Dopamina rápida, dopamina lenta: duas maneiras muito diferentes para um adolescente amadurecer

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Não existem, biologicamente, dois tipos de dopamina. A molécula é a mesma. “Dopamina rápida” e “dopamina lenta” não são expressões científicas, mas termos usados popularmente para explicar diferentes maneiras do cérebro funcionar, tipos muito diferentes de experiência. O que muda é a forma como nosso sistema de recompensa é estimulado: a velocidade, a intensidade, a previsibilidade, o esforço necessário e a frequência com que a recompensa aparece. A dopamina também não é simplesmente a “molécula do prazer”. Ela participa sobretudo da motivação, da aprendizagem e da expectativa: ajuda o cérebro a identificar o que merece ser repetido. Quando uma experiência produz uma recompensa, principalmente se ela é inesperada, aprendemos rapidamente a procurá-la outra vez. É aí que entra o que se convencionou chamar de “dopamina rápida”. São recompensas quase instantâneas, obtidas com esforço mínimo: abrir uma notificação, receber uma curtida, assistir a um vídeo de quinze segundos, passar para o próximo, ganhar uma fase de um jogo, comprar alguma coisa com um clique. Uma recompensa termina e outra já está disponível. O problema não está no prazer rápido em si. Comer algo gostoso, rir de uma piada ou ouvir a música favorita também pode produzir recompensa imediata. O problema aparece quando grande parte do cotidiano passa a ser dominada por estímulos muito frequentes, intensos, fáceis e, principalmente, imprevisíveis. As redes sociais são especialmente eficientes nesse mecanismo. Nunca sabemos o próximo conteúdo: uma piada, uma notícia assustadora, uma pessoa bonita, ou um vídeo que gera ódio e medo. Essa incerteza é poderosa para a aprendizagem por recompensa: talvez o próximo seja ótimo. Então rolamos mais uma vez. E daí vem o vício. Depois de horas vivendo nesse ambiente, abrir um livro pode parecer dolorosamente devagar. Aprender violão implica errar dezenas de vezes. Fazer exercício cansa antes de produzir bem-estar. Escrever um texto exige concentração. Uma conversa longa não muda de assunto a cada oito segundos. É isso que podemos chamar, como metáfora, de “dopamina lenta”: recompensas construídas ao longo de um processo. Correr alguns quilômetros, aprender um idioma, tocar uma música inteira, cozinhar, fazer amizade, montar alguma coisa, ler um romance, desenvolver uma habilidade ou passar pelas etapas de um projeto e finalmente terminá-lo. Há espera, frustração, esforço e, finalmente, resultado e domínio.

Essas experiências nos treinam para algo cada vez mais raro: tolerar o intervalo entre o desejo e a recompensa. E isso ganha importância especial na adolescência. O cérebro adolescente está atravessando uma enorme reorganização. Os sistemas envolvidos na busca por recompensa e informação social ganham enorme relevância, enquanto as redes cerebrais de controle, planejamento e regulação continuam seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo, aprovação, pertencimento e status entre os pares passam a ter um peso extraordinário. Estudos mostram que adolescentes são mais sensíveis que adultos ao feedback recebido nas redes sociais e que até variações no número de “likes” podem afetar intensamente seu humor. É difícil imaginar uma tecnologia mais perfeitamente adaptada a essa fase do desenvolvimento do que uma máquina que oferece novidade constante, recompensas imprevisíveis e avaliação social pública, vinte e quatro horas por dia. Há ainda outro componente poderoso: para o adolescente, a recompensa digital frequentemente é social. Não é apenas assistir a um vídeo divertido; é descobrir se alguém respondeu, se foi incluído, se recebeu curtidas, se ficou de fora, se a selfie fez sucesso.

O risco é claro: quanto mais o cérebro se acostuma a recompensas frequentes e de baixíssimo esforço, maior pode ser a dificuldade de permanecer em atividades cuja recompensa demora a chegar. O feed sempre vence o capítulo difícil, se todas as vezes em que surge tédio, frustração ou ansiedade houver um celular ao alcance da mão. Por isso, o chamado “detox de dopamina” tem um nome ruim, mas uma ideia aproveitável: reduzir deliberadamente a exposição aos estímulos que capturam nossa atenção de maneira automática e devolver espaço às recompensas que exigem tempo. Para adolescentes, isso significa criar ambientes em que o autocontrole não precise lutar o tempo inteiro contra uma indústria bilionária especializada em capturar atenção. Tirar notificações, manter o celular fora do quarto à noite, evitar redes durante estudo e refeições, criar períodos do dia sem smartphone e adiar o primeiro mergulho digital da manhã são medidas simples e eficazes. Mais importante ainda é ocupar o espaço liberado: esporte, amigos presencialmente, natureza, leitura, música, trabalhos manuais, cozinhar, criar, construir e aprender alguma coisa difícil. O tédio também tem uma função importante. Quando cada intervalo da vida é preenchido pelo celular — no elevador, no carro, na fila, no banheiro — desaparecem aqueles minutos preciosos em que a mente divaga, organiza ideias, cria ou simplesmente contempla a vida. São preciosas porque assim construímos nossa subjetividade. Talvez a habilidade que precisemos devolver aos adolescentes seja justamente esta: suportar alguns minutos em que nada extraordinário acontece. Uma vida interessante quase nunca é uma sequência de recompensas instantâneas. Grande parte das coisas que realmente valem a pena começa sendo difícil ou tediosa. O prazer vem depois do esforço. E aprender a esperar por ele é uma das formas mais importantes de amadurecer.

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