome de dor crônica difusa causada por uma disfunção no processamento da dor pelo sistema nervoso central. “Não é inflamação e nem ‘frescura’. O cérebro da pessoa amplifica estímulos. O que para uma pessoa é apenas um toque, para quem tem fibromialgia pode ser dor”, explica.
Entre os principais sintomas estão dor generalizada por mais de três meses, fadiga intensa, sono não reparador, rigidez matinal e dificuldades cognitivas conhecidas como “fibro fog”, caracterizadas por falhas de memória, dificuldade de concentração e raciocínio lento. Também podem ocorrer cefaleia, síndrome do intestino irritável, ansiedade, depressão e hipersensibilidade a sons, luzes e cheiros.
Por ser uma doença sem sinais visíveis em exames laboratoriais ou de imagem, a fibromialgia ainda é alvo de preconceito e incompreensão. “Muitas vezes os exames vêm normais e o paciente ouve que não tem nada. A dor é invisível, e isso aumenta ainda mais a angústia”, destaca a médica.
Impactos psicológicos e emocionais
Por ser uma doença crônica e sem cura, a fibromialgia pode trazer impactos que vão além da dor física. Quem convive com a síndrome percebe alterações e limitações na rotina, desde o ambiente familiar até o profissional. Segundo o Ministério da Saúde, a doença pode surgir após traumas físicos, psicológicos ou até mesmo infecções.
De acordo com a neuropsicóloga do comportamento Patrícia Vieira, de Belém, a relação entre o diagnóstico da fibromialgia e o desenvolvimento de transtornos como ansiedade e depressão varia conforme o histórico de vida de cada paciente.
“Quando a pessoa é diagnosticada, ela é orientada a procurar um especialista neuropsicólogo, que vai trabalhar a questão neurológica do sujeito, que é a história dele desde que nasceu. Além disso, também trabalha a mente e o corpo”, explica.
Segundo ela, a fibromialgia raramente aparece de forma isolada. “Ela acontece porque o sujeito já adquiriu diversos comportamentos neuropsicopatológicos até o ponto de ter o diagnóstico. Então ele não é só diagnosticado por conta das suas questões neuropsíquicas. Tem também toda uma investigação fisiológica, orgânica, para que um diagnóstico seja fechado”, destaca.
A especialista ressalta que a ansiedade faz parte dos mecanismos naturais do ser humano, mas pode se tornar patológica dependendo das experiências e do desenvolvimento emocional de cada pessoa, especialmente em pacientes com dores crônicas.
“O sofrimento vai além das dores do corpo, prejudica a mente, o neurológico. É uma causa de muita tensão. E essa tensão deve ser tratada pelos profissionais da saúde mental, não só pelo profissional especialista que cuida da fibromialgia”, pontua.
Patrícia Vieira também diferencia terapias complementares da psicoterapia clínica. Segundo ela, atividades como exercícios físicos, acupuntura, pintura e dança auxiliam no bem-estar e na saúde mental, mas em muitos casos não substituem o acompanhamento especializado de profissionais da saúde mental.
Além dos impactos físicos e emocionais, pessoas com fibromialgia ainda enfrentam preconceito e incompreensão social, inclusive dentro da própria família. “É comum pensar que aquela pessoa está fingindo, está com preguiça. Só para quem sente as dores, é diferente. Ninguém quer estar doente, ninguém quer sentir dor”, afirma.
A neuropsicóloga também destaca a importância do cordão de girassol, utilizado para identificar pessoas com deficiências e doenças ocultas, como a fibromialgia. Segundo ela, o acessório pode ajudar pacientes a terem seus direitos respeitados em locais públicos e atendimentos prioritários.
Mesmo diante das dificuldades, Patrícia reforça que existem tratamentos capazes de melhorar a qualidade de vida dos pacientes. “Que cada fibromiálgico procure, além do tratamento com o neurologista, com o reumatologista, atendimento psicológico. E se as coisas ficarem mais difíceis, que procurem ajuda psiquiátrica. As terapias são importantíssimas, não devemos descartar nenhum método para viver bem”, finaliza.
Diagnóstico pode levar anos
Segundo a reumatologista Julimar Benedita, o diagnóstico da fibromialgia é clínico e pode levar entre dois e sete anos para ser concluído. Isso ocorre porque muitos profissionais ainda buscam alterações em exames laboratoriais ou de imagem antes de considerar a síndrome.
Atualmente, o diagnóstico segue critérios do Colégio Americano de Reumatologia (ACR 2016), que utilizam índices de dor difusa e escalas de gravidade dos sintomas. “Hoje não é mais necessário apertar os chamados ‘tender points’. O diagnóstico leva em conta a dor crônica, fadiga, alterações do sono e sintomas cognitivos por mais de três meses, sem outra doença que explique o quadro”, afirma.
A médica explica que outras doenças podem apresentar sintomas semelhantes, como hipotireoidismo, artrite reumatoide, lúpus, deficiência de vitamina D e apneia do sono, o que exige investigação detalhada antes da confirmação diagnóstica.
Tratamento e qualidade de vida
Embora não tenha cura, a fibromialgia pode ser controlada. Segundo Julimar Benedita, entre 60% e 70% dos pacientes apresentam melhora significativa quando recebem tratamento multidisciplinar adequado. “O objetivo é reduzir a dor, melhorar o sono e devolver funcionalidade ao paciente. Vida normal é possível”, afirma.
Ela destaca que o principal tratamento é não medicamentoso, com foco em atividade física regular, educação do paciente, terapia cognitivo-comportamental e higiene do sono. “Exercício físico é o melhor remédio. Ele aumenta endorfina e serotonina e ajuda a religar os circuitos inibitórios da dor. O sedentarismo piora a dor e a dor faz a pessoa se movimentar menos. É preciso quebrar esse ciclo”, explica.
Entre os medicamentos mais utilizados estão duloxetina, pregabalina e amitriptilina, além de terapias complementares como fisioterapia, hidroterapia, pilates, yoga e acupuntura.
A médica também alerta para os impactos da doença no trabalho e na vida social. “É uma das maiores causas de afastamento do INSS. O paciente sofre com faltas, perda de produtividade, dificuldade de concentração e isolamento social. Muitas pessoas ouvem que ‘não têm cara de doente’”, observa.
Segundo Julimar, as mulheres representam entre 80% e 90% dos casos diagnosticados. As hipóteses envolvem fatores hormonais, genéticos e até maior exposição a situações traumáticas. “A fibromialgia é uma dor sem curativo. É gente que sofre e ouve que ‘isso é da sua cabeça’. E é da cabeça sim, mas não é invenção. É o cérebro gritando alto demais”, conclui.
Atendimento especializado no Pará
A fibromialgia não é uma doença de notificação compulsória, segundo a Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa). Por isso, não existem dados epidemiológicos oficiais que retratem sua incidência ou prevalência com precisão no Estado.
Em 2025, o Governo do Pará inaugurou o Hospital da Mulher do Pará, que oferece atendimento especializado às mulheres com fibromialgia, por meio de terapias específicas. Além disso, hospitais de referência em neurologia, como o Hospital Abelardo Santos e o Hospital Ophir Loyola, também realizam acompanhamento de pacientes com a síndrome.
O acesso aos serviços especializados ocorre por meio da Atenção Primária à Saúde, responsável pela avaliação inicial, triagem e encaminhamento adequado para a rede de referência.
A Sespa informou ainda que trabalha em um plano de ampliação do atendimento às pessoas com fibromialgia na rede estadual de saúde, buscando fortalecer a assistência multidisciplinar e o acolhimento aos pacientes.
Sobre a Carteira de Identificação da Pessoa com Fibromialgia, a Secretaria orienta que a emissão do documento é feita digitalmente, por meio da plataforma Gov.br. Para solicitar, é necessário apresentar RG, CPF, comprovante de residência, Cartão SUS e laudo médico que comprove o diagnóstico da síndrome. Após análise e validação das informações, a carteira digital é enviada ao e-mail cadastrado pelo solicitante.
